O Roberto e o Zé tinham sete e cinco anos, e fumavam beatas apanhadas do chão à porta da taberna. Esta é a primeira memória que tenho daquele dia onze de agosto de mil novecentos e noventa e nove.
A história passou-se numa pequena aldeia do interior alentejano.
Eu e um grupo de miúdos, alguns dali, outros, como era o meu caso, habitantes de fim de semana, tínhamos combinado ir ver o eclipse ao ponto mais alto da serra, porque o velho barbeiro nos dissera que quanto mais perto do Sol, maior a visibilidade do fenómeno.
Acreditámos.
Saímos cedo, não devia passar muito das sete. Lembro-me de que ninguém contou aos pais a verdade acerca da odisseia que pretendíamos realizar.
Vamos ver o eclipse. Dissemos.
Como podiam eles desconfiar de que faríamos algo tão arriscado, quando para atingir o objetivo a que nos propúnhamos bastaria olhar para o céu?
Lá fomos. Com os corações a bater ao compasso dos grandes exploradores e aventureiros. Devíamos ser uns quinze rapazes e raparigas de diferentes idades, unidos naquele momento por uma missão que, acreditávamos, nos mudaria.
E mudou, de facto. Apenas não da forma que esperávamos.
O Roberto e o Zé, filhos de uma das famílias mais pobres da aldeia e autoproclamados diabretes oficiais do lugarejo, não tinham sido convidados a fazer parte da comitiva. Eram demasiado novos e arruaceiros, sujos, malcriados e imprevisíveis. Por isso, toda a organização fora feita à boca pequena, com a discrição férrea que os adolescentes conseguem ter quando querem esconder alguma coisa.
Mas o Roberto e o Zé, pequenos e secos, de tez morena, eram como os grilos. Cantavam onde e quando lhes apetecia, e tão depressa surgiam como desapareciam por entre as frestas das portas e das esquinas.
Tentámos, por isso, eu e o meu grupo clandestino, usar apenas as ruas menos habitadas, no caminho que conduzia à saída da aldeia e à estrada que levava à serra. Fizemo-lo em silêncio, lembro-me bem. E havia uma eletricidade no ar, como um prurido de excitação.
Os irmãos surgiram como se se materializassem do chão de lajes negras, à porta da taberna que só abria às cinco. Estavam a acabar de acender duas beatas apanhadas do beiral e puxavam o fumo como homens grandes.
Nunca esquecerei a forma intrépida como nos fitaram, com os seus olhos estreitos e negros.
− Vão ver o eclipse − disse um, sem perguntar.
− Também vamos − disse o outro.
− Desapareçam, gaiatos! − bradou-lhes um rapaz. − Vamos lá acima, à serra. Isto é só para a malta mais velha.
− Ou nos deixam ir ou contamos a toda a gente − respondeu o mais velho.
− Queres levar um enxerto de porrada, puto?
Mas o Roberto e o Zé não tinham medo de nada. Muito menos daquela ameaça, tão banal e quotidiana com a qual conviviam na placidez da aceitação.
O pai, homem de trabalho à jorna, bebia muito e era mau. Batia na mulher e nos quatro filhos, com a violência de quem queria exorcizar demónios e frustrações. Quisera o destino, tantas vezes irónico na sua natureza, que lhe calhassem aqueles dois diabos arraçados de gambozinos, que o desafiavam em praça pública e, mesmo quando levavam tareias de cinto diante de todos, jamais lhe davam o gozo de os ver chorar. Pelo contrário, riam às gargalhadas enquanto, como que escarnecendo da fraqueza do pai, gritavam: Não dói! Mais! Mais!
Não demorámos, pois, a dar por perdida a disputa. O Roberto e o Zé vinham, porque queriam vir e não havia nada que nós pudéssemos fazer.
Seguiram, tal qual batedores, na linha da frente. De vez em quando, o Roberto olhava para trás, desconfiado, como que para ver se ainda lá estávamos.
Até hoje não sei dizer porque insistiram tanto em vir connosco. Nunca se misturaram nem tentaram fazer conversa. Seguiram sempre vários metros afastados, como se apenas um no outro pudessem confiar.
Chegámos ao sopé da serra deviam ser nove e meia da manhã.
Fomos subindo. O calor era já insuportável e ninguém se lembrara de levar água, pelo que, apesar da nossa juventude, era com muito esforço que avançávamos, vermelhos como tições incandescentes, pela íngreme montanha, agarrados às ervas, às pedras e aos malmequeres.
O Roberto e o Zé, porém, pareciam imunes ao suplício da fornalha e saltitavam por ali acima com uma ligeireza que só podia ser explicada com o prazer que tinham em nos provocar.
Chegámos ao topo mesmo a tempo do grande acontecimento, marcado para as dez horas e cinquenta e um minutos.
No telejornal, que naquele tempo todos víamos, tinha passado uma reportagem acerca dos perigos de observar o eclipse sem proteção e, não obstante a intrínseca rebeldia adolescente que nos consumia, ninguém queria ficar ceguinho.
Tirei do bolso dos calções os óculos de cartão que o meu pai comprara na farmácia. Tinham custado trezentos escudos, e talvez fosse por isso que só alguns os tinham. Outros tinham levado negativos por revelar e até radiografias.
O grupo era, em si, uma visão: tontos estafados olhando o astro generoso que tanto se nos mostraria ali como lá em baixo, na aldeia.
O Sol era o mesmo para todos, mas as lentes pelas quais o víamos eram a pedra de toque das nossas diferenças
O Sol era o mesmo para todos, mas as lentes pelas quais o víamos eram a pedra de toque das nossas diferenças.
Aqui, a abundância dos trezentos escudos, acolá, os registos em película de um batizado, de um casamento, de uma ida à praia com a família, e adiante, a representação a preto e branco da luxação da anca da avó Felizarda, que caíra ao sair do lavadouro, e do coto do Ti Jaquim, que perdera a mão direita num triturador de uvas na adega cooperativa.
Apenas o Roberto e o Zé olhavam sem filtros, imóveis como estátuas. Fitando o Sol abrasador sem pestanejar, como quem o instiga a um duelo.
Fiquei impressionada, mas não fui capaz de intervir. Aqueles miúdos assustavam-me. Eram criaturas selvagens e feéricas, que, tal como Pucks, habitavam os meus pesadelos de verão.
Não sei durante quanto tempo estive distraída. Sei apenas que, quando nos dispusemos a fazer o caminho de regresso, os irmãos tinham desaparecido. Procurámo-los como doidos durante horas. Por fim, exaustos, desistimos e regressámos à aldeia, trémulos e crentes de que teriam decidido, por pirraça, fugir-nos por um atalho que desconhecíamos.
Mas não. Deles, nem sombra nem rasto.
A Guarda e a população fizeram buscas, a mãe gritou os seus nomes pelas ruas e pelos campos, mas era como se o eclipse os tivesse engolido.
Gerou-se uma consternação insuportável.
Eu chorei muito. Por alguma razão, sentia-me culpada.
Então, três dias depois, como que cuspidos da terra, o Roberto e o Zé apareceram, tranquilos, a fumar beatas, com uma aura ainda mais ímpia do que antes, e nem a tareia do pai fez com que revelassem o que lhes tinha acontecido.
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
