“Depressão Kristin: Vento intenso até 140 km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento.” Em menos de 100 caracteres, de forma burocrática, numa redação que segue um modelo sempre monocordicamente repetido, foi assim que, na tarde de terça-feira, 27 de janeiro, milhões de portugueses foram “avisados” para a tempestade que se aproximava – e de que ficaram a conhecer o nome, sem saberem que iriam decorá-lo durante muitos e longos anos.
Num estilo que parece inspirado nos tempos recônditos do telégrafo, em que se era cobrado por cada letra, é sempre assim que a Proteção Civil emite os seus alertas. Como se todos os SMS tivessem a mesma importância ou urgência. Aliás, cinco dias antes, os portugueses tinham recebido um SMS quase igual, a propósito da depressão Ingrid, sobre o risco de queda de neve e de agitação marítima – algo, convenhamos, a que se deve ter cuidado, mas que é mais ou menos frequente no inverno. E, curiosamente, cinco dias depois, receberam outro a avisar para “chuva persistente próximos dias” (sic, com o mesmo tique do telégrafo…), com risco de inundações.
Agora que já sabemos o que aconteceu, a conclusão é óbvia: apesar de avisados, por toda a evidência científica, de que vamos estar expostos a cada vez mais fenómenos climáticos extremos, a Proteção Civil insiste em querer comunicar connosco como se estivéssemos em 1941, no tempo do “grande ciclone”, em que as comunicações eram feitas por telégrafo. E esse é um erro indesculpável: o grande ciclone foi um acontecimento único num século, enquanto agora não só temos meios de comunicação muito mais poderosos e instantâneos, como estamos vulneráveis a fenómenos da mesma magnitude com um intervalo de tempo muito menor. E isso não é segredo nenhum. Tem sido insistentemente repetido e, aliás, até está bem presente num documento elaborado por um vasto conjunto de especialistas, o Roteiro Nacional para a Adaptação 2100, em que se elenca e avalia a vulnerabilidade do território português às alterações climáticas no século XXI.
Um fenómeno meteorológico não é um sismo, que ainda não se consegue prever. Em relação a uma tempestade, como a uma onda de calor, temos instrumentos e modelos de previsão que nos permitem não só anunciar, com alguma antecedência, o que vai acontecer, mas também pôr em marcha aquilo que precisa de ser feito, para minorar os efeitos.
Não foi isso que aconteceu. Apesar do SMS telegráfico, a esmagadora maioria das populações mais atingidas foi apanhada desprevenida. Pior: foi mantida na ignorância em relação à força e à velocidade daquela Kristin, que lhes tinha sido apresentada algumas horas antes.
O que deveria ter sido feito é aquilo que, na verdade, já se faz nos países habituados a enfrentar furacões ou tufões: interromper emissões televisivas e de rádio, inundar a internet com avisos concretos, aconselhar as pessoas a reforçar janelas e telhados, e a abrigarem-se em locais seguros. Isto não é alarmismo, é prevenção. E essa continua a ser a melhor forma de evitar maiores danos numa catástrofe natural.
Como habitualmente em Portugal, o foco, no debate político, continua a estar centrado na “resposta” e não na antecipação. É o vício do curto prazo em vez da ambição das vistas largas. É sempre mais fácil despejar dinheiro sobre um problema do que investir em medidas que permitam que a fatura, mais tarde, não seja tão elevada.
Esta tempestade revelou, no entanto, algo de muito importante nestes tempos de polarizações e de crispações variadas: o valor fundamental que tem uma comunidade conseguir fazer diluir as diferenças e unir-se para recuperar o seu espaço. Depois da catástrofe, vimos milhares de pessoas a arregaçar as mangas e a trabalhar em conjunto, solidariamente, limpando ruas, reconstruindo telhados, procurando levar víveres e materiais a quem mais necessitava. Essa deve ser uma lição para a decisão eleitoral de domingo: o País é melhor quando está unido.
Da mesma forma que precisamos de prevenção eficaz para enfrentar os fenómenos meteorológicos extremos, também temos de nos prevenir contra o extremismo político. E, assim, evitar as divisões que fomentam as piores tempestades.