A ideia durou exatamente 24 dias. Liz Truss, conservadora neoliberal assumida, fã número um de Margaret Thatcher, tinha um plano radical e afoito – queria montar um governo “disruptivo”, que rebentasse com o marasmo do statu quo e que libertasse o Reino Unido da opressão dos impostos altos que, segundo a sua visão, condenava o país a crescimentos económicos anémicos. Se o discurso lhe soa familiar, é porque é mesmo: por todo o mundo há ecos desta visão, e Portugal não é exceção. O plano de Truss foi então inscrito no famoso minibudget, há menos de um mês, que conteria uma espécie de remédio milagroso para todos os males da economia britânica. Previa-se a abolição da taxa mais alta de impostos (45%), aplicável aos rendimentos acima de 150 mil libras, a antecipação do corte na taxa básica sobre os rendimentos de 20% para 19%, a reversão de um plano anunciado para aumentar o imposto sobre as sociedades de 19% para 25%, a inversão do aumento de 1,25% da taxa para a Segurança Social, aplicado em abril – entre outras medidas.
Parecia o regresso anacrónico da famosa economia de trickle down de Reagan, a qual defendia que, ao beneficiar fiscalmente os ricos do topo da pirâmide, alguma coisa “pingaria” para os mais pobres – e que já deu provas de não funcionar.
Acontece que os mercados não engoliram a poção mágica trussiana. Nem lhe experimentaram o sabor – mal foi apresentada, foi descredibilizada em horas e a reação foi visceral: um afundanço brutal da libra para mínimos de 37 anos, subida a pique da dívida soberana, quedas nas bolsas, risco elevado de falência nos fundos de pensões. Em vez das palmas, o plano foi acolhido com o caos. Como é bom de ver, o pensamento mágico pode ser lindo e bem-intencionado, mas dificilmente tem aplicação económica.
O falhanço do duo dinâmico Liz Truss e Kwasi Kwarteng foi tão estrondoso que o som dos estilhaços ecoou por todo o planeta. Chega a ser dolorosa de assistir a humilhação que vem com este atestado de incompetência. O FMI sublinhou que o plano vai “aumentar a desigualdade”. Uma “zelota que espera que a realidade se adapte aos seus desejos”, chamou-lhe impiedosamente Martin Wolf, o famoso colunista do Financial Times, que vaticinou: “Estas pessoas são loucas, más e perigosas. Têm de sair.” A The Economist fez capa com um barco a afundar e titulou: “Como não governar um país”.
Truss foi então obrigada a recuar em várias medidas, começando no corte de impostos nas taxas mais elevadas, e, depois, a substituir o seu braço-direito, que antes considerava um visionário. Meteu na pasta das Finanças Jeremy Hunt, que anunciou deitar para o lixo praticamente tudo o que estava inscrito no plano inicial. Agora que mais de 100 deputados conservadores querem destituí-la, Liz Truss pediu, esta semana, “desculpa pelos erros”, garantiu que vai melhorar a abordagem e meter marcha-atrás a toda a velocidade. Nada de novo numa mulher que já defendeu ideias bastante diferentes. No passado, Truss já foi de esquerda, quis o fim da monarquia e foi contra o Brexit. “Estes são os meus princípios. Se não gosta deles, eu tenho outros”, diria Groucho Marx.
A ironia do plano de Truss é que ele chega numa altura em que o neoliberalismo está claramente fora de moda. Como sublinham muitos economistas e analistas, o mundo ocidental está a entrar, depois da pandemia e da guerra na Ucrânia, num período “pós-neoliberal”, com mais intervenção do Estado numa abordagem anticíclica, mais apoio aos desfavorecidos e mais impostos para o financiar e mais poder para os trabalhadores.
O tema causa mossa evidente, claro, à Iniciativa Liberal, defensora do modelo irlandês e de cortes drásticos de impostos, com menos estado. O partido que advoga “menos Keynes e mais Hayek”, bastião do capitalismo de mercado livre, tem vindo a tentar demarcar-se das posições de Truss, argumentando que o problema da proposta inglesa não é a redução da carga fiscal, mas o aumento da despesa pública que vinha acoplado. É uma saída possível para o embaraço.
Mas agora que jaz morta e enterrada a “Trussonomics” e os planos de crescimento económico que assentam sobretudo em cortes de impostos, mas trazem incerteza e desigualdade, parece-me que há boas lições a retirar. Em política, sobretudo em política económica, há uma diferença substancial entre a coragem e a absoluta inconsciência. O que alguns chamam de “ortodoxia fiscal” pode ser, afinal, a fórmula fiscal testada e necessária. Abordagens radicais são extremamente arriscadas. É que o mundo em geral, e os mercados em particular, tendem a não alinhar nos saltos de fé.