Levei mais de meia hora para ir de minha casa até à Abuxarda. Mal toquei a campainha, o André apareceu, Ouvi a camioneta chegar, disse ele, ao mesmo tempo que abria a grade de ferro que protegia a frente da casa. O rafeiro velho de pelo ralo ladrou-me sem convicção. O André mostrou-lhe o pau de uma vassoura, como se fosse um domador de circo, e o cão calou-se. Pareceu fazê-lo mais por indiferença do que por medo. O Clube já está reunido, foste a última a chegar, admoestou-me o André, apontando para o portão fechado de chapa verde da garagem. Junto à rede de capoeira onde o terreno acabava, vários pneus empilhados compunham duas torres instáveis. O ensimesmamento desolado do André adequava-se ao ermo em que a sua casa se situava. Aqui e além, uma árvore a pontuar, reticente, a paisagem. Não muito longe, uma roda de metal no topo de uma esguia estrutura piramidal parecia dar corda ao vento. De resto, campos sem memória de cultivo, O meu pai sempre gostou de espaço, disse o André ao mesmo tempo que levantava o pesado portão da garagem, arrancando-lhe um guincho metálico que desalvorou pássaros.
O Sr. Bernardo estava sentado no outro extremo da garagem, na sua zona mais escura, voltado para a parede, aos comandos de uma bancada com enormes caixas pretas repletas de botões e de fios coloridos. Era um homem grande. Nas outras paredes havia fotografias e fotocópias a preto-e-branco com imagens de ocorrências, ou seja, de marcas que alienígenas tinham deixado nas suas passagens pela Terra ou nos seus contactos com humanos. Todos os outros membros do Clube dos Amigos dos OVNIS eram rapazes mais ou menos da minha idade e da do André, à exceção do Toni que já devia ter uns dezasseis anos, Esta é a Dulce, a colega que andava a ler Os extraterrestres na História, apresentou-me o André. O Sr. Bernardo não deu mostras de ouvir o filho e continuou a ajeitar os auscultadores e a fazer caretas.
CONFESSEI QUE TINHA ESPERANÇA DE CONTACTAR EXTRATERRESTRES E ELA COMEÇOU A RIR-SE, UM RISO AGRESSIVO, DIFERENTE DO DO GOZO