Nunca se jogou tanto a dinheiro em Portugal. Estima-se que, em 2025, o mercado regulado e conjugado do jogo presencial, ou físico, e online movimentou mais de 26 mil milhões de euros – 3,3 vezes o custo previsto para a construção do novo aeroporto de Lisboa. E também se calcula que já ascendam a dezenas de milhares as pessoas com probabilidades de serem jogadoras patológicas, diz, nesta entrevista à VISÃO, o psiquiatra João Marques, 47 anos, perito para o jogo a dinheiro do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD). O sinal mais evidente de que caminhamos para um problema de saúde pública são os resultados de um inquérito daquele instituto, com uma amostra de cerca de 11 mil alunos, com idades entre os 13 e os 18 anos, de mais de 1900 escolas do País. “Essa pesquisa mostrou que 18,2% dos alunos jogavam a dinheiro. E que, desses 18,2%, um em cada cinco apresentava indicadores de jogo problemático, ou de risco”, alerta o especialista. A dependência do jogo a dinheiro, como também descreve João Marques, traz consigo devastadoras consequências financeiras, sociais e familiares. Para quem pede ajuda, o combate terapêutico é longo e dificultado pela presença de plataformas ilegais de jogo, que se multiplicam às centenas. Mas João Marques tem uma certeza: Portugal não pode continuar “nesta autoestrada feroz e incontrolável do jogo”.
Como definiria o atual cenário português da dependência do jogo a dinheiro?
Não temos ainda uma estimativa epidemiológica nacional atualizada, para 2026, que nos permita dizer com rigor quantas pessoas em Portugal têm hoje uma perturbação de jogo diagnosticável. O último grande estudo epidemiológico nacional do ICAD, realizado em 2022, identificou 0,5% da população dos 15 aos 74 anos com probabilidade de ser jogador patológico. É um indicador importante e coloca o problema na ordem de grandeza das dezenas de milhares de pessoas, mas é preciso ter cautela: este resultado não corresponde diretamente a um diagnóstico clínico de perturbação de jogo, segundo os critérios atuais. Temos, por outro lado, um indicador muito mais recente: em 2025, o ICAD registou 693 pessoas em tratamento por problemas relacionados com jogo a dinheiro. Estes casos não representam, naturalmente, o universo de pessoas dependentes. Representam as pessoas que chegaram ao sistema terapêutico. Sabemos, pela experiência clínica e pelos dados epidemiológicos, que existe uma população muito maior que permanece fora dos serviços.
Se 0,5% equivale a dezenas de milhares de pessoas, qual é a percentagem de portugueses que joga a dinheiro?
O povo português tem uma cultura de jogo a dinheiro. Jogamos muito, desde há muito tempo. Nos últimos números que temos, resultantes de um inquérito nacional publicado em 2022, 55,6% dos portugueses, dos 15 aos 74 anos, disseram que jogavam a dinheiro, quando, em 2017, essa percentagem foi de 48,1 por cento. Isto não significa, claro, que temos mais de metade dos portugueses dependentes do jogo. O facto de se jogar não significa que se fique dependente do jogo. Mas a verdade é que, quanto mais pessoas temos a jogar, maior é a probabilidade de haver dependentes do jogo.
Neste momento, como se encontram, em termos de ranking, o jogo físico, ou presencial, e o online?
Está a ocorrer uma mudança radical, embora o jogo físico ainda hoje seja o mais usado em Portugal. Mas, nos últimos anos, houve um grande aumento na procura do jogo online – apostas desportivas e outras, ou mesmo de casino –, quer no número de inscrições de jogadores, quer no gasto de dinheiro associado a estas plataformas. E a modificação do jogo físico para o online trouxe uma atração grande para uma população mais jovem, entre os 15 e os 30 anos.
Quanto ao risco de adição, o que pode significar essa mudança?
A modificação do contexto é um problema clinicamente relevante, na dependência do jogo a dinheiro. No jogo presencial, a pessoa vai a um casino ou a uma casa física, aos quais tem de se deslocar, cumprindo as regras e estando condicionada a um horário. Já o jogo online está disponível durante os sete dias da semana, 24 horas por dia, em qualquer altura, e a pessoa não precisa de se deslocar para lado nenhum. Tem o seu smartphone como ponto de ligação, pode jogar imediatamente e obter logo o resultado. O que intensifica muito a dinâmica da adição ao jogo, porque há disponibilidade, facilidade de aposta e acesso a um resultado rápido.
Diria que, tendo em conta os indícios que já referiu, podemos estar aqui a caminho de um problema de saúde pública?
Começamos a ter um problema de saúde pública quando detetamos apostadores em idades em que não deveriam jogar a dinheiro. Os números mostram-nos valores assustadores. Em 2024, o ICAD publicou um estudo com uma amostra grande, de cerca de 11 mil alunos, com idades dos 13 aos 18 anos, de mais de 1900 escolas do País. Essa pesquisa mostrou que 18,2% dos alunos jogavam a dinheiro. E que, desses 18,2%, um em cada cinco apresentava indicadores de jogo problemático, ou de risco. Começa aqui – a partir dos 13 anos, sublinho – a derivação para o jogo online, para as plataformas de fácil acesso, o jogo rápido, o resultado imediato. Inicialmente, as apostas são pequenas, mas é aqui que se começa a jogar.
Em termos de prevenção, o que considera ser prioritário?
O que o ICAD tem estado a planear, a estruturar e a concretizar: aumento da literacia, psicoeducação e promoção da prevenção do jogo a dinheiro, na população em geral e, sobretudo, nas franjas mais vulneráveis da sociedade, como os mais jovens em idade escolar. É essencial dar à população esta literacia sobre o jogo probabilístico e a doença-adição.
A legislação em vigor ajuda ou desajuda?
Tudo o que está à volta do jogo excessivo, descontrolado, patológico, tem de ser olhado com atenção. E uma das coisas é a publicidade, regulamentada com base num decreto-lei de 2015, que sobretudo contém regras para o jogo físico e foi elaborado num contexto muito diferente do de hoje. O que está ali estipulado já não se adequa à evolução do jogo. Tem de haver uma adaptação da lei à nova dinâmica da publicidade. Hoje há os algoritmos, a publicidade ao jogo online associada a múltiplos sites, com bónus e extras, nas redes sociais, via influencers e pessoas socialmente conhecidas – temo-la em todo o lado. A regulamentação tem de ser modificada.
Tem de se olhar para a questão da publicidade ao jogo online por influencers. Estas pessoas, que reúnem um grupo de seguidores que as idolatram, que as veneram, transmitem-lhes a mensagem, de uma forma não controlada, de que com o jogo se consegue ganhar dinheiro sem trabalhar, de que se consegue enriquecer tendo esta vida. Acho que esta mensagem não pode existir
Apertando a malha, supõe-se…
Sim. É preciso restringir este excesso. Por exemplo, tem de se olhar para a questão da publicidade ao jogo online por influencers. Estas pessoas, que reúnem um grupo de seguidores que as idolatram, que as veneram, transmitem-lhes a mensagem, de uma forma não controlada, de que com o jogo se consegue ganhar dinheiro sem trabalhar, de que se consegue enriquecer tendo esta vida. Acho que esta mensagem não pode existir. Outro exemplo tem que ver com a intensidade da publicidade associada aos eventos desportivos. Estamos preocupados com o jogo entre os jovens, mas, quando vão assistir a uma partida de futebol da equipa de que são adeptos, os seus ídolos vestem uma camisola com o patrocínio de uma plataforma de jogo, no estádio publicitam-se as apostas, e ficam com essa imagem na cabeça. Isto não pode continuar a ser tão livre quanto é, com a disseminação brutal da publicitação de casas de apostas e de dinâmicas de jogo a dinheiro, de uma forma tão descontrolada. É preciso afinar a lei para regulamentar o controlo desta publicidade.
Clinicamente, como é diagnosticada a dependência do jogo a dinheiro?
Há uma série de critérios de diagnóstico, que começam quando é o jogo que controla a pessoa e não o contrário. Existe, basicamente, uma dezena de sinais que mostram que o jogo a dinheiro deixou de ser uma diversão e se tornou uma dependência: a pessoa começa a pensar frequentemente em jogar; aumenta progressivamente as quantias; tenta recuperar perdas; não consegue parar; mente sobre o jogo à família e aos amigos; pede dinheiro para jogar; usa dinheiro destinado a despesas essenciais; abandona atividades e relações; fica irritada quando não pode jogar; e continua, apesar das consequências.
Em junho passado, o ICAD abriu em Lisboa a primeira unidade pública portuguesa dedicada exclusivamente ao tratamento da dependência de jogo a dinheiro. No essencial, em que consiste esta terapia?
A terapêutica aqui tem dois grandes grupos – a farmacoterapia e a psicoterapia. O tratamento medicamentoso destina-se, sobretudo, a patologias que surgem associadas ao jogo: a depressão, a ansiedade ou mesmo a perturbação de hiperatividade e défice de atenção, que aumentam o impulso para jogar, quando desreguladas. Mas o principal foco de tratamento é a psicoterapia, muito à imagem do que se faz nas outras adições, só que com particularidades. Há uma estratégia motivacional, com uma estruturação psicoterapêutica muito focada em alguns pontos ligados ao jogo. Um deles é reconhecer que se tem um problema, o que a maior parte dos jogadores não admite, até porque não há aqui uma substância que se deixe de usar para não ter a adição. É preciso, pois, incutir no doente o racional de que voltar a jogar equivale, comparativamente, a uma recaída no alcoolismo ou na toxicodependência. Depois, surge um ponto fulcral no tratamento – trabalhar as distorções cognitivas do jogador. A maior parte destes jogadores constrói um conjunto de ideias, que são completamente erradas, mas que os faz continuar a jogar. Convencem-se, por exemplo, de que conseguem contar cartas ou sequências e de que sabem quando é que vão ganhar. Não é verdade. O jogo é sempre aleatório. Ou de que estiveram quase a ganhar e de que ninguém pode continuar sempre a perder, associando-se aqui o ir atrás do prejuízo. É muito importante reverter estas distorções.
Onde entram na terapia a família e os amigos?
Não conseguimos tratar ninguém se a pessoa não parar por completo com o jogo. É esse o objetivo: frenar o jogo. E aqui temos de pedir ajuda à família e à estrutura em torno daquela pessoa, para que lhe sejam retirados cartões de crédito, monitorizadas contas bancárias, para haver um maior controlo. O ponto a seguir é o de reestruturar a sua vida, incluindo o prazer cerebral pelas coisas mundanas, que o jogo retira.
Este processo de recuperação e de reestruturação da vida pode demorar quanto tempo?
Pode demorar anos. Temos estruturados programas em que, normalmente, se faz uma sessão semanal de terapia, com uma duração inicial de três a quatro meses. Tenta-se percorrer tudo isto de que falámos e cumprir etapas. Umas vezes é preciso prolongar durante mais tempo a terapia mais intensiva, e noutras as coisas correm bem. Mas a pessoa não chega ao final daqueles quatro meses e deixa de ter acompanhamento. Ele é modificado ou adaptado. Deixa de ser tão intenso, passa a ser mais espaçado, mas, além da pessoa, continua a incluir a família e os mais próximos. E aqui passamos a tentar prevenir as recaídas.
Até que ponto é importante a autoexclusão neste processo?
A autoexclusão é uma ferramenta essencial no plano de tratamento. Permite que a pessoa em causa, se o entender e se aceitar, se inscreva numa plataforma que o SRIJ [Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, sob tutela do Turismo de Portugal] tem para o efeito. A pessoa pede a autoexclusão temporária, por nunca menos de três meses, ou para sempre, tanto no jogo online como no presencial. Mas as casas e as plataformas ilegais de apostas saem fora deste controlo – e esse é o nosso grande problema. Se alguém pedir a autoexclusão, sei que essa pessoa ficará proibida de jogar nas 18 entidades legais que temos em Portugal. Só que nos chegam notícias de centenas de plataformas ou de casas ilegais, sobre as quais não temos o mínimo controlo.
Estes jogadores convencem-se, por exemplo, de que sabem quando é que vão ganhar. Não é verdade. O jogo é sempre aleatório. Ou de que estiveram quase a ganhar e de que ninguém pode continuar sempre a perder, associando-se aqui o ir atrás do prejuízo. É muito importante reverter estas distorções
E é aí que acontecem as recaídas?
Sim, maioritariamente. A presença destas estruturas ilegais debilita, muitas vezes, o processo terapêutico. Estando autoexcluída das casas legais, a pessoa, caso se inscreva numa plataforma ilegal, consegue jogar. Por isso, a autoexclusão é uma ferramenta, mas não é a chave do sucesso. É mesmo preciso ter outros backups de ajuda, como a família mais próxima, que, com o acordo da pessoa em tratamento, lhe controla os cartões de crédito, as contas bancárias, o dinheiro. A somar à autoexclusão também há um controlo externo que limita a fuga para as casas ilegais. Não é um sucesso a 100%, mas é um controlo que precisamos de ter. E isto é feito no processo terapêutico, não é uma imposição nem um castigo – com o acordo do doente, traz-se a família para se delinear um plano de ajuda, que é o que nos pede. A pessoa só vem para o tratamento porque precisa de ajuda.
Pode hoje dizer-se, com evidência científica, que certas características do cérebro de uma determinada pessoa a tornam mais atreita à dependência do jogo a dinheiro?
Durante muito tempo pensou-se que a questão do jogo, como não implicava uma substância, nem faria parte das doenças aditivas. Hoje, com os meios complementares de diagnóstico que temos, quer exames de imagem, quer outros mais sofisticados, conseguimos perceber que, em termos do sistema nervoso central, as alterações cerebrais que ocorrem perante um processo de adição ao jogo são as mesmas que acontecem num processo de adição ao álcool, ou às drogas, ou ao tabaco – às substâncias aditivas. Ou seja, há uma neuroadaptação do sistema nervoso central que leva a que uma área cerebral específica, que se chama a zona do prazer, que está programada para identificar prazer químico, fique refém do comportamento aditivo. Isto é, o que dá mais prazer ao cérebro passa a ser a próxima aposta, o próximo ganho. E quando não há ganho, o jogador, mergulhado nas suas distorções cognitivas, tem ainda mais prazer na suposta certeza de que irá reaver as perdas. Paralelamente, existe uma zona cerebral – o córtex pré-frontal, que é o nosso juiz, é aquele que diz “não, há que parar” –, que começa a ficar debilitada e incapaz de atuar, tal como acontece nas outras adições. Mas quando se estuda o cérebro dos dependentes de jogo vs as outras dependências, os que têm uma dependência de jogo apresentam uma maior probabilidade de possuir características de mais impulsividade, mais dificuldade em ter o controlo inibitório de dizer “não”, de ponderar, de respirar duas vezes antes de fazer. São estas pessoas que vêm a desenvolver mais facilmente uma perturbação de jogo. Parece haver uma neuroquímica quase muito específica do jogador, embora ainda não possamos dizer com certeza científica de que assim é. Mas as pessoas mais impulsivas, isto em termos estruturais de personalidade, são as que vão ter maior dificuldade, depois, em controlar o jogo. Ficam mais reféns do impulso do jogo e da ausência de ponderação ou de inibição.
Há a perceção de que a Raspadinha afeta negativamente e vicia uma população vulnerável – os reformados. Isto é mesmo assim?
A Raspadinha é um problema português, com características únicas. Este jogo não tem muitos anos, mas cresceu imenso. Neste momento é o segundo jogo a dinheiro mais utilizado pelos portugueses, a seguir ao Euromilhões. Só que com características muito diferentes. É o único jogo a dinheiro onde as mulheres jogam mais do que os homens. E quando vamos estudar as pessoas que jogam na Raspadinha, verificamos que pertencem aos estratos socioeconómicos mais baixos, com rendimentos parcos, e que procuram a Raspadinha por ter um custo baixo e uma probabilidade de ganho aparentemente alta e frequente. Acabam por ficar muito reféns da ilusão desse jogo, que rapidamente pode dar-lhes um prémio que, embora seja pequeno, é significativo para os seus rendimentos.
Mas isso não pode levar a um descontrolo financeiro dessas pessoas?
Pode e leva. Estas pessoas têm uma probabilidade alta de evoluir rapidamente para uma perturbação do jogo. Perdem o controlo, com grandes impactos económicos, sociais e familiares nas suas vidas, tal como acontece nas outras dinâmicas de jogo. E tratando-se de uma franja social que está bastante mais vulnerável, a preocupação é muito grande. É preciso criar pontos de controlo. Se calhar, não se devia vender tantas raspadinhas, em tantos lados, de uma forma tão indiscriminada e massiva.
Aqui entra a responsabilidade social da Santa Casa, que não é visível…
O problema existe. Não é inventado, nem é uma nova moda. E está a crescer muito rapidamente, como nos mostram os números do jogo problemático, do jogo-adição, das franjas da população mais vulnerável, logo a partir dos mais jovens, um problema que não tínhamos até agora. Portanto, todos nós temos de olhar para ele e identificar a responsabilidade de cada um. Este foi um tema discutido no primeiro Fórum do Jogo, recentemente organizado pelo ICAD, e que teve a participação de médicos, de técnicos, de casas de apostas e da Santa Casa. Chegámos à conclusão de que todos temos uma responsabilidade, e de que temos de passar para uma plataforma diferente, de criação coletiva de regras, de forma a que não continuemos nesta autoestrada feroz e incontrolável do jogo.