Durante meses, a Gronelândia deixou de ser apenas uma questão territorial para se tornar um teste à relação entre os EUA e os seus aliados europeus. As declarações do Presidente Donald Trump sobre a possibilidade de colocar a ilha sob controlo norte-americano abalaram a confiança transatlântica e recolocaram no centro do debate uma questão estratégica: quem controla, na prática, um dos espaços mais importantes do Ártico?
O acordo assinado em Nova Iorque, a 22 de setembro, pelos governos dos EUA, do Reino da Dinamarca e do território autónomo da Gronelândia procura encerrar a crise, mas não restaurar o statu quo. Reafirma a soberania e a integridade territorial da Dinamarca e reconhece o direito do povo groenlandês à autodeterminação. E, ao mesmo tempo, amplia significativamente o acesso e a presença militar norte-americana na ilha.
É neste aparente paradoxo que reside o alcance estratégico do acordo. Trump não conseguiu transferir formalmente a Gronelândia para Washington, mas conseguiu reforçar a posição militar norte-americana.
Da crise territorial à estratégia de segurança
Esta transformação insere-se numa reorientação mais ampla da política externa e de segurança dos EUA. A Estratégia Nacional de Segurança de 2025 atribui uma nova centralidade ao Hemisfério Ocidental, valorizando o acesso a localizações estratégicas, a proteção de ativos relevantes e a capacidade de impedir a presença de potências externas em espaços considerados essenciais para a segurança norte-americana.
A Gronelândia enquadra-se nesta lógica. Embora permaneça sob soberania do Reino da Dinamarca e integrada na arquitetura de segurança da NATO, a sua posição é estratégica para a defesa do continente norte-americano, das ligações entre o Atlântico Norte e o Ártico e para a projeção de capacidades militares num espaço de crescente competição entre grandes potências.
Da soberania territorial ao controlo material do espaço
O acordo de 2026 deve, por isso, ser entendido menos como uma alteração da soberania do território e mais como uma mudança das condições materiais que permitem utilizá-lo estrategicamente.
Em 1951, o acordo então celebrado já atribuía aos EUA amplos direitos nas “Áreas de Defesa”, incluindo a construção e a operação de instalações, o alojamento de pessoal e o armazenamento de equipamento e abastecimentos, sem prejuízo da soberania dinamarquesa. Mais tarde, em 6 de agosto de 2004, o novo entendimento refletiu a redução da presença militar norte-americana no pós-Guerra Fria, ao estabelecer Thule como a única “Área de Defesa”.
No entanto, o acordo assinado há dias em Nova Iorque altera significativamente essa configuração. Por exemplo, o Artigo IV autoriza a modernização e a expansão das atividades na atual Base Espacial de Pituffik e prevê o estabelecimento de uma nova “Área de Defesa” em Narsarsuaq e Mestersvig, deixando ainda aberta a possibilidade de criar outras áreas no futuro. Na prática, isto permite a Washington alargar a sua presença militar para além de Pituffik e dispor de novas posições de apoio às suas operações na Gronelândia.
É aqui que o conceito de domínio do espaço geopolítico, desenvolvido por John Agnew e Stuart Corbridge no livro Mastering Space: Hegemony, Territory and International Political Economy, se torna central. A abordagem evidencia que o poder é exercido não só através da posse formal do território, mas também através da organização do espaço, dos movimentos e dos fluxos que nele ocorrem.

O Artigo VI é decisivo. Em primeiro lugar, garante às forças armadas, aeronaves, navios e outros veículos norte-americanos o direito de livre acesso e circulação entre as “áreas de Defesa”, por terra, ar e mar. Em segundo lugar, permite o sobrevoo e a aterragem de aeronaves dos EUA em qualquer parte da Gronelândia e assegura aos navios norte-americanos acesso e circulação submarina nas águas territoriais, sem restrições, salvo as que sejam mutuamente acordadas pelas partes.
O efeito estratégico ultrapassa a expansão da infraestrutura. As novas “áreas de Defesa”, combinadas com os direitos de circulação entre elas e com o acesso a outras zonas da Gronelândia, permitem a Trump distribuir e deslocar capacidades militares com maior liberdade e flexibilidade operacional.
Um acordo pensado para durar
A dimensão temporal do acordo é tão importante como a sua dimensão territorial. O novo texto não tem data de termo e só pode ser alterado por consentimento mútuo. A expansão da presença norte-americana deixa, assim, de surgir como uma resposta circunstancial à atual conjuntura geopolítica do Ártico, e passa a assentar num quadro concebido para assegurar continuidade estratégica de Washington.
Essa lógica é particularmente relevante perante a possibilidade de independência da Gronelândia. O acordo prevê que, nesse cenário, o futuro Estado permaneça na NATO e assuma os direitos e obrigações atualmente atribuídos à Dinamarca no quadro da defesa. A questão estratégica fica, assim, parcialmente separada da questão do estatuto político, ou seja, uma eventual mudança constitucional da Gronelândia não implica necessariamente a rutura da arquitetura de segurança e militar criada pelo acordo.
O Golden Dome e a nova função estratégica da Gronelândia
O preâmbulo do acordo identifica explicitamente a possibilidade de estabelecer um sistema “Golden Dome” como uma das razões para garantir o acesso militar norte-americano ao território. Embora o acordo não defina a arquitetura futura do sistema, a referência introduz uma nova dimensão na função estratégica da Gronelândia, que deixa de ser apenas uma posição avançada para a vigilância e a defesa do Atlântico Norte e passa a poder integrar a defesa continental norte-americana.
A dimensão nuclear é particularmente relevante. O “Golden Dome” é um sistema de defesa antimíssil, e não um sistema nuclear per se. Ainda assim, um escudo antimíssil com maior capacidade de cobertura pode alterar os cálculos da dissuasão estratégica, ao permitir reforçar a capacidade de deteção e eventual interceção de mísseis balísticos, armas hipersónicas e outras ameaças de longo alcance.
Desde a Guerra Fria, a estabilidade entre potências nucleares assentou, em larga medida, na expectativa de que um ataque não poderia eliminar a capacidade de retaliação do adversário. Uma expansão significativa da defesa antimíssil pode, porém, afetar esse equilíbrio e levar a Rússia e a China a adaptar as suas doutrinas e a configuração das suas forças nucleares.
A localização de Pituffik reforça esta função, conferindo-lhe particular importância geoestratégica para a vigilância espacial e o alerta antecipado de mísseis.
A Rússia e a China são os ausentes presentes
O acordo não é formalmente apresentado como um instrumento dirigido contra Moscovo ou Pequim. A sua lógica, porém, insere-se claramente no contexto da competição entre grandes potências. O texto estabelece restrições à criação de instalações militares e à manutenção de uma presença militar persistente por Estados não membros da NATO, salvo acordo das partes, e reforça mecanismos destinados a limitar o acesso e o investimento externo em sectores considerados sensíveis.
Para a Rússia, o acordo consolida a Gronelândia na arquitetura de defesa ocidental do Ártico e do Atlântico Norte e reforça a capacidade de Washington de monitorizar as aproximações ao continente americano. No caso da China, limita simultaneamente a possibilidade de converter investimento económico, infraestruturas ou presença tecnológica em influência estratégica numa região de crescente competição geopolítica.
O verdadeiro teste será europeu
O acordo reforça a posição norte-americana no Ártico e prevê um maior envolvimento da NATO, através de planeamento, exercícios e partilha de informações. Para os europeus, a questão é saber até que ponto a segurança do Ártico e do Atlântico Norte continuará a depender das capacidades político-militares norte-americanas e em que medida deverão assumir maiores responsabilidades.
O debate sobre a responsabilidade estratégica europeia não pode, por isso, ficar circunscrito ao flanco leste da Aliança. A questão passa também por saber que responsabilidades os aliados europeus estão dispostos e preparados para assumir no Ártico. Do lado dinamarquês, Copenhaga terá de conciliar o reforço da segurança nesse espaço com a preservação da soberania dinamarquesa sobre a Gronelândia. Para Nuuk, o desafio será garantir que a nova arquitetura de segurança respeita a autonomia política da Gronelândia e os interesses da sociedade groenlandesa.
Da crise a uma nova arquitetura de segurança no Ártico
É tentador interpretar o acordo como o fim de uma crise diplomática. Mas isso seria insuficiente. Trump começou por transformar a Gronelândia numa questão territorial e, simultaneamente, num teste à influência norte-americana no Ártico e à relação com os aliados europeus. O acordo desloca agora o debate da soberania para o acesso, a presença e a capacidade de agir nesse território polar.
É neste sentido que se pode falar de “soberania material”, e não de soberania jurídica; isto é, do aumento substancial da capacidade norte-americana para utilizar estrategicamente o território e projetar poder a partir dele. Na prática, isso reforça o valor e a centralidade geoestratégica da Gronelândia.
A questão decisiva, por isso, é saber se o acordo encerra completamente a crise transatlântica desencadeada pela pressão de Trump sobre a Gronelândia ou se inaugura uma nova configuração da segurança no Ártico. Talvez a resposta esteja, em parte, nas duas coisas. O acordo pode encerrar a crise na sua dimensão mais imediata, sem eliminar as mudanças estratégicas que ela desencadeou. O tempo dirá até que ponto esta nova realidade se consolidará.
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