“Para a esquerda eu não vou, não adianta empurrar.” A frase é atribuída a Tancredo Neves e diz muito mais sobre o homem do que uma simples localização ideológica. Tancredo era um homem do centro, mas sobretudo um homem da política. Da política entendida como a arte, por vezes ingrata, de encontrar uma ponte quando todos parecem empenhados em construir muros. Foi assim que, em 1985, chegou à Presidência que nunca chegou a exercer. Foi assim que ajudou a conduzir o Brasil para fora de duas décadas de ditadura militar sem transformar a transição democrática num exercício de vingança.
Talvez seja precisamente por isso que vale a pena regressar a Tancredo quando o Brasil volta às urnas. Não porque o Brasil de 1985 possa ser comparado mecanicamente com o Brasil de 2026. Não pode. Mas porque há uma diferença essencial entre os dois momentos. Naquele tempo, um país que vinha de trás discutia como avançar. Hoje, um país que avançou muito parece discutir, sobretudo, a quem deve regressar.
