Desde há umas semanas que tudo mudou. Um vírus com vinte nanómetros, isto é, um milhão de vezes mais pequeno que vinte milímetros, conseguiu fazer uma revolução em todo o mundo. De repente, já não é importante ir à escola, trabalhar, fazer doutoramentos, escrever um romance, ter um carro luxuoso, a loira mais vistosa, a casa maior, ser o mais bonito, o ponta de lança. De repente tudo parou, ninguém compra roupa, viaja, vai ao ginásio, ao cabeleireiro, à massagem, aos restaurantes e bares da moda.
Fechamo-nos em casa e das duas uma: ou descobrimos que gostamos do que temos ou de quem somos ou estamos tramados. Os que têm família podem sentir-se claustrofóbicos, encafuados num T3+1 de 120 metros quadrados com o parceiro, dois filhos e um cão. Parece que o fim de semana nunca mais acaba, nunca mais chega segunda de manhã, o café tomado ao balcão, o almoço com os colegas, as piadas sobre o chefe, as saudades do sofá e das pantufas. Já se arrumou os roupeiros, já se deu banho ao cão, já se pôs o sexo em dia, já se limpou o e-mail, já se lavou a varanda, fez-se a aula de Pilates, discutiu, berrou com os miúdos, fez as pazes, fez biscoitos de manteiga, aspirou, lavou janelas, ordenou fotos antigas, regou vasos, depilou o buço, barafustou, subiu e desceu escadas de sete andares duma assentada, dormiu doze horas e ficou com enxaqueca. Que seca, que grande seca.
Os que vivem sós e gostavam, estão agora mesmo sós. É aproveitar o descanso. Só que agora o dia é longo, sem trabalho, sem ginásio, sem almoços com amigos, sem as visitas aos pais, sem o passeio de Porche, sem a pesca, sem o golfe, sem o sexo casual. Vai-se correr dez quilómetros, faz-se almoço para um, faz-se uma video-chamada, lê-se as notícias no Expresso, adormece no sofá, acorda com torcicolo, já está escuro, que fazer, come o resto do almoço e vê o telejornal. Só se fala do Corona. Infetados mas em casa, infetados internados, infetados ventilados, infetados, infetados. Fica-se com medo da morte e vai-se lavar as mãos. Vê-se no espelho e recua, meu Deus como já se nota! Junto ao couro cabeludo, tem uma risca toda branca. E agora? E agora? Corre ao supermercado à procura de uma tinta. Mas a estante está vazia. E agora? E agora? Ora, ninguém vai ver….
Mas há um terceiro grupo. Os que não podem parar. Os lixeiros, os comerciantes de produtos alimentares, os farmacêuticos, os polícias, os profissionais de saúde….
Sou médica e, sobretudo, mãe de uma médica. A minha filha tem trinta anos e é anestesista. Já deveria ter feito o exame de fim de especialidade, mas este foi adiado, como tantas outras coisas. Teve que voltar para os Açores, lugar onde fez o Internato médico. Quando chegou, esteve isolada 14 dias, num pequenino pré fabricado de 15 metros quadrados, no fundo do jardim de uma amiga, que simpaticamente lhe cedeu um local onde ficar. Durante esse período, aproveitou para aprender tudo o que podia sobre a Covid-19, tirando partido da experiência relatada por outros intensivistas, sobretudo os italianos. Com outros médicos anestesistas fez protocolos de atuação e, por videoconferência, foi falando com outros profissionais para se preparar para o passo seguinte. Desde ontem que está a trabalhar na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São Miguel, onde já existem doentes Covid ventilados. Estou com o coração apertado. Por mais que saiba que ela usa um fato de proteção, por mais que saiba que ela é muito cuidadosa e rigorosa, por mais que saiba que ela é jovem e saudável, o meu coração continua apertado. Ela, como tantos outros médicos e enfermeiros, está na linha da frente. Uma médica da minha idade com quem me cruzava aqui no hospital, está ventilada há três semanas…. Passam-me como num filme, imagens terríveis das unidades de cuidados intensivos italianas e espanholas, que tenho visto na televisão. Mas em seguida tento acalmar-me pensando que, graças às medidas inteligentes que o nosso governo tem tomado e ao bom funcionamento do nosso Serviço Nacional de Saúde, a probabilidade de atingirmos o caos é muito pequena. E sinto orgulho de ser portuguesa. Apetece-me ir comprar uma bandeira de Portugal e pendurar na janela, eu que o não fiz nos campeonatos de futebol. Aqui, no meu hospital, tudo está organizado. Diariamente telefono para os doentes que deveriam naquele dia vir à consulta, pergunto pelo seu estado de saúde, verifico os exames que efetuaram, passo receitas eletrónicas. A farmácia hospitalar envia os medicamentos por correio aos doentes, após estes o solicitarem. Continuamos a internar os doentes, tendo criado uma área exclusiva para os infetados com o coronavírus. Atendemos igualmente todos os nossos doentes com queixas urgentes, continuamos a tratar os doentes crónicos no hospital de dia. Tudo continua. Na cantina, as mesas estão muito separadas e ninguém se senta frente a frente. Andamos todos com máscaras e aos mais velhos, como eu, embaciam-se frequentemente os óculos. Há pessoas que ficam quase irreconhecíveis, de máscara e touca, alguns usam mesmo fatos especiais que confecionaram em casa e despem no fim do dia, de forma a não contagiarem os familiares com quem vivem. As pastelarias oferecem-nos bolos e salgados para comermos no serviço de urgência. Há fábricas que nos fazem gratuitamente fatos e viseiras. Alguns pais de doentes enviam-me mensagens carinhosas, ou telefonam-me para saber se estou bem. Colegas com quem antes nunca tinha trocado uma palavra cumprimentam-me nos corredores.
Estamos agora a iniciar a segunda quinzena de isolamento. Começo a notar sinais de cansaço em muitas pessoas que se manifestam nas redes sociais. Quando regresso a casa, dou conta que o tráfego está a aumentar progressivamente. A Páscoa está a chegar e a tentação de reunir com a família é muita. É agora que começa o período mais difícil, o teste da resiliência dos portugueses. Nós, os que estamos nas trincheiras, pedimos:
– Aguentem, aguentem!
Lembrem-se que agora, só agora, “querer bem é não estar com”.