Numa viagem recente de comboio, ocupei-me de “O livro das comunidades” (que inclui os “Apontamentos sobre a escola da rua de Namur”), de Maria Gabriela Llansol (1931-2008). Digo ocupei-me, porque não consigo ler os livros dela. Leio páginas, depois paro; mais tarde abro o livro noutro sítio, leio mais umas páginas, depois paro. E assim não faço mais do que saltitar pelos seus livros, que já são bastantes na minha estante. Se calhar, é a atitude mais inteligente que posso ter.
Devo começar por dizer que há, logo à partida, um elemento que nos une, apesar de nunca a ter conhecido. Vivemos ambos na Bélgica, na mesma altura (ela viveu lá mais tempo), pelo que passa vida a falar de sítios e coisas que conheci. Mas isso não me parece relevante na apreciação que faço dela. O que me fascina mesmo é ela ter concretizado, independentemente de gostarmos ou não da sua obra, um projecto com que sempre sonhei: criar uma literatura abstracta. Vou tentar explicar as características e a importância de uma obra assim.
Não é por acaso que a pintura procurou a abstracção. Os artistas perceberam que esse caminho tornou mais fácil o reconhecimento da dimensão da sua arte, pois, como pontificou Malraux, libertaram-se do elemento inspirador e criaram o “intemporal”. Segundo as palavras deste, deixaram de pintar pessoas, paisagens e cenas históricas ou mitológicas, passando a pintar quadros. A arte, porque abstracta, conseguiu mais facilmente aceder aos seus limites, que são a universalidade (não ficar reduzida a um espaço) e a intemporalidade (não ficar reduzida a um tempo). A arte conseguiu assim cumprir de forma mais evidente o seu desígnio supremo – segundo o grande pensador – de “ruptura em relação ao real”. O que não acontecia tão facilmente com um Rembrandt, por exemplo, (apesar de este ser – não nos baralhemos – o maior pintor que jamais existiu), cujos quadros são facilmente reductíveis a uma Flandres do século XVII.
No caso da literatura, deveria passar-se um pouco o mesmo. Mas, de uma maneira geral, não passou (estou a falar dos contemporâneos de Maria Gabriela, em meados do século XX). Há uma transição semelhante à da pintura, porque, a determinada altura, descobrimos o “irreal” (continuo a usar a nomenclatura do Malraux) – na pintura justamente com Rembrandt e na literatura com Cervantes -, mas depois não encontramos casos literários (mais uma vez, na prosa contemporânea da autora) verdadeiramente “abstractos”, como conseguiu Bach e como acontece com muito pintores. Não me lembro de casos em que possamos falar de um escritor que não escreveu uma história, em forma de romance ou de peça de teatro, mas se limitou a escrever um livro, ponto. Uma obra literária. Sem se perceber se é romance, diário, poesia em prosa ou o que for. Mesmo um Kafka ou um Beckett não me parece que tenham chegado lá. Talvez o tenham conseguido pontualmente, mas não globalmente. Porque o absurdo do segundo, tal como o onírico do primeiro, não são o mesmo do que a abstracção.
E aí, volto à escritora portuguesa do duplo L catalão. Ela não inventa histórias globais mirabolantes ou delirantes. Se me perguntarem no fim de que trata o livro, não sei responder. Fala frequentemente em personagens que não sabemos muitas vezes se são reais ou imaginários – alguns deles percebemos que são reais -, mas que não têm qualquer psicologismo a explorar. São aqueles, como poderiam ser outros. Explico-me melhor: quando vemos um filme ou lemos um romance, temos normalmente necessidade de ir fixando os nomes dos personagens e as suas ligações, para seguir a coisa. Mas aqui não há nada para seguir. Tal como não vale a pena começar pelo princípio, pois tal coisa não existe.
Poderia continuar a dar exemplos, mas penso que é mais interessante falar das duas sensações que podemos ter quando a lemos. Ou não entramos na obra e ela torna-se incomodativa por dar a sensação de ser autista e estar a falar sozinha de coisas sem nexo, ou conseguimos partilhar o seu caminhar ausente em relação ao mundo vivido e penetramos num mundo estranho, com outras lógicas e outras regras, em que imagens e ideias se sucedem com um encadeamento que nos perturba um pouco, que nos faz ocasionalmente vibrar, mas que nos traz a consciência de que nada daquilo existe, nada pode ser exterior à nossa imaginação.
É apenas um livro, um texto literário, mais nada. Não é concreto, pois não tem conteúdo que possamos nomear ou descrever. É ausente, rarefeito, inclassificável perante as nossas sensações humanas. Como em Bach, ou em Rothko, é uma abstracção não concretizável (tautologia), pois apenas existe na transfiguração que conseguiu em nós.