Querida Chéu,
Perguntavas na semana passada quem nos rouba as horas e eu fiquei a pensar porque queremos viver tão depressa quando aquilo que nos preenche é precisamente aquilo que desejamos que dure para sempre (o amor, o cuidado, a dedicação, a inspiração) ou o que queremos fazer sem os minutos contados (estar com a família, construir um projeto, perseguir um sonho, escrever um livro). Hoje em dia é tão subversivo levar tempo a fazer algo (a pensar, a namorar, a responder) que até na literatura ou na escola consideramos ser sensato e importante discutir a utilização de ferramentas de Inteligência Artificial quando uma grande fatia da população gasta o seu tempo a fazer scroll por não ter cabeça para fazer mais nada.
Porque, por exemplo, em Portugal, muito poucos são os trabalhadores que conseguem sustentar uma casa com um salário apenas de 8 horas de trabalho (e a solução apresentada pelo Estado é encontrar formas de assegurar com maior facilidade um banco de horas ou trabalhadores em outsourcing ao preço da uva mijona, obrigando os seus cidadãos a passar ainda mais tempo nos seus empregos assalariados ou em múltiplos biscates para compensar o que falta na conta do banco para o cabaz alimentar).
Porque, por exemplo, nas escolas, os alunos usam cada vez mais o ChatGPT para estudar e para responderem aos testes chapa 5 que os professores lhes apresentam e também corrigem com ferramentas de IA, sendo já possível fazer uma escolaridade inteira sem que um aluno escreva (ou pense!) uma frase sua e, pior, que algum professor a leia, como aconteceu recentemente no caso de um mestrando russo que escreveu a sua tese de mestrado em 24h com a ajuda de Inteligência Artificial, passou nos testes de plágio (tecnicamente o que se escreve num chat não é plágio porque é gerado no momento, mas também não é escrito porque não é gerado… que dilema!), passou com distinção (terá a tese sido lida?) para logo anunciar numa rede social (que agora se chama Truth Social!!!!!) que não tinha escrito uma linha da tese. Curiosamente, a universidade não lhe retirou o título porque não existia regulamentação para uma situação como esta. Falo-te desta história, porque cada vez me intriga mais o caminho que estamos a trilhar para a vida das nossas filhas. Por um lado, votamos em governos que na mesma semana em que inauguram hospitais privados e fecham unidades de saúde pública por todo o País, insistem em manter um pacote laboral que fará adoecer uma classe média por excesso de trabalho, de fome, de frio, por falta de condições e de dignidade. Por outro lado, abraçamos uma sociedade de entretenimento, beleza (muitas vezes exterior) e de lazer para o qual não podemos ter tempo, acolhendo as famosas apps de 10 minutos por dia de yoga, pilates, de aprendizagem de uma língua, de encontros rápidos, de tai chi na cadeira, gastronomia levada a casa, revoluções várias sem sair do seu sofá.
Também ainda esta semana muito se discutiu sobre a escritora polaca nobelizada Olga Tokarczuk e sobre se as suas afirmações sobre a utilização de Inteligência Artificial teriam sido ou não empoladas, seriam ou não condenáveis, seriam ou não um ultraje, seriam ou não graves. Mas o que me pareceu mais grave nas suas afirmações não foi tanto a confissão sobre usar o ChatGPT para saber que música ouvem os seus personagens mas o facto de declarar que é bem possível que tenha escrito o seu último romance. E que. hoje em dia. a maioria dos seus leitores vai ler um resumo dos seu livro numa página de internet para ver como acaba o livro porque não consegue, não tem tempo, não tem cabeça para ler o livro até ao fim. E que se sente exausta porque não há dinheiro que pague os anos que um escritor passa agarrado à escrita de um só livro e que “nenhum mercado atual nem nenhuma editora seria capaz de cobrir proporcionalmente e de forma criativa os custos de um trabalho tão extenso”. Ninguém ficou chocado com estas afirmações: nenhum leitor, nenhum escritor, nenhum editor, nenhum agente cultural, nenhum intelectual, nenhum jornalista, ninguém. Uma autora premiada com o mais alto galardão literário e talvez por isso, com múltiplas traduções e vendas consideráveis dos seus livros, diz estar exausta e que se vai dedicar a escrever contos porque já ninguém lê nada aprofundadamente e nós, perante o fim de uma era da leitura, continuamos a preferir fazer scroll pelos milhares de posts que repetem o lançamento das mesmas pedras (provavelmente também elas feitas e criadas por pixéis e zeros e uns artificialmente inteligentes e mui digitais). Usar IA ou não usar IA talvez não seja a questão, mas ser… ter tempo para ser…
Ser ou não ser
é isso a questão
Será mais nobre deixar que o espírito suporte os golpes
e as setas da fortuna ultrajante
ou erguer armas contra um mar de angústias
não aceitando pôr-lhes termo?
Morrer, dormir,
Dormir, talvez sonhar…
Não sei se tudo isto começou na invenção do despertador, mas por certo piorará com este pacote laboral em vias de ser aprovado, deixando os trabalhadores exangues e sem espaço para amar, pensar ou ler, e aqueles que escrevem sem capacidade para o fazer porque nenhuma editora lhes vai pagar o tempo necessário para compor um romance.
E por isso sugiro… tomemos o dia 3 de junho de assalto e que seja um dia só nosso, para sair à rua, para descansar, dormir, sonhar, escrever, lutar contra aqueles que têm tempo e o reclamam só para si, abusando do tempo dos outros; lutar contra o tempo das máquinas que foram inventadas para libertar o ser humano do trabalho pesado e tornaram-se invasoras e abusadoras do tempo e do ritmo dos seres vivos: humanos, animais, vegetais e minerais.
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela