Há três anos que concluo o mesmo: o Chega diz que quer mudar o regime, mas já é sistema há muito tempo. Aquele que se instala por dentro, com peso em vários sectores, financiamento nacional e internacional, redes próprias e uma capacidade de condicionar tudo como nenhum outro partido. Sustentam este sistema três peças que se reforçam mutuamente: dinheiro, instituições e média. A moção de censura da semana passada e o caso Luís Neves são apenas o episódio mais recente a confirmá-lo, servindo para as ver todas em ação ao mesmo tempo.
A moção apresentada pelo Chega acabou com André Ventura a pedir a Luís Neves que se fosse embora “em nome de Deus e do País”. Não passou, como era previsível: o PS absteve-se, lamentavelmente, em vez de votar contra, o Governo sobreviveu, e o Chega saiu do Parlamento com aquilo que realmente queria, ao fim de dois meses de tiro mais ou menos generalizado no espaço mediático: outro dia prolongado de indignação. O Governo cair nunca foi o objetivo.
É claro que as pontas soltas de Luís Neves, mal explicadas em vários momentos de comunicação, forma, modo e conteúdo, adensaram a polémica. Tornou-se óbvio que muitos dos mea culpa do ministro relativos ao tempo em que ocupava o cargo de diretor da Polícia Judiciária deveriam ter vindo antes e por escrito. Só que tudo aquilo que está agora nas “mãos” da Justiça persiste bem longe de qualquer crime maior de corrupção ou parecido.
Constata-se ainda que o último sobressalto mediático ao ministro, por utilizar um carro apreendido a um traficante de droga, se enquadra na legalidade prevista, e que a utilização de viaturas confiscadas por membros do Governo e outras entidades públicas é prática enquadrada e recorrente, sem que isso constitua, por si só, qualquer irregularidade.
Juntem-se então as três peças que sustentam este sistema, começando pelo financiamento. O partido de Ventura não vive de quotas de militantes nem de bengaleiro. Vive, cada vez mais, do apoio de doadores e simpatizantes empresariais que sabem o que esperam em troca de um partido que promete desregular, proteger e lançar o caos sem fazer perguntas. Isto não é antissistema. É, bem pelo contrário, o mais antigo que existe: capital a comprar acesso ao poder, apenas com uma bandeira nova a tapar a operação.
Depois, existe a implementação institucional, e o caso Luís Neves é o exemplo perfeito. Não será coincidência que o alvo preferido deste partido seja precisamente alguém que, como diretor da PJ, liderou investigações a grupos como o 1143 e o Movimento Armilar, estruturas apontadas como estando próximas de sectores do Chega. Ventura não está e nunca esteve a defender qualquer integridade do Estado. Está a atacar politicamente alguém que, pelo cargo que anteriormente ocupou, conhece de perto redes que interessam ao escrutínio público. A ofensiva contra o atual ministro da Administração Interna pode, assim, ser lida como uma tentativa de condicionar uma das áreas onde se “joga” parte do verdadeiro poder: a segurança, os polícias e a informação sobre o que rodeia este partido, bem longe dos discursos de bancada.
Finalmente, os média, provavelmente o fragmento mais relevante de todos. Nenhum partido conseguiu interferir tanto, tão diretamente, na agenda mediática. Nenhum transformou uma moção de censura destinada a perder numa manhã inteira de cobertura em direto, quatro horas de audição ao ministro, como se o resultado estivesse em suspenso. Cada polémica anunciada é amplificada antes de ser verificada, demasiadas acusações viram manchete antes de virarem facto, com parte do jornalismo a tratar fontes de credibilidade muito diferentes como se fossem iguais. Como se já não coubesse a distinção nem o sentido crítico que a profissão exige. Que tenha existido pouco ou nenhum jornalismo a ligar estes pontos simples é mais revelador do que parece. Os média não cobrem o partido de extrema-direita: alimentam-no. E já o fazem há mais de três anos, ainda antes de este se ter tornado sistema.
O Chega não está a preparar-se para agarrar o sistema. Já lhe ocupa quadrantes determinantes, enquanto mantém a fachada de quem está do lado de fora a atirar pedras: mostra sempre a mão vazia enquanto a outra faz o trabalho.
A próxima pergunta crucial não deve ser, portanto, se Ventura e o seu partido querem mudar o regime. Devia ser: que regime é este, que já o deixou instalar-se tanto, sem que praticamente ninguém o chame pelo nome certo? Não é há muito um partido contra o tal sistema. É um sistema com outro sotaque e, a julgar pelo caso Luís Neves e pelo triste espetáculo da semana passada, cada vez mais confortável a comandar nele.
“Em nome de Deus e do País”, claro está.
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