Quatro horas com Elon Musk. À partida, parece menos uma sessão de cinema do que uma ameaça clínica. Se fosse o próprio Musk a anunciá-la, talvez garantisse que 225 minutos bastavam para colonizar Marte, implantar um chip no cérebro de cada espectador e ainda atualizar o X antes do jantar. Alex Gibney faz o contrário: usa três horas e 45 minutos – mais dez de intervalo, úteis para confirmar se a Terra continua no mesmo sítio – para desmontar a construção pública de um dos homens mais ricos, poderosos e sobre-expostos do planeta. Musk, estreado no Lido, na Venice Open – Fora de Competição, é um dos grandes acontecimentos desta 83ª Mostra e será, certamente, um dos documentários do ano.
Gibney não veio apresentar a biografia autorizada de um génio. Para isso já existem hagiógrafos, acionistas, fanboys e algoritmos. Veio seguir o dinheiro, desmontar a narrativa e comparar propaganda com factos, como em Enron: Os Mais Espertos da Sala, Um Táxi para a Escuridão ou A Mentira de Armstrong. Musk é praticamente uma franquia.