Perante os acontecimentos da última semana, e a violência policial exercida contra manifestantes na Praça D. João I, no Porto, surge-me uma palavra com a qual temos uma relação bastante difícil: patriotismo. Evitamos essa palavra como se fosse o diabo, e as razões são simples. Foi há muito tempo cooptada e esvaziada pelo discurso nacionalista da extrema-direita.
Patriotismo é uma palavra que nos assusta porque não queremos que julguem estarmos a defender uma ideia muito conservadora sobre o País e os portugueses. Mas talvez tenha chegado o momento de nos apropriarmos dessa palavra e de inverter as posições no tabuleiro.
Quem mais enche a boca a defender os interesses da pátria é quem mais tem contribuído para lesar Portugal, e assim chegamos a 2026 com um cenário de rachas. E quem mais tem alertado para essas rachas são os jovens e organizações que têm saído todos os anos à rua de forma pacífica, a denunciar não só a falta de casas para viver, mas algumas das grandes questões sociais do nosso tempo. Apesar disso, muitos desses manifestantes são associados a uma ideia de “extrema-esquerda”. São considerados “radicais”, “vândalos”, “extremistas”, e são as próprias televisões que muitas vezes reforçam esses termos, com painéis de comentadores a desvalorizar as suas denúncias.
É preciso reconhecer o 15 de outubro como o momento de rutura em que essa narrativa se inverteu, o momento em que os próprios governantes perderam a serenidade perante um povo sereno, e foram dadas ordens para uma violenta carga policial, sem qualquer justificação. Um erro grave que espoletou o nosso momento “Maricarmen”. Afinal quem autorizou a violência policial é quem deve ser considerado extremista. Perante este episódio, quem governa responde com acusações de egoísmo e refere-se com desprezo à presença das bandeiras da Palestina nas manifestações. Porque incomodam tanto essas bandeiras? Para muitos jovens, a causa da Palestina tornou-se a bússola ética e moral dos nossos tempos e não será o próprio ato de solidariedade com outro país um reflexo de amor pelo próprio país?
Precisámos de muitos anos de manifestações para chegarmos até aqui, mas não deixem de olhar com atenção para o trabalho de inúmeras associações e organizações que estão no terreno. Desde há muitos anos que estão a coligir os números que revelam um retrato desesperante da habitação em Portugal e a denunciar uma situação social que só encontra precedentes nos tempos da austeridade. Quando fomos mais de um milhão de pessoas nas ruas contra os pacotes de austeridade da Troika, não eram extremistas que estavam naquelas ruas a lutar contra a maior perda de direitos desde o 25 de Abril, eram patriotas.
Face a este contexto, acaba de sair uma notícia marcante: os 220 políticos que integram o Governo e os grupos parlamentares do PSD, do Chega, da IL e do CDS-PP possuem, em conjunto, 1039 imóveis, avaliados em cerca de 55,6 milhões de euros, segundo o jornal Público. E acrescenta a notícia: “O património inclui ainda mais de 807 mil euros em rendimentos prediais declarados e participações em dezenas de empresas imobiliárias, num grupo que tem aprovado medidas favoráveis aos proprietários, incluindo benefícios fiscais e alterações às leis do arrendamento.”
Já se pode falar sobre as razões por que algumas das soluções mais eficazes para pôr fim à crise da habitação nunca foram postas em prática? E que muitos daqueles que legislam estão minados por conflitos de interesse no sector imobiliário? Se é verdade que não está em causa o direito à propriedade, não será legítimo perguntar se estes legisladores estão a garantir as mesmas condições de direito à habitação a todas as pessoas ou, pelo contrário, a privilegiar os seus próprios interesses?
Semanas depois de terem feito um acordo com o Governo e aprovado na generalidade a nova lei do arrendamento urbano, que iria permitir aos senhorios facilitar os despejos, o Chega vem agora, muito preocupado e muito hipócrita, propor um novo pacote legislativo de emergência na habitação. A maré virou e hoje escolhem estar do lado dos portugueses que lutam por dignidade. Amanhã não sabemos que lado irão escolher.
Quem defende afinal a pátria? Aqueles que enchem a boca em seu nome ou aqueles que lutam pelo direito à manifestação, a ter uma casa e qualidade de vida, e a construir um futuro no país onde se quer viver?
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