Fartei-me disto tudo. Para deputados, quero apenas pessoas que acabam os verbos em s: “comestes”, “fizestes”. Quero o maluco do autocarro na condução dos Negócios Estrangeiros, e os trabalhadores do supermercado, que indicam o corredor, condecorados com a Ordem Militar de Avis.
Sendo mesmo sincero, cansei-me. Sempre que um qualquer político quisesse entrar em guerra, era pô-lo a dividir o Camões em orações e “só sais daqui quando estiver tudo feito”. Em vez de polícias, destacar pelos quarteirões aquelas senhoras que passam a vida à janela do nosso país. Não nos protegeriam de coisa alguma, mas estaríamos sempre a par dos inúmeros amantes da vizinha do 3º andar.
Na mesma linha, era queimar toda a literatura, porque não se monta um móvel do IKEA consultando um romance, nem se cura um dedo partido com sonetos de Florbela. Talvez mesmo eu tivesse aprendido qualquer coisa, que, quando perdi o meu avô, me arrisquei nos lirismos toscos de uma adolescência então vencida.
Assim, tudo estaria certo: na Assembleia, a conversa seria “aprovastes o Orçamento?”, e nas embaixadas decretar-se-ia a obrigatoriedade de ter pontas de cigarro apagadas e de se dar gritos inesperados. Além disso – em notícia de última hora – parece que a tal do 3º andar descartou todos os amantes, encontrando-se, finalmente, a endireitar a sua vida.
E, portanto, peço que perdoem esta minha insolência, mas senti-me ligeiramente farto disto tudo.
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