Nos últimos dias têm-se multiplicado as críticas ao sucesso de Portugal no combate à Covid – 19. O recrudescimento de novos casos na zona de Lisboa foi o motivo e as comparações com o que, entretanto, se está a passar noutros países europeus são, segundo alguns, a prova que nos compromete. Utilizando um critério assaz habilidoso, apresenta-se Portugal como o segundo pior país da Europa nos últimos 14 dias (a seguir à Suécia) na incidência acumulada de novos casos (415/ milhão de habitantes).
Pois, mas esta análise peca por se referir apenas a um indicador e ser um corte isolado na evolução da pandemia na Europa, em que a maioria dos países está já na fase descendente dos seus efeitos (curiosamente com aumento de casos nos últimos dias também na Alemanha e na República Checa, por exemplo) e em que Portugal, com mais de um mês de atraso no início da pandemia, sofre de um pequeno revés localizado em Lisboa. Não é uma comparação séria, leal e tecnicamente aceitável. A COVID deixa um rasto característico em cada um dos países, em múltiplas dimensões e em tempo, e é este ciclo que conta e que, seriamente, importa comparar.
E, como iremos ver, comparamos muito bem com os principais países europeus, ocupando sempre posições na metade superior do ranking. Vamos, para isso, considerar os países que formaram o núcleo principal da União Europeia – a Europa a 15 – a partir de janeiro de 1985.
Excluímos propositadamente os países – membros do leste europeu, porque apresentam, genericamente, uma incidência do vírus muito menor, poucos internamentos e muito poucas mortes. Esta clara demarcação geográfica, entre o leste, por um lado, e o centro e o oeste da Europa, por outro, foi, aliás, objeto de algumas tentativas de explicação, nenhuma delas convincente, como a que se inclinava para considerar os países com programas de vacinação que incluíssem a BCG, imunes, de certa forma, ao novo vírus. Mais credível será a tese de que os países do leste têm, genericamente, sistemas de saúde mais frágeis, nos recursos, na organização, nos sistemas de informação, nos registos e na transparência, que podem adulterar a realidade e enviesar comparações. Há exceções, com certeza, que apenas confirmarão a regra.
Comparar Portugal com os países da EU a 15 – precisamente os mais desenvolvidos e com uma cultura democrática mais estável e robusta – parece ser, assim, uma escolha exigente e plausível.
Reportar-nos-emos aos dados obtidos no dia 15 de junho nos quinze países, em cinco dimensões: incidência, impacto na mortalidade, taxa de letalidade, gravidade dos infetados e duração da pandemia.
Mas começaremos por um indicador prévio, que traduz o grau de aproximação de cada país à realidade do contágio:
1. Aproximação à realidade quanto ao número efetivo de infetados
a) Indicador: Número de testes realizados por milhão de habitantes
b) O melhor país: Luxemburgo – 177.379 testes/milhão de hab
c) O pior país: França – 21.214 testes/milhão de hab
d) Posição de Portugal: 5/15; 95.680 testes/milhão de hab.
2. A incidência do vírus
a) Indicador: número de casos confirmados por milhão de habitantes
b) Melhor país: Grécia – 302 casos/milhão de hab.
c) Pior país: Luxemburgo – 6510 casos/milhão de hab.
d) Posição de Portugal: 8/15; 3661 casos/milhão de hab.
3. O impacto do vírus na mortalidade
a) Indicador: número de óbitos por COVID – 19 por milhão de habitantes
b) Melhor país: Grécia – 18 óbitos/milhão de hab.
c) Pior país: Bélgica – 834 óbitos/milhão de hab.
d) Posição de Portugal: 6/15; 149 óbitos/milhão de hab.
4. Taxa de letalidade do vírus
a) Indicador: quociente entre o número de mortes por COVID -19 e o número de casos confirmados (em %)
b) O melhor país: Luxemburgo – 2,70%
c) O pior país: Bélgica – 16,07%
d) Posição de Portugal: 3/15; 4,07%
5. Gravidade dos doentes
a) Indicador: quociente entre o número de doentes críticos e o número de doentes ativos
b) O melhor país: Bélgica – 0,26%
c) O pior país: Alemanha – 7,14%
d) Posição de Portugal: 3/15; 0,58%.
6. Duração da pandemia
a) Indicador: número de dias desde o registo do primeiro caso até ao presente
b) Com mais duração: França – 148 dias
c) Com menos duração: Portugal – 110 dias.
Com a exceção da gravidade dos doentes, que é circunstancial e referente especificamente ao dia 15 de junho, os restantes traduzem a realidade acumulada ao longo do tempo em que a pandemia tem incidido em cada país. E podemos concluir que Portugal, não só é o país que luta contra a pandemia há menos tempo, como apresenta bons resultados no cômputo geral, sempre longe dos países com pior desempenho e, pelo contrário, com resultados que são internacionalmente reconhecidos, na mitigação da letalidade do vírus e da gravidade dos doentes. A ausência de pressão nos internamentos hospitalares foi sempre uma constante ao longo do desenvolvimento desta pandemia, facto raro no contexto da Europa a 15. Num dos últimos relatórios do Imperial College sobre a Covid, Portugal surge no topo dos países que melhor refletem a realidade do contágio (estimada em 70,6% dos casos efetivamente existentes, que compara com apenas 15,1% no Reino Unido ou 33% na Alemanha) e em que o vírus apresenta atualmente menor capacidade de progressão (Rt= 0,67, o terceiro mais baixo da Europa, depois da Bélgica e da Dinamarca).
É inquestionável que o desconfinamento progressivo a partir de 4 de maio aumentou, naturalmente, o risco de transmissão do vírus. Mais pessoas em circulação, reabertura de escolas, empresas, lojas e restaurantes, retoma dos transportes públicos e do convívio social, ainda que muitas vezes sem controlo das autoridades, faziam admitir o aparecimento de novos casos. O que não se previa é que isso se concentrasse numa única região e num conjunto restrito de municípios – Lisboa, Amadora, Loures, Sintra e Odivelas. Os tipos de trabalho, as deslocações longas em transportes públicos e as condições habitacionais, poderão explicar grande parte destes novos surtos, cujo controlo parece não ser fácil. E as diferenças entre as duas maiores áreas metropolitanas – Porto e Lisboa – parecem demonstrar que o tecido socio-económico e as condições e circunstancias de vida não serão, afinal, tão semelhantes.
Olhando para os resultados nacionais, registou-se, de facto, um aumento no número diário de novos casos a partir de 18 de maio (curiosamente 14 dias após o início do primeiro ciclo de desconfinamento, a 4 de maio) que se manteve no sentido ascendente até à semana iniciada a 8 de junho. Nessa nova semana (8 a 14 de junho) o número de novos casos reduziu-se em 9%, em média por dia, passando de cerca de 313 para cerca de 285. Curiosamente, o número de doentes internados desceu sempre, em termos médios diários, nas semanas sucessivas, desde 4 de maio a 14 de junho. A existência média diária de doentes em cuidados intensivos teve percurso similar até 7 de junho, passando de cerca de 162 doentes (em 3 de maio) para 59 (em 7 de junho), uma descida superior a 50%. Mas na semana de 8 a 14 de junho essa média diária subiu para 69 doentes, um crescimento de 17%.
Os óbitos também diminuíram a partir de 4 de maio, pese embora se tenha registado um ligeiro aumento na semana de 18 a 24 de maio (14 óbitos por dia), tendo voltado, depois, à tendência de diminuição, com valores bastante mais moderados nas duas semanas de 1 a 14 de junho (10 e 5 óbitos por dia, respetivamente).
Na última semana (15 a 19 de junho, dia em que escrevo) os indicadores da atividade pandémica parecem ter-se agravado, ainda que moderadamente: mais 24% no número médio diário de novos infetados; mais 3,4% na existência média diária de internamentos; mais 1% na existência média diária em camas de cuidados intensivos. A boa notícia é que os óbitos baixaram de forma significativa, atingindo a média de 2 mortes por dia, o que representa, face à semana anterior, uma redução de 68%. A situação continua globalmente positiva, mas há sinais crescentes de preocupação, ainda que sem alarmismos ou qualquer pressão excessiva sobre os serviços de saúde. Estamos a pagar, de forma equilibrada, os custos do desconfinamento. Comporta riscos, mas era um passo necessário.
Em síntese, e apesar do aumento de novos casos, estes não têm tido significativo impacto nos hospitais e no número de óbitos. Isso deve-se ao facto de os novos casos serem maioritariamente de pessoas jovens (hoje,19 de junho, mais de 56% dos novos casos têm menos de 40 anos). São, provavelmente, as faixas etárias hoje mais expostas, por razões profissionais e académicas, e também as que têm tendência a apresentar menos preocupações e menos cuidados. Daí que, por exemplo, a taxa de letalidade do vírus esteja a diminuir em Portugal, de forma ligeira mas consistente, desde o dia 3 de junho (mais casos, menos óbitos, menor letalidade).
Esperamos todos que os novos focos de contágio hoje existentes na região de Lisboa e que parece terem também aparecido num ou noutro ponto do país, e de novo em lares, sejam confinados e retomemos o percurso de controlo definitivo do vírus. Até agora, nada pôs em causa os nossos bons resultados e a confiança que a Europa deposita nos nossos serviços de saúde e nos nossos decisores políticos. Poderemos vir a obter, a muito curto prazo, frutos desta distinção. Não devemos dar, ingenuamente ou não, tiros no pé.