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A União Europeia é quase uma anedota planetária. Já não é a primeira vez que, perante uma situação grave, se assiste ao patético espectáculo da divisão entre os países mais poderosos e que disputam entre si espaços de influência seja na esfera política seja no domínio económico. Viu-se o que aconteceu aquando da intervenção dos EUA no Iraque, que suscitou o entusiástico e incondicional apoio da Grã-Bretanha e as reservas críticas do eixo franco-alemão; repetiu-se no final de 2008, quando eclodiu a crise do imobiliário nos EUA, com o directório da União paralisado quanto a uma resposta concertada na defesa da sua economia e do futuro do euro, mas assistindo à urgência com que alguns países salvavam os “seus” bancos da voragem predadora dos mercados; e está a acontecer de novo, agora, quando os especuladores financeiros se atiram às dificuldades da Grécia, fazendo pairar sobre este país um clima de bancarrota iminente, com consequências na depreciação do euro e, sobretudo, lançando nuvens cada vez mais negras sobre a realização do sonho europeu. São só três exemplos, porventura os mais gritantes, mas poderiam apontar-se muitos mais.
A realidade é que nesta Europa onde os egoísmos prevalecem e em que as pulsões nacionalistas se sobrepõem cada vez mais à razão de encontrar caminhos de equidade na acção política, há uma lição a retirar desta crise que vivemos: é mais fácil salvar um banco do que salvar um país. Pode ser um daqueles acasos absolutamente inexplicáveis, mas pode ser também um símbolo dos tempos que vivemos o facto de o país mais atacado pelos rostos sem ética da especulação e tão vilmente humilhado pelos dirigentes europeus ser justamente o berço da nossa civilização e da nossa cultura.
O boicote da senhora Merkl a encontrar rapidamente uma solução para a Grécia ajudou a disseminar aquele tipo de “ideias” cuja génese só pode ter despontado na mente esfuziante de um qualquer taxista de Leipzig ou de Berlim, mas que, lamentavelmente, também por cá encontrou insuspeitos porta-vozes. Tais “teses”, ridículas, consistem essencialmente em considerar que a Grécia estava mesmo a pedi-las por ter andado a viver à grande e à francesa à custa do esforçado povo alemão e que salvá-la da mão dos especuladores (ou seja, emprestar-lhe dinheiro a juros decentes) é o mesmo que entregar-lhe dinheiro sem retorno. Se é bem verdade que o Governo grego aldrabou as contas do país perante os seus parceiros comunitários, não o é menos que bancos e grandes empresas alemãs são dos que mais têm beneficiado com a tragédia grega, não só em resultado da desenfreada especulação à volta da sua dívida, mas por tudo o que a precedeu. Também por lá se fizeram negócios rocambolescos com submarinos germânicos…
A paralisia da UE imposta pelo diktat alemão é, portanto, não só arrogante e desumana como ajuda a enfraquecer ainda mais os alicerces da construção europeia. É urgente agir em relação à Grécia dado que a situação ameaça estender-se a Portugal e a outros países e, paralelamente, encontrar novos caminhos de regulação da banca, a grande responsável pela crise financeira mundial. Obama está a fazê-lo, nos EUA. Infelizmente, é de temer que a contribuição portuguesa para este último objectivo esteja comprometida. O inefável Constâncio, que acabámos de “exportar” para o BCE, já apelou à prudência nestas coisas da regulação. Como se viu no caso BPN, a gestão “prudencial” foi sempre a sua marca.