Luanda, 03 Abr (Lusa) – O novo código da estrada em vigor em Angola, desde 01 de Abril, divide os cidadãos, com alguns a acatarem o que o diploma prescreve e outros a optarem pelo incumprimento deliberado das novas normas de trânsito.
A Agência Lusa contactou condutores e populares na capital angolana, que foram unânimes a afirmar que, por um lado o novo código da estrada está a disciplinar a circulação automóvel em Luanda e, por outro, denunciam as imposições nele contidas por estarem aquém da bolsa do cidadão comum.
O novo código da estrada estabelece, entre outras medidas, o uso obrigatório do cinto de segurança, que no passado não era observado, da “cadeirinha” destinada a menores até 12 anos, e o uso obrigatório de capacetes pelos utentes de motociclos com motor, além das avultadas multas aplicadas aos transgressores que chegam a atingir os 1500 euros, por infracção.
Em declarações à Lusa, Marcolino Tchikapa de 40 anos, afirma que o novo instrumento é bem-vindo e visa normalizar a “catastrófica” e “desastrosa” condução automóvel que se pratica não só em Luanda, como noutros pontos do país, que acaba sempre por ceifar vidas humanas.
“A lei já há muito fazia sentir a sua falta, porque nem todos os condutores observam as normas legais de condução automóvel, desrespeitando sistematicamente o que aprenderam na escola”, salienta Marcolino Tchikapa.
Segundo este condutor, que possui carta profissional há 17 anos, dirigir um carro em Luanda é o mesmo que ir à “guerra”, que só se sabe como começa mas não como e onde irá acabar.
“Antes, era tudo muito mais complicado circular-se por Luanda. Agora nota já alguma observância das regras de trânsito, embora seja muito cedo para tirar conclusões”, refere Tchikapa.
Outro entrevistado foi Arlindo Miguel de 29 anos, para quem o código de estradas ainda não está em cumprimento integral no país, porquanto os condutores, principalmente os utentes de carrinhas de passageiros, (vulgo candongueiros) continuam a violar a legislação, conduzindo de maneira “desordenada”, com ultrapassagens à direita, e a inventar novas faixas de rodagem, para além da lotação excessiva dos carros.
“Não se podia admitir que em plena vigência do novo código da estrada os taxistas continuem a violar as normas estipuladas alegando não existirem condições para o seu cumprimento integral”, afirmou Arlindo Miguel.
Já Sandra Gouveia, de 33 anos, mãe de uma filha de seis anos, disse ser uma das penalizadas pelo presente diploma, uma vez que exige o uso da “cadeirinha” para a menina, e que pelo preço que a mesma é vendida no mercado está a enfrentar dificuldades financeiras para a sua aquisição.
“A minha filha tem necessidade de ir todos os dias à creche, como terei de a levar no meu carro se não tenho a cadeira apropriada”, questionou-se Sandra Gouveia.
“Já percorri as farmácias e lojas, e constatei que este utensílio custa no mínimo 35 mil cuanzas (o equivalente a 470 euros)”, acrescentou.
Carlos Simão de 41 anos diz que a lei “é a todos os títulos positiva e há muito já era esperada”.
Desde quarta-feira, altura em que entrou em vigor o novo código da estrada, já se vê que a maioria dos condutores usam o cinto de segurança, mas o transporte de crianças com menos de 12 anos está a ser feito sem o uso da “cadeirinha”.
No entanto, os motociclistas continuam a violar as regras de trânsito, ora conduzindo em sentido contrário, ora transportando passageiros sem que estejam habilitados para o efeito e dispensando a utilização obrigatória do capacete.
Fonte dos Serviços de Viação e Trânsito revelou à Lusa que os agentes regulares ainda não passaram à acção a 100 por cento, estando neste momento a exercer um “papel pedagógico”, durante 30 dias, no sentido de persuadir os cidadãos a cumprirem o que o novo código da estrada estabelece.
“Estamos a incutir aos condutores a consciência de estarem melhor ao volante, porque só assim se evitará a perda de milhares de vidas humanas em acidentes de viação”, disse a fonte.
A Polícia garante estar atenta e promete punir “severamente aqueles comerciantes que se estão a aproveitar das novas exigências da lei para praticarem preços especulativos dos produtos, como os capacetes e as “cadeirinhas” destinadas a crianças.
Desde a entrada em vigor do novo código, assiste-se na capital angolana a uma onda de roubos sucessivos aos carros para lhes retirar a “cadeirinha”.
HSO.
Lusa/fim