A música corre-lhe no sangue. Depois de se mostrar em bandas com L Mantra e Nome Comum, Madalena Palmeirim estreia-se a solo como um álbum em que a música não conhece estigmas nem fronteiras. Em Right as Rain, canta em português, inglês e crioulo, e deixa-se levar, sem preconceitos pelos sons do pop-rock, folk, música brasileira, e até morna. O disco é uma das boas surpresas do final de 2019, pronta a ser escutado por 2020 a fora.
JL: As três primeiras canções do álbum são em três línguas diferentes – inglês, crioulo e português – é uma afirmação de ecletismo e diversidade?
Madalena Palmeirim: Sim, por um lado é uma afirmação dessa minha natureza, por outro é também uma afirmação perante uma indústria musical que tende a reduzir a identidade dos artistas para melhor os enquadrar numa lógica mercantil ou comercial.
O mais surpreendente é o facto de cantares uma morna, “M’ Câ Sabe”. Como surgiu este tema?
Já andava apaixonada pela música de Cabo Verde há alguns anos, sobretudo desde que comprei um cavaquinho. Na altura em que estava a fechar o alinhamento para o álbum, e por querer alargar o espectro de linguagens cantadas, pedi emprestado um fado do Pedro Faro e propus-me a transformá-lo numa morna. Foi um exercício de transformismo, não só de tradução do poema original, mas também de criação de novas melodias e arranjos. E é muito bonita a coincidência agora com a morna a ser elevada a património imaterial…
A questão dos idiomas é muito interessante. Como sabes se uma música vai ser em português ou inglês?
À partida nunca sei. A não ser que o ímpeto para escrever uma música venha já de uma frase ou ideia que comece a crescer em mim. Daquelas ideias que ficam em loop à espera que pegue nelas. Mas gosto muito de me deixar seguir pela sonoridade e trabalhar simultaneamente a base musical com a fonética e a métrica das palavras, seja em que língua for. É como compor em português de Portugal ou do Brasil. São formas profundamente diferentes na sua oralidade. Gosto de poder aproveitar-me das diferentes características que cada linguagem tem. Já me aconteceu compor canções em português do Brasil e não conseguir depois “traduzi-las” para o português de Portugal. Nesse exercício de transformação a canção simplesmente deixava de fazer sentido.
O que procuraste para este álbum a solo que não tinhas espaço nas tuas bandas e projetos?
Nas outras bandas trabalho em parceria com outras pessoas, como é o caso de L Mantra, um duo com o João Teotónio, ou com Nome Comum, projeto a meias com o meu irmão mais velho. Neste meu primeiro álbum estava a precisar, sobretudo, de fixar temas que já me vinham assombrando já há alguns anos. No fundo quis também libertar-me para juntar novo repertório, já que é raro haver alturas em que não estou a compor. Tive a oportunidade de prestar maior atenção ao que andava a colecionar dentro de mim, em termos de referências e tudo mais. E obviamente os convidados que me rodeiam contam também um pouco mais da minha história. Tive sobretudo o tempo para pensar em todos os detalhes, em termos criativos, em particular com a escolha dos intérpretes convidados e dos arranjos para gravação em estúdio.
Sim, é um álbum muito colaborativo… É como se fosse a tua ‘família’ da música?
Sem dúvida. Desde o meu irmão, que foi no fundo que me iniciou nesta brincadeira de fazer canções, como músicos com quem, entretanto, me fui cruzando nos últimos anos desta profissão. Há com certeza muitos músicos que não tive oportunidade de convidar para este primeiro álbum (precisaria de mais tempo e dinheiro para estar em estúdio…), mas é algo que acho que irei sempre procurar, este lugar de cruzamentos de expressões e linguagens artísticas. Estava a precisar desse tom de colaboração e de celebração para pôr este álbum finalmente fora das minha mãos.
E agora? Vais apostar mais no percurso a solo? Ou tentar conciliar tudo?
Tenho-me regido por esse princípio, o de conciliar tudo. Se tenho conseguido viver profissionalmente da música é precisamente por tentar ter um pé em cada área. É uma roda-viva, mas a verdade é que me interesso por um espectro grande do que se pode fazer à volta do som, que vai desde a composição e interpretação de canções, à gravação e mistura para a criação de sonoplastia para espectáculos. Mas nesta fase, claro, vamos apostar em concertos ao vivo do meu projeto a solo, onde vou estar acompanhada por Manuel Dordio (guitarras), David Santos (baixos) e Nuno Morão (bateria).