Que uma ópera dum compositor português seja encomendada por uma das mais importantes instituições mundiais nos domínios da arte lírica, para o Festival de Aix-en-Provence, é uma situação excecional. Mais ainda quando é apoiada e co-produzida por várias estruturas europeias prestigiadas, difundida pela Radio France Musique e escolhida para capa da revista de referência Opern Welt. A ópera em questão, The House Taken Over, tem estreia nacional marcada para sexta feira, 21, às 21h e 30, no Teatro Maria Matos, no âmbito da temporada da Gulbenkian Música e concluindo uma digressão por Antuérpia, Estrasburgo, Luxemburgo e Bruges, após a estreia mundial em julho último em Aix-en-Provence. É a segunda composta por Vasco Mendonça, 36 anos, residente em Lisboa, sucedendo a Jerusalém (que em 2009 adaptou, para o palco da Culturgest, o livro de Gonçalo M. Tavares), e parte do conto de Julio Cortázar La Casa Tomada, que foi trabalhado pela libretista Sam Holcroft. A trama da ópera, encenada por Katie Mitchell, explora a tensão psicológica na relação entre dois irmãos que se recusam a deixar a casa de família quando ela é subitamente invadida por uma entidade desconhecida e ameaçadora.
JL – O que mais lhe interessou no conto de Cortázar?
Vasco Mendonça: Ele distingue-se dum vulgar thriller, pela forma como nos é apresentado. Ouvimos a história através do irmão, que é ao mesmo tempo personagem e narrador e tem uma atitude quase displicente em relação à narrativa, o que faz pôr em causa se estaremos a ouvir a história toda e correta. Mas o que me interessou mesmo foi a reacção deles, pelo facto de a casa estar a ser invadida e eles permanecerem nela. E então várias questões se levantam – e não apenas a da identidade do invasor -, como o que haverá de tão terrível lá fora que seja preferível eles ficarem e enfrentarem a invasão, qual a história daquelas pessoas.
Não lhe interessou a parábola política contida na história?
Não, interessou-me mais o momento em que ela se pode tornar um drama íntimo, em que desviamos a atenção da ameaça para o que se passa entre eles – e aí podemos descobrir algo tão ou mais terrível do que a casa ameaçada. Interessava-me explorar essa dimensão da violência e do sofrimento que se pode gerar na intimidade mas também a transcendência que essa intimidade pode trazer às relações humanas.
As condicionantes de se tratar dum projeto de ópera de câmara, com um ensemble de câmara, orientaram a sua escolha para um drama íntimo?
Sim, para esta história precisava de ter poucas personagens, só duas, e um ensemble camerístico. Esse ensemble de 13 instrumentistas, com alguns instrumentos dobrados, ajustei-o de forma a tentar ter, nalguns momentos, um som orquestral, como se fosse uma força maior, e ao mesmo tempo manter uma certa delicadeza na escrita para poucos instrumentos.
Porque optou por um libreto em inglês? A sua experiência anterior de trabalhar com a língua portuguesa, nomeadamente na ópera Jerusalém, criou-lhe dificuldades?
A nível do texto dramático, sinto algumas dificuldades em trabalhar com o português. Primeiro, porque é a minha língua materna e tenho muito mais pudor do que tenho numa língua que não é a minha, e esse pudor pode ser um bocado incapacitante. Por outro lado, há aspetos técnicos do português que por vezes levantam problemas quando se pretende fluidez dramática – e neste caso o que eu queria era um discurso rápido, uma linguagem direta, e para esse tipo de abordagem a língua inglesa é a ideal, por ser económica, capaz de dizer muito com poucas palavras.
Crê que esta digressão europeia, rara para uma ópera de um compositor português, pode ter-lhe aberto portas?
Sim, tenho tido sinais muito positivos, o que parece indicar que no futuro possam vir a existir novos projetos, até de natureza operática. Pessoalmente, prefiro não me ver como um compositor português mas apenas como um compositor. Tento que o meu limite artístico não seja determinado por fronteiras geográficas. Há, em Portugal e no mundo inteiro, um conjunto de compositores extraordinários da minha geração a trabalhar e o meu objetivo é posicionar-me nessa escala global. Hoje as distâncias são mais curtas. Nestes últimos anos, tenho sentido alguma desvantagem por estar a residir em Lisboa e não em Berlim ou em Paris ou Londres, porque há uma parte da promoção da carreira que é feita a nível pessoal. Em Portugal há grandes limitações mas tenho imenso prazer e interesse em que a minha música seja tocada aqui – aliás o facto de a ópera vir a Portugal, à minha cidade, significa muito para mim.
O seu exemplo poderá indicar que a exclusão da música portuguesa da cena internacional não é uma inevitabilidade?
Eu acho que não é, até porque há alguma a ser tocada fora de Portugal. Não vejo porque um compositor português há-de estar excluído dos circuitos internacionais – e há vários colegas meus, compositores e intérpretes, que têm carreiras internacionais. A minha experiência diz-me que não é impossível, até porque nos últimos dois anos tenho trabalhado sobretudo no estrangeiro.
A vinda da ópera da Lisboa fechando uma digressão com várias apresentações pressupõe que ela esteja no apogeu…
Sobretudo a nível da interpretação, porque a partir de certo ponto os intérpretes começam a familiarizar-se com a música depois de sobreviverem à estreia – porque a música nova é difícil de se fazer, têm de descobrir a linguagem. A partir de certo ponto, cantores e instrumentistas começam a apropriar-se da obra e a torná-la sua. A nível da composição, fiz poucos ajustes, apenas alguns pormenores, e na encenação quase não houve alterações, porque a Katie Mitchell é muito meticulosa e desde o princípio que estabeleceu um alto nível de detalhe e de consistência. Esta encenação é fantástica.