Tinha passado a tarde com os lápis de cor. Viarco. Difíceis de afiar, vendiam-se em caixas de seis. O primeiro a consumir-se-me era sempre o encarnado.
Nesse dia, dera grande gasto ao lápis preto. Pusera- me a descrever uma tourada, e não fora além do touro. Não atinava com a cor para o toque do cornetim, para as voltas dos capotes. Nem para o bandarilheiro indo pelo ar.
Com palavras, porém, eu conseguira contar tudo o que se passara. Já o fizera. A meia voz e só para mim, como sempre.
Eis-me perplexa. Olhava a fatia de pão-de-ló e o pêssego do lanche. Não comi.
«Talvez escrevendo. Se eu soubesse escrever… »
Meti para a cozinha, ignorando que ia de Picasso a Hemingway. Remirei a caixa de esmalte pendurada na chaminé. Assentei o bico do lápis e copiei: «SAL»
Era a primeira palavra que escrevia. Nascera. Quatro anos antes.
O desembarque na Normandia dera-se no princípio da semana. E o estádio do Jamor seria inaugurado no dia seguinte.
Dir-se-ia que Lisboa fora ocupada pela Legião, Mocidade e todos os graúdos da UN. Mesmo assim, nasci em Lisboa.
Onde haveria eu de nascer?
Miúda sem irmãos. Às vezes com a companhia das primas Áurea, Aldina e Dinora que vinham de Torres Novas para uma tarde de desenhos animados. Jardim Zoológico. Coliseu.
Ah!.. E o Ernesto.
O meu primo Ernesto. Morávamos perto: eu na rua do Açúcar, ele na Capitão Leitão que era logo ali, Atrás-dos-Fósforos.
Tínhamos (temos) onze anos de diferença. Ouvi- lhe a descrição de todos os filmes da época. As canções. Que bem ele cantava. E desenhar? Quem me dera escrever como ele desenhava!
Em breve a École Française de Lisbonne. Travessa do Pátio do Tijolo, 25.
Ninguém me obrigava às Lusitas. Nem a uma confissão religiosa. Tornei-me bilingue. À distância, desejei a Liberdade. Teimei na Igualdade. Reclamei Fraternidade.
E a primeira palavra, na língua do coração? Marin. Lembro-me tão bem como de Sal. Afinal, sempre têm a ver uma com a outra.
A École Française passou a Lycée Charles Lepierre. Lá me fui encontrando com a Europa. Com quem ia e vinha, passando fronteiras com esforço e desconfiança. Estava-se ainda no refluxo da Guerra.
Um dia:
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café…
Descobrira Jacques Prévert.
Mas também os portugueses, os brasileiros. Melville e Tolstoi.
Gostava cada vez mais de Matemática. Biologia. Física.
Escrevia. Como se aos treze, catorze anos, eu tivesse alguma coisa para escrever.
E aos dezasseis, um rapaz.
Foi nas férias de 1960. Já em Setembro, na Nazaré.
«É este! Será este…» – Pensei. Senti.
«Pressenti, nesse momento, que tu serias a parceira do resto da minha vida» – Disse- me ele, há meses, numa rua de Verona.
Assunto arrumado.
Casámos em Novembro de 1967. Ficámos a morar perto de Sintra. Casa acanhada. Trocámo- la, mais tarde, por uma moradia com horta, jardim e cães.
Escapámos à Guerra Colonial. Tivemos filhos. Artur (1968). Leonor (1970). Catarina (1971).
Entretanto, eu começara a trabalhar no MOP. Recolhia, tratava e divulgava a documentação técnica necessária ao estudo e construção de escolas.
Gostava do que fazia. Do que fiz, até ao passado dia 1 de Junho. Escrevi sobre os assuntos com que me cruzei. Escrita rigorosa. Contudo, foi-me sempre possível salvá-la da aridez.
Estava à beira dos trinta anos.
Numa quinta-feira morrinhenta, quando o despertador tocou e liguei o rádio: «Aqui, comando do Movimento das Forças Armadas…»
25 DE ABRIL! NINGUÉM ME TIRA O 25 DE ABRIL!
Foi a Festa.
E sei hoje que as grandes alegrias proporcionam mentiras. Traições. Mas se aguentarmos até que o pior passe, haveremos de assistir às madrugadas que ainda hão-de vir.
A morte passou.
Foram-se os mais velhos da família. Setembro de 1975. Março de 1976.
E a renovação.
O André, de surpresa. Nasceu em Sintra, em Janeiro de 1978. A quarta criança, o quarto adolescente. Idealista como os irmãos. Irrequieto como nenhum.
Nesse mesmo Inverno, ardeu-me a Faculdade de Ciências.
Do velho casarão da Politécnica, haveria de surgir um Museu. Pedras limpas de fuligem. Relva no claustro.
Mas doeu. Às vezes ainda dói.
Mais tarde seria o Chiado. Dez anos mais tarde.
A camioneta da Câmara tinha saído de Manteigas carregada de gente. Tralha diversa. E a banca de carpinteiro do Toninho – mestre em construção de cortes, um dos últimos da arquitectura popular serrana…
Escrevi, em Agosto de 1982.
Foi a época do montanhismo. Do País percorrido por dentro, a pé. Em grupo. De desconhecidos que se tornaram amigos. João e Ivone. Zé Maria. Zé do Rio. Zé Manel.
E o Germano que, de quando em quando, mijava para o mar. Querido Germano.
Hoje,
a Estrela.
Lagoas, caldonária, zimbro.
Hoje,
ajudando-nos uns aos outros,
subimos à Candeeira.
A Annick e o Thomas subiram algumas vezes connosco.
Eles vêm muito por cá, de férias: mergulhos na Praia Grande e os trilhos que tanto podem ir dar a Montesinho como a Castelo de Vide.
Mas também as nossas vadiagens por França. Quase sempre partindo da Borgonha. Da casa deles. Campos de girassóis em redor, colmeias ao fundo.
Vontade de escrever.
Sempre.
E se dispusesse de tempo, tempo só meu, eu teria já algumas coisas para dizer. Mentiras. Porque, de verdades, estava cansada.
Galgando para 1996.
Filhos crescidos. Ninho vazio.
A cada um sua vida, mantendo-se o clã. Xadrez moderno, urdido por telefone. Pela electrónica.
Ficou-nos livre uma das divisões da casa. Outra.
Estantes pelas paredes. Finalmente, os livros arrumados. Uma secretária no vão da janela.
Avisto o limoeiro. As flores da glicínia anunciam- me o alongar dos dias. Pela folhagem, sei quando chega o Verão.
«E se neste Verão fôssemos aos Açores?…» «Vamos!»
Natália e Antero. Rabo de Peixe. Os metrossíderos da Serreta.
A campa do meu Bisavô, na Horta. Desterrou-o Sidónio Pais. Lá ficou, em 1926.
A memória.
Sentei-me e comecei As Cidadãs.
E depois?
Agora.
Continuo a deslumbrar-me com Lisboa.
A gostar de Matemática. Física. Biologia. De Jacques Prévert. Mozart e José Afonso.
O Museu d’Orsay.
As serigrafias de Maria José Ferreira e de David Almeida. Os quadros de Van Gogh, Maria Helena, Paula Rego.
Assim eu possa continuar: SAL. MARIN. ZIMBRO. TOURNESOL…

Autobiografia publicada na edição 988, de 13 de agosto de 2008.