Na primeira página do seu romance Conversa na Catedral, publicado em 1969, Mario Vargas Llosa (MVG) enuncia aquela que é a sua tese fundamental acerca do país em que nasceu, ideia que ecoa através de toda a sua obra: “Da porta de La Crónica, Santiago contempla a Avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos a flutuar na neblina, o meio-dia cinzento. Em que altura se tinha lixado o Peru?” E, mais adiante, em tom definitivo: “O Peru lixado, pensa, Carlitos lixado, todos lixados. Pensa: não há solução.”
É difícil compreender como o autor de um tão desiludido diagnóstico encontrou ânimo e vontade para declarar o seu apoio à candidata presidencial Keiko Fujimori, filha do ditador e cadastrado Alberto Fujimori, num artigo onde, sem ambiguidades, a considerou “um mal menor”, perante a ameaça do candidato das esquerdas, Pedro Castillo (El País, 18/04/2021). Reafirmou o seu apoio com contundência num ato público da candidatura fujimorista, realizado na sua cidade natal, Arequipa, no último dia de maio.
É certo que, no artigo citado, MVG enumera todos os contras que a candidatura de Fujimori apresenta, desde a promessa de indultar o pai, que está a expiar uma pena de 25 anos de prisão, às acusações que contra ela impendem e que levaram o Ministério Público peruano a pedir uma condenação a 30 anos de prisão efetiva. E que coloca algumas condições para que Keiko possa merecer a confiança da maioria dos seus concidadãos, entre as quais uma declaração de respeito pelos Direitos Humanos que parece não estar nos hábitos da família. Mas, feitas as contas entre os dois, o escritor considerou que esta “pérola” do fujimorismo, aberração política que ele denodadamente combateu, merecia mais o voto dos peruanos do que o seu populista adversário: com este, diz Vargas Llosa, o Peru entraria na órbita dos países “comunistas”: Cuba e a Coreia do Norte, claro, mas também a Venezuela e a Nicarágua (talvez também o México de Obrador).
São conhecidas as posições políticas conservadoras de MVG, ainda que temperadas por um liberalismo de costumes que se manifesta em posições avançadas no plano de algumas causas fraturantes. Está no seu direito, claro que está, até porque a sua produção literária se mantém ao nível anterior ao do Prémio Nobel que lhe foi outorgado em 2010; como leitor, é isso que mais me interessa em MVG. Mas o que não pode deixar de ser intrigante é como o autor peruano não hesita em proclamar o seu apoio à representante de uma dinastia corrupta e despótica, que, entre 1990 e 2000, governou com mão de ferro a nação andina: a condenação de Alberto Fujimori a 25 anos de prisão teve como motivo os sistemáticos abusos dos Direitos Humanos, incluindo raptos, assassinatos e execuções extrajudiciais, orquestrados pelo sinistro Vladimiro Montesinos, cuja torpitude moral o próprio MVG denunciou em Cinco esquinas, romance de 2016. A filha de Fujimori, Keiko, era por muitos considerada a primeira-dama da presidência do seu pai.
Há em Mario Vargas Llosa uma impetuosidade que o leva a atirar-se de cabeça para a luta política. Não consegue estar quieto. Foi dos mais ativos apoiantes da Revolução cubana antes de se zangar com Fidel Castro, em 1971; um dos seus mais radicais opositores durante o resto da década; um estrénuo apoiante das políticas de Margaret Thatcher, nos anos 80; em 1990, foi candidato presidencial de uma ampla coligação de direita, mas perderia estrondosamente na segunda volta precisamente para Alberto Fujimori. E embora, desiludido, tenha decidido deixar o seu país, nunca deixou de intervir, dando o seu apoio a candidatos ora moderados ora progressistas, desde que não encostados à esquerda radical: em 2011 apelou ao voto em Ollanta Humala, contra Keiko Fujimori, precisamente.
Vargas Llosa é uma avis rara no panorama latino-americano: é um liberal à europeia, mesmo quando na Europa o liberalismo tende a desaparecer (Alemanha, França, Reino Unido). Mas, sendo liberal desta cepa, o seu alinhamento com Keiko Fujimori é ainda mais insólito: compreende-se que a candidatura de esquerdas lhe provoque um certo terror cósmico; mas daí até apoiar publicamente a herdeira e cúmplice de um passado de corrupção e terrorismo de Estado é incompreensível, mesmo para os seus mais devotados leitores, entre os quais me conto. Há, nestas coisas da intervenção cívica, um certo pudor, que é luto e silêncio, quando nos faltam as razões para fazer ouvir a nossa voz. Não compreendo as suas razões para gritar a plenos pulmões a sua nova devoção.
Pelos vistos, o apoio de MVG não terá sido suficiente para eleger Keiko Fujimori. No dia 6 de junho, Pedro Castillo ganhou por uma unha negra: umas dezenas de milhares em 19 milhões de votos expressos. Mas a verdade é que o escritor não se livrará de que o seu nome passe a estar associado ao de Fujimori, que tanto execrou e agora tentou ajudar a regressar à primeira linha da política peruana. Ainda não sabemos as malfeitorias que Pedro Castillo poderá vir a fazer, uma vez confirmada a sua eleição. Mas conhecemos as que Keiko Fujimori fez, quando foi delfim do seu pai; e a tentativa de impugnar os resultados de centenas de mesas (Trump faz escola) foi um primeiro sinal dessa irreprimível tendência para a golpada. Com o país partido ao meio, Santiago não hesitaria: o Peru vai ser de novo lixado. Como Mario Vargas Llosa escreveu: “Não há solução”.