O segundo é o mais fácil de definir e, também, o mais “fácil”. Shadow Knights (com ilustrações de Jeffrey Smith) revisita a Segunda Guerra Mundial usando como foco protagonistas membros do SOE, o Special Operations Executive. Organização secreta fundada por Winston Churchill em 1940 o objectivo do SOE era infiltrar agentes que promovessem acções de guerrilha e de sabotagem “não-convencionais” na Europa ocupada. Não sendo reconhecida oficialmente pela Inglaterra, e não se gerindo pelos padrões “cavalheirescos” da guerra, os agentes do SOE podiam portanto esperar tratamento equivalente em caso de captura pela Gestapo. Ostracizada pelos militares e por agências de espionagem mais “sérias” o fascínio do SOE é precisamente na sua (breve) existência marginalizada ter reunido uma panóplia diversificada de agentes acidentais (patriotas noruegueses, professores primários ingleses, princesas pacifistas indianas), envolvidos em acções arriscadas, ridículas, cruciais, cruéis, ou tudo isso em simultâneo. Gary Kamiya segue três grupos de agentes e respectivas missões, contando com as ilustrações grandiloquentes de Smith para pontuar o texto. Ilustrações que são versões mais “produzidas” (versões “glossy”) das capas típicas dos pulps, ou, se quisermos usar um paralelo português, do trabalho de autores como Cândido Costa Pinto para a colecção Vampiro (Livros do Brasil).
Porque digo que o livro é “fácil”? Tem uma parte curiosa: mostrar como podem participar numa guerra pessoas de quem menos se esperaria em termos de belicismo. Mas o contexto (a luta contra o nazismo) é de facto muito fácil enquanto justificação. Mais interessante seria tentar explicar porque razão pessoas semelhantes participam em guerras bem menos óbvias, se é que se lhes pode chamar isso. O fascínio juvenil do autor pelo tema e personagens (seja genuíno, seja construído) dão ainda uma boa demão de orgulho “geek” que se dispensava.
Já Devil Dog: The amazing true story of the man who saved America, que confessa no subtítulo todo um programa, é muito superior, um livro inesperado que vale mesmo a pena descobrir. David Talbot foi fundador/editor da Salon, uma boa revista norte-americana online “liberal” (tradução: de esquerda) e neste livro traça o percurso singular de Smedley Darlington Butler (1881-1940), um General do Corpo de Fuzileiros (Marines) com um nome improvável, e um destino que o não foi menos.
Um dos soldados mais condecorados e populares dos EUA, Butler participou em inúmeras campanhas, desde a Guerra dos Boxers na China, até às trincheiras da Primeira Grande Guerra, passando pelos conflitos encapotados na chamada zona de influência norte-americana determinada pela doutrina Monroe (ou seja: o resto da América), como no Haiti, no Panamá ou em “Repúblicas das Bananas” (nomeadamente na Nicarágua). Mais tarde tornou-se responsável de segurança pública na sua cidade natal de Philadelphia, uma autoridade independente para combater a corrupção generalizada no tempo da Proibição. Uma espécie de justiceiro incorruptível, à imagem de Eliot Ness em Chicago.
Butler podia ter saído de tudo isto com cargos, posses e honrarias. Saiu desiludido. Nas suas campanhas militares percebeu que os EUA apoiavam sistematicamente ditadores e corruptos. Em Philadelphia deixaram-no em paz até ter tentado investigar as mais altas esferas; nessa altura despediram-no. O fascínio do EUA com o fascismo nos anos 1930 (sobretudo o de Mussolini) e o poder daquilo que mais tarde Eisenhower (outro ex-soldado) classificou como Complexo Militar-Industrial levou mesmo Butler a publicar em 1935 o livro War is a Racket, no qual faz denúncias que, dos interesses económicos sórdidos por detrás de qualquer guerra ao uso abusivo do patriotismo para cegar a população, podiam perfeitamente ser repetidos em muitas ocasiões, incluindo as Guerras do Golfo. Não admira que Talbot se tenha deixado cativar.
Smedly D. Butler viveu modestamente, e ao contrário de outros militares da sua geração, o seu nome não figura em edifícios ou bases militares. Foi, de facto, uma personagem diferente e fascinante, alguém que, vivia o dia a dia dos seus soldados e foi capaz de ver o mundo para além da sua missão. Percebeu muito, e quando teve oportunidade não se calou.
Recorrendo a fotografias e outro material época, Devil Dog conta ainda com curtas bandas desenhadas originais do grande autor “underground” Spain Rodriguez. Mas estas são apenas competentes e cumprem uma mera função ilustrativa secundária. Ou seja, David Talbot quis ter BD no seu livro, pena foi que não soubesse o que fazer com ela, ou não confiasse no seu potencial. Tal como no livro de Isabel Allende A Lei do Amor (com BDs de Miguelanxo Prado) o que está contido nas tiras de Rodriguez é repetido no texto, não há qualquer complementaridade. Ou seja, comprei este livro pela BD, apreciei-o apesar do uso que dela faz.
Globalmente a proposta de Pulp History é muto interessante (sem ser REVOLUCIONÁRIA!, como diz nas contracapas). Para ser sincero não sei se terá sucesso. Como reportagem/documentário é excelente por via do material de base e das personagens; enquanto Literatura é “Lite”, autores do New Yorker tentando emular a Time. Depois usa (sem ironia) o estilo sensacionalista dos tablóides para chamar a atenção para coisas sérias. Uma quimera (no sentido original da palavra) que tanto pode juntar diversos tipos de leitores, como afastar todos eles. A pontuação parece irónica mas não é, e não se pode deixar que o leitor pense que é. O risco é grande.
Mas lê-se muito bem, e aprendem-se coisas. Chega e sobra.