A Tóbis foi vendida a uma entidade de nome alemão e capital angolano, ao que se diz. Quem são e porque compraram a Tóbis, não sabemos. Considero que a venda de empresas com participação direta ou indireta de capitais públicos se deve pautar por especiais regras de publicidade, entre as quais sabermos quem as compra. No caso de uma empresa como a Tóbis, interessa saber outras coisas, respeitantes aos interesses públicos envolvidos na venda, como o futuro da produção de filmes de cinema em suporte de película e a conservação e salvaguarda da cinematografia contemporânea.
A anunciada morte laboratorial da película em solo português é uma decisão estratégica. Agora quem quiser usar este suporte para filmes terá de ir a Espanha ou a outro país onde ainda se pode revelar em película filmes de grande formato. A dificuldade não é só portuguesa, em muitos países estão a desaparecer os laboratórios onde este tipo de produção é possível. Qual é a questão? O suporte digital não é mais barato, mais manuseável? Será. Mas há um princípio de base associado que está sem resposta – o princípio da transmissão patrimonial. A conservação a longo prazo de suportes digitais não é possível e cada vez que se copia um conteúdo digital, no estado atual da tecnologia, perde-se qualidade. O que significa? Significa que, presumivelmente, os filmes em formato digital gravados hoje, daqui a cem anos não têm existência assegurada. A película ( que não está isenta de problemas de conservação) tem uma durabilidade comprovada muito superior à dos suportes digitais. Por isso, não se devia prescindir do recurso a este suporte patrimonial enquanto não há certezas sobre outros alternativos com igual ou maior segurança. Dir-se-à que se pode recorrer a laboratórios no estrangeiro. Pode. Mas se é verdade que vivemos num mundo globalizado, também é verdade que nenhum Estado externaliza prioridades estratégicas. O que se diz quando nada se diz sobre a desaparição em Portugal deste recurso é que ele não é estratégico (ou encontrou-se maneira de o salvaguardar e não sabemos?). É o mistério da política ausente, da política por omissão, do discurso não dito. Mas em política não há vazio, há só muitas maneiras de dizer e fazer as coisas, uma das quais é, precisamente, não dizendo ou não fazendo.
O problema da sobrevivência da memória do fim do século XX e do século XXI é um problema real – por prudência, não devemos confiar que as melhorias tecnológicas vão resolver em breve a transmissão patrimonial de registos para as gerações futuras. O otimismo tecnológico é apanágio dos novos credos (a ocupação automatizada do espaço anteriormente pertença do Deus que salva).
Há muitas coisas a decidir inerentes aos registo digitais, mesmo se e quando estiverem resolvidas as questões de conservação para períodos longos, como a desmagnetização e o apagar de dados por terrorismo ou guerra digital. Queimar pergaminhos ou livros, desfazer pinturas, retalhar jornais e destruir películas eram atividades possíveis e que como sabemos, muitas vezes se concretizaram. Mas a operação inerente à destruição destes suportes era mais difícil do que aquela que respeita à destruição (no atual estado da arte) dos registos digitais. Por isso, recomenda a cautela a existência de sistemas redundantes de salvaguarda de registos: em formato digital e em formato em suporte analógico.