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A minha ignorância é enorme quanto a este assunto – o de traduzir culturas antes consideradas bárbaras, e sobretudo o de antologizar a diversidade cultural do que não é ocidental, se bem que ache cada vez menos pertinente falar de um Cânone Ocidental, isto é, de uma tradição que foi sobretudo formatada por uma revisão criativa dos textos gregos, romanos e hebraicos, porque não se tinha mais nada à mão de semear – é claro que estou a simplificar, porque as tradições locais, ditas orais, que o século XIX tratou de nacionalizar, foram enriquecendo esse canone e ressuscitando linguas mortas ao mesmo tempo que matavam candidamente linguas vivas. No século XX e XXI a “telefonia” e a televisão uniformizaram e assassinaram tudo o que era variedade dialectal através de uma burocratização e mediocratização dos discursos. As normas da escrita, com ou sem acordos, facilitam a comunicação, mas são sempre formalizações repressivas. Os programas de ensino obrigatório, quer no básico, quer no secundário, são aberrações persistentes e continuadas. A autora do Harry Poter, que não escreve nada bem, desenvolveu mais a literacia no mundo do que qualquer programa de ensino. Donde deviamos concluir que precisamos de mais ficção, e excitantes “mitos”.
É certo que Tácito, com a sua Germânia, e Julio Cesár, ao escrever sobre as Gaulias, deram um impulso à curiosidade étnica, do invasor pelo indigena. Os hebreus helenizados traduziram os seus livros, hoje ditos bíblicos, atempadamente, na dita “Bíblia dos setenta”. Os romanos traduziram os gregos, embora sem obras primas da tradução, e mais tarde os textos do antigo testamento. Os àrabes traduziram os gregos e os romanos de uma forma mais sistemática. A escola de Toledo, do rei Alfonso X, introduziu o filão tradutor àrabe no tal canone ocidente. Etc. É com a expansão “ibérica”, os tais descobrimentos, que se começa a coleccionar factos sobre povos distantes, e são os letrados religiosos, sobretudo Jesuítas e Domicanos, que a medo vão descobrindo culturas onde ressaltam assombrosas parecenças com as suas teologias e relutantes diferenças. Há casos extraordinários, como a do Popol Vuh no final do século XVI, transcrito e traduzido pelo padre dominicano espanhol Francisco Ximenes, a partir do idioma “quiche”. O gosto por um Oriente fabuloso, dentro da tradição de Marco Polo, leva Antoine Galland a traduzir as Mil e Uma Noites e a publicalas a partir de 1704. Bela infidelidade? Pois venham elas. O final do século XVIII segue nessa senda orientalizante, com a mania das coisas turcas, persas e chinesas. Goethe escreve um “Divã”, Schopenhauer apropria-se do pensamento hindú e budista para as suas obcessivas convicções. Outra bela infidelidade, a versão dos Rubaiat de Omar Khayam é dada discretamente à estampa por Edward Fitzgerald em 1859. É um dos maiores motores de reforma da poesia inglesa, depois da chinoiserie romântica de Coledrige (o famoso poema sobre Khublai Khan). As máquinas coloniais, sobretudo inglesa e francesa, começam a produzir relatórios “etnológicos” sobre os “selvagens”, com a consequente recolha de dados sobre as linguas e hábitos, e, mais ocasionalmente, sobre as suas “literaturas”. Entre 1879 e 1910 publicam-se antológicamente os “Sacred Books of the East”, os livros mais significativos da religião e filosofia oriental, traduções, que apesar das inevitáveis críticas ainda se conseguem ler com proveito. A decifração dos hieroglifos por Champollion no ínicio do século XIX, assim como os progressos na assiriologia e no conhecimento das linguas semíticas antigas tem vindo a revelar um corpus de textos extraordinário que antecederam e influenciaram quer as epopeias gregas quer a biblioteca dos hebreus.
Trata-se de material menos flutuante, o traduzir do escrito. Mas havia outras tradições que começam a emergir associadas às artes, a outro tipo de “exotismo”. Gauguin e Stevenson dão o mote. Paisagens inóspitas, ilhas, piratas, os romances de Conrad, Julio Verne, etc., fazem parte de uma fome que desponta sobretudo nas artes, com um fenómeno a que mais tarde se chamou primitivismo. A primeira antologia significativa de literatura “primitivista” é a Antologia Negra do poeta Blaise Cendrars, em 1921. Mas outro poeta, Tristan Tzara, já preparara uma curiosissíma antologia de poemas do mundo inteiro, “Poémes Negres”, que só viria muitíssimo mais tarde, nos anos 70, a ser publicada nas obras completas deste dadaísta. Para além das dúvidas, infidelidades, esta é uma antologia privadíssima de alguém que continuamente se interessou pelo que mais tarde viria a ser chamado etnopoéticas. Com o “modernismo” triunfante nos anos 20 e 30, os desenvolvimentos da antropologia, a militância dos surrealistas, e os nacionalismos anti-europeus começam a circular multiplas recolhas, embora circunscritas a cada zona.
Há uma antologia exemplar, de 1958, feita por Roger Callois e Jean-Clarence Lambert na colecção Gallimard/Unesco, o “Trésor de la poésie universelle”, que é seminal na vastidão e que abre a fome para muito mais. Foi nessa antologia que beberam nocturnamente (e amplamente) Herberto Hélder e Jeróme Rothenberg.
Rothenberg publica em 1967 o seu “Technicians of the Sacred”, uma antologia-manifesto de “poemas do mundo”. É um poeta casado com uma antropóloga e experimentado sobretudo no dominio norte americano. Ele próprio fez trabalho de campo com os índios Seneca. Editará com Dennis Tedlock a revista Alcheringa, uma revista de combate e divulgação da “etnopoesia”.
Herberto, em 1968, com o seu Bebedor Nocturno, inscreve as suas traduções num domínio mais autobiográfico. Quer Rothenberg quer Herberto pessoalizam e “traiem” voluntáriamente em busca de uma maior intensidade. Há uma vertigem rítmica na tradução e há uma pseudo-oralidade em ambos que é embriagante Digo pseudo-oralidade porque a literacia/oralidade é uma questão complexa, como é demonstrado nos livros do antropólogo Jack Goody. No caso de Rothenberg a poesia será sobretudo performativa e pública (mas não só). Em Herberto a recitação é interior, mas feita com e para o corpo. Por outro lado é o Ocidente que se reinventa e se inscreve neste domínio, ao mesmo tempo que são autores deste tipo que transmitem a nós, leitores também sumptuosos, um estranho filão e uma poética forte, nada desencantada, pesem embora os lamentos constantes.
A antologia crucial da Assírio & Alvim, a Rosa do Mundo, resultou em parte desta lógica. Foi o testamento editorial do Hermínio Monteiro, mas também é um exemplo desassombrado de que há uma forte pulsão tradutora.
Convém, no entanto, referir o golpe genial do Herberto Helder no livro Ouolof ao incorporar dois poemas que borbulham em português e que o questionam de fora. O primeiro é do poema da criação da lua, dos Índios Caxinauás, da Amazónia, entre o Brasil e o Perú. Herberto diz que se limita a ritmar o material editado em 1914 (acrescento eu) por João Capistrano de Abreu num livro de mais de 600 páginas, belíssimo, chamado “rã-txa hu-ni-ku-i, a lingua dos caxinauás, do rio ibuaçu, afluente do muru”. Herberto seguiu a pista do “Trésor de la poésie universelle”, e teve a sorte do Arnaldo Saraiva lhe ter encontrado o livro com a versão original de que um francês apenas traduzira o resumo. Ritmar é uma forma de clarificar o texto, de o intensificar e de lhe mostrar o funcionamento. A recolha de Capistrano tem este mérito, que eu não sei se era ou é usual, de transcrever a lingua em estado de tradução, numa interacção fecunda com o informador da lingua quanto à metodologia de tradução. Dou um exemplo do prefácio de Capistrano: “a vocábulos avulsos peferiria frases, mas não manifestei tal desejo, não lhe dei uma só a traduzir; do próprio indio partiu a ideia. (…) a frase saía-lhe do cérebro como uma espécie de linotipo.” Um caso muito semelhante ao do Herberto deparou-se-me perante o texto da Bíblia de Ferrara de 1553 (em ladino, ou “judeu-espanhol” algo aportuguesado), que, pesem as objecções quanto à sintaxe hebraísante, depois de ritmada se torna cristalina, mas isto é assunto para outro dia.
Além desta “tradução” com cirurgia rítmica, Herberto vai mais longe, apropriando-se de um poema de um seu contemporâneo, na altura ainda vivo, escrito num português híbrido e fecundo, por um poeta italiano que viveu no Brasil um par de anos, por volta de 1950. Lido assim, à socapa, parece algo demasiado estranho e ingénuo. Trata-se de Emilio Villa, um poeta que escreveu muito sobre arte contemporânea, tradutor da Bíblia, da Odisseia, do Enuma Elish, escrevendo em várias linguas, criando um idioma híbrido e nele escrevendo, em polémica contra o italiano oficial. Em Villa há muitas parecenças com o Herberto, e a edição por Herberto deste poema de Villa em 1964, provávelmente via António Aragão, que conheceu Villa, deixa de ser uma mera edição para em 1997 se assemelhar (os se assumir) como uma “espécie” de autoria. Os modos de apropriação de autorias têm a sua história canónica nos ready-mades de Duchamp e no conto de Borges, “Pierre Menard, autor de Quixote”. Desde o ínicio dos anos 80 que este uso é reivindicado nas artes visuais pela clique dos post-modernistas marxizantes americanos, de um modo estafado e enjoativo. Esta apropriação criteriosa por Herberto Hélder é muito diferente. Não questiona a autoria “em si” nem é “simulacionista” nem nada parecido. No entanto reforça a autoria como auto-questionamento e como vontade autoral de canibalizar, quer os Caxinauás, quer Emilio Villa, dois casos raros que nos mostram a lingua dita portuguesa como algo mais efevrescente, revelando que o modo como a usamos é um ready-made estático entre derivas de outras linguas que se vão devorando umas às outras, e que a linguagem em acção de Herberto, ou a nossa, é apenas uma “espécie de português” que está ser contaminado por relatores Caxinauás que deram a entender a sua lingua há quase 100 anos, ou por um poeta refinado que escreve em intenso estado babélico. A nossa indispensável autoria, nascida de uma fecunda consciência autobiográfica (diria o António Damásio), constrói-se com estes fluxos alheios, seja com linguagens partilhadas por comunidades das quais pouco sabemos, seja através da resistência à tecno-linguagem mediática e nacionalista (que é um instrumento técnico da nossa expropriação burocrática e fiscal). E constroi-se sobretudo como poética.
Ufff! Perdoem-me o pacote de referências e os parágrafos sufocantes. Tratava-se aqui de mostrar um dos filões que me põe a cabeça a andar à roda. Deveria ter sido um texto mais calmo, mais esmiuçado e directo.
P.S.
Li o livro-catálogo Bicos (2010), do Eduardo Batarda, 190 páginas de imagem e escrita, que abordam a arte de uma forma romanesca e complexa, numa escrita densíssima e arrepiante. Um livro experimental, e uma das melhores novelas publicada por cá nos últimos anos. Escandaliza-me a desatenção seja da crítica de arte seja da crítica literária entretidas a tricotar banalidades. Não admira que os criadores caiam cada vez mais no desanimo ou se tornem paranoicos. O silêncio e a ignorância têm sido uma das formas mais banalizadas de assassinar artistas neste país. Um pouco mais de esforço e curiosidade, por favor!
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