<#comment comment=”[if gte mso 9]> Normal 0 false false false MicrosoftInternetExplorer4 – Hoje em dia quem tiver um nome árabe vê-se aflito para viajar pelo Ocidente – disse o marido de Mariska dias depois de ter aterrado em Lisboa e sentado à mesa do restaurante onde nos encontrávamos para festejar o aniversário de casamento deles.
– Mesmo com passaporte americano? – perguntei, deveras surpreendida com aquela declaração e uma vez que ele era cidadão dos Estados Unidos da América.
– Às vezes isso só serve para levantar mais suspeitas! Começo a ficar arrependido de não ter adoptado o apelido da Mariska – disse ele meio a brincar meio a sério e depois começou a falar das dificuldades que o próprio Barack Hussein Obama tinha tido para ultrapassar o preconceito do seu nome islâmico, dando ênfase sobretudo ao middle name do presidente americano.
– Mas você não é muçulmano – disse eu, baralhada com a comparação, pois pelo que sabia ele era judeu e o seu sobrenome, embora árabe, de islâmico nada tinha.
– Mas nasci num país árabe e o meu nome soa a muçulmano, o que provoca logo desassossego nos aeroportos e onde quer que seja – disse ele, enquanto Mariska lhe fazia sinal para voltar a encher as taças de champanhe.
– Eu antes pensava que os árabes eram todos muçulmanos… – disse eu.
– O que não falta é cristãos e judeus que nasceram em países árabes, como eu, por exemplo – respondeu Tarek Abdul Aziz, procedendo ao enchimento das taças.
– Silêncio! – pediu Mariska depois de tilintar duas ou três vezes com a faca na taça de champanhe com receio, conforme disse depois à minha mãe, que tanta análise de nomes e origens ainda acabasse por levar à descoberta das raízes húngaras da sua família, coisa de que ela fazia grande segredo, nunca percebi porquê. O marido levantou-se e todos os convidados – eu, Másha, a minha mãe e o embaixador da Ucrânia – lhe seguiram o exemplo. Depois, a própria Mariska, com aquele seu porte naturalmente aristocrático, também se levantou.
– Vamos brindar! – disse ela, erguendo a taça. – À paz no mundo, à paz nos nossos corações e ao amor verdadeiro!
Fizemos todos tchim-tchim e começámos a beber.
– Do dna! – disse ela, o que significa literalmente “até ao fundo!” e consiste num costume ucraniano de ingerir bebidas alcoólicas de uma vez seguida, até ao fim do copo.
Tarek Abdul Aziz parecia familiarizado com aquela tradição e em menos de nada esvaziou a sua taça, embora tenha dito:
– Esta rapidez é mais adequada à vodka, que de tão intragável até suplica que a despachemos de um só trago, sem cerimónias.
– Mas olhe que não há nada melhor no mundo do que uma boa vodka russa! – declarou o embaixador.
– Eu dispenso, mas talvez tenha razão, a russa ainda é a que mais se aproveita… – disse Tarek Abdul Aziz.
– Tanto diz que dispensa como depois já diz que se aproveita… – cochichou a minha mãe em ucraniano, para minha surpresa, pois geralmente era russo que falávamos. Mas logo o embaixador roçou com a ponta dos dedos no braço dela, premiando-a com um sorriso de satisfação que não deixava dúvidas. A táctica dela estava a resultar. O embaixador era um nacionalista ferrenho e recusava-se terminantemente a falar russo, embora dominasse essa língua melhor do que muitos russos que eu conhecia. Por isso não era de admirar que tivesse ficado deleitado com o esforço da minha mãe.
– Po–angliskiy, po–angliskiy! – disse Tarek Abdul Aziz, virando-se para a minha mãe, o que significava “em inglês, em inglês!”.
– Mil perdões, mil perdões! – disse o embaixador, levando a mão ao peito e explicando que estavam precisamente a comentar como ele conhecia bem a cultura eslava, e a partir dali não se voltou a falar noutro idioma que não fosse inglês até ao fim do jantar.
– Sabe, é que gosto realmente de conhecer os hábitos dos outros povos… – disse o marido de Mariska. – Os meus pais também eram assim. Antes da guerra, o Líbano era um dos países mais cosmopolitas do mundo e eu sempre fui educado no respeito pela cultura dos outros. Depois tive a sorte de ter crescido na cidade mais universal dos Estados Unidos, e isso, é claro, também deixou as suas marcas.
– Mas como é que os seus pais conseguiram conservar essa visão tão optimista do mundo? – perguntei. – Afinal, foram obrigados a fugir do Líbano para não serem mortos, não é verdade? – Não é bem assim – disse ele. – O Líbano sempre foi o país mais tolerante do Médio Oriente, com muitos cristãos e um número significativo de judeus. Os judeus sempre prosperaram no país dos cedros. Mas o meu pai, que era um homem avisado, com grande sentido premonitório, é que resolveu sair do país ainda muito antes das confiscações. Ou seja, a minha família não trouxe para a emigração as recordações atrozes de outras famílias judias oriundas de países árabes; muitos tiveram de fugir só com a roupa que tinham em cima do corpo, mas felizmente nós não. Talvez por isso eu tenha crescido a ouvir bonitas histórias da pátria dos meus pais e sem o ódio visceral que alguns amigos meus têm em relação aos árabes – disse Tarek Abdul Aziz, puxando por um charuto cubano completamente antidemocrático e logo explicando que em qualquer aeroporto do mundo assim que se desenvencilhava da Immigration a primeira coisa que fazia era ir ao free shop comprar uns mulatinhos da ilha da liberdade, dado que nos Estados Unidos só se encontravam na candonga.
– Prefiro mil vezes a cultura latino-americana à árabe – disse o embaixador, apoderando-se da caixa de charutos e refastelando-se na cadeira.
– Terão ambas as suas virtudes, com certeza – disse Tarek Abdul Aziz.
– Na verdade, acho inverosímil que aprecie de facto a cultura árabe – disse o embaixador.
– Para ser sincero, conheço pouco, praticamente nem falo a língua, pois em minha casa sempre se falou francês ou hebraico, mas tenho pena – disse Tarek Abdul Aziz.
– Mas fala árabe ? – perguntei.
– Não fala, dá uns toques – disse Mariska -, o árabe e o hebraico são línguas da mesma família, tipo português, espanhol, percebes?
– Mas o vosso casamento foi civil ou religioso? – atirou a minha mãe.
– Religioso, é claro! – disse Tarek Abdul Aziz.
– Que contentes que haviam de ficar os pais da Mariska se tivessem vivido até ao dia do casamento dela… – disse a minha mãe e depois, virando-se exclusivamente para a amiga, perguntou:
– Lembras-te do que eles sofriam com o anti-semitismo, lá na Ucrânia?
– Anti-semitismo na Ucrânia? – cortou o embaixador. – Por amor de Deus!, sempre fomos um povo tolerante com todos os credos religiosos!
Não sabia de que Ucrânia estaria ele a falar, mas eu própria me lembrava dos insultos que os judeus sofriam em Lviv. Tantas vezes ouvira a minha mãe dizer à minha avó: “Qualquer dia o velho Abraamovich ainda se mata…”, referindo-se ao pai de Mariska. Isto porque andavam constantemente a escrevinhar indecências anti-semíticas à porta dele e o velhote, com a idade,
começara a sofrer desmesuradamente com aquelas provocações. Mesmo assim não se suicidou, morreu do coração, três dias depois de a esposa ter falecido após doença prolongada.
Ainda me lembro da impressão que me causara a morte dele. “Morreu de amor…”, dizia a minha mãe. Nessa altura eu nem sonhava que era possível morrer de desgosto, mas agora percebia que não era preciso muito para morrer de tristeza.
Estava eu nestes pensamentos quando de repente a minha mãe se levantou da mesa e, erguendo de novo o copo, puxou pela sua poderosíssima voz e disse:
– Mazal Tov! – o que significa parabéns em língua hebraica e é uma expressão que tantas vezes ouvimos nos filmes americanos.
Logo a seguir todos nós nos levantámos e brindámos com ela à saúde de Mariska e do marido.
– Mazal Tov! – dissemos todos em uníssono, batendo com os copos uns nos outros.
Mariska pediu então à minha mãe que cantasse um romance russo, que é um género de canção tradicional semelhante ao fado. Mas em vez disso, e para espanto geral, a minha mãe pôs-se a cantarolar modinhas da Ucrânia, deixando completamente deliciado o embaixador e os empregados do restaurante, que apesar da pele escurecida pelo sol e da aparência aportuguesada, acabaram por se revelar ucranianos.
Cheguei a casa por volta das duas da manhã. Tinha um envelope rosado na caixa do correio, com a imagem de um miosótis no lugar dos selos. Quem é que mo teria ali deixado? Só podia ser de Libério – pensei. Mas estava enganada. Era do presidente do conselho de administração da Telecomunicadora. Tinha os negativos da fatídica fotografia lá dentro e um postal que dizia o seguinte: “Saalam! A sua telenovela está a chegar! Ligue ao Zé Luís e veja se gosta do papel que lhe foi reservado.” Depois escrevia o contacto telefónico do tal Zé Luís e assinava apenas com as iniciais do seu nome – JP.
Mas porquê Saalam? E porque teria ele deixado aquele envelope na minha caixa de correio?
Na manhã seguinte, telefonei-lhe. A secretária, que estava ocupado, que deixasse recado. Dois minutos depois, se tanto, estava ele a retribuir a minha chamada.
– Está muito longe do Picoas? – perguntou.
– Nem por isso – disse eu ainda em Belém, mas por achar que em Lisboa tudo era perto.
– Então, porque não passa aqui? – disse ele, deixando-me com a impressão de que não era pessoa de grandes conversas telefónicas, o que até parecia cómico, dado que era quase como se fosse dono da empresa dos telefones.
Uma hora depois lá estava eu em frente da secretária dele.
– O senhor engenheiro já a recebe – disse ela, antes de lhe comunicar que eu tinha chegado e depois acompanhou-me ao gabinete dele.
– Aleikom Saalam! – exclamei eu, estendendo-lhe a mão.
– Estou a ver que compreendeu o significado da minha saudação – disse ele.
– Alguma coisa relacionada com o meu papel?
– Ainda não falou com o Zé Luís, está visto – concluiu.
– Queria primeiro agradecer-lhe por não se ter esquecido – disse eu.
– Espero que não me tenha levado a mal, por lhe ter assaltado a caixa do correio, mas como tinha aqui a sua morada e conheço bem aquela zona, olhe, resolvi fazer-lhe esta surpresa. De vez em quando, principalmente quando quero impressionar algum estrangeiro, vou a um restaurante de comida típica portuguesa que há lá na sua rua – disse ele, sentando-se ao meu lado, como já era tradição.
– E que papel é esse que me arranjou, diga lá? – perguntei.
– O Zé Luís é que está por dentro dos pormenores, mas pelo que sei é um dos papéis principais… Penso que é o de uma rapariga que faz dança do ventre num clube nocturno do Porto para arranjar dinheiro para pagar a faculdade (parece que está em Medicina) e depois apaixona-se, não me lembro bem por quem, mas por alguém que lhe vai dar uma carga de trabalhos.
Bem, já tenho alguma coisa em comum com a personagem, disse para com os meus botões. A seguir ele pediu à secretária que trouxesse cafés e eu aproveitei para tirar o saquinho de cardamomo que o marido de Mariska me tinha oferecido na noite anterior e que ainda estava dentro da minha mala.
– Olhe, tenho aqui uma coisa óptima para aromatizar o café. Quer arriscar? – disse eu, desfazendo o lacinho de seda que apertava a boca do saco.
– Desde que não me envenene… – gracejou, passando-me a xícara para as mãos.
– Hummm, que maravilha! – disse ele, cheirando os grãozinhos moídos.
– Sabe o que é? – perguntei.
– Digamos que depois do açafrão e da baunilha não há especiaria nenhuma tão cara no mundo como esta – disse ele, mas enigmas não eram comigo.
– É cardamomo – especifiquei.
– Exactamente! – respondeu vitorioso. – Só não sabia que os Ucranianos também usavam isto no café… – comentou.
– Não usamos, foi o marido de uma amiga minha, que é árabe, que me ofereceu – disse eu, e logo me arrependi. Primeiro porque Abdul Aziz não era propriamente árabe e depois porque podia parecer deselegante da minha parte andar a distribuir os presentes que me davam.
Mas logo ele começou a contar-me histórias relacionadas com a sua primeira viagem ao Egipto, onde ainda muito jovem tinha provado pela primeira vez o café com cardamomo, bem como infusões fortes de hortelã, e outras aventuras que tinha tido nessas férias com os pais pelo Norte de África, e eu fui obrigada a descontrair-me e a rir-me uma data de vezes, antes de deixar o seu gabinete.
Despedi-me dele com uma estranha sensação de paz interior, com uma espécie de certeza intuitiva de que acontecesse o que acontecesse eu não seria vencida pelos reveses da sorte e que as adversidades do presente serviriam apenas para me tornar uma pessoa mais forte. Será que o cardamomo me tinha toldado o juízo?