O maior romancista timorense está de volta com Hotel Timor, um livro cuja ação decorre num edifício real, mas que é também uma metáfora daquilo que o país foi e quer ser. Luís Cardoso, vencedor do Prémio Oceanos em 2021, recorreu a esta obra para fazer as pazes com a morte do irmão, fuzilado no contexto da resistência timorense, criando na história um jogo de espelhos em que frequentemente se confronta e é confrontado. Depois de várias obras em que contou histórias sobre o passado de Timor e as lutas durante a ocupação indonésia, o escritor confessa que, daqui para a frente, quer fazer rir com a sua escrita, revelando fascínio pela figura de Xanana Gusmão.
Escreveu na rede social Facebook que Hotel Timor foi o livro que quis escrever “para completar a circum-navegação de dor e esperança”. Em que sentido?
Este é o meu oitavo livro. No meu primeiro, Crónica de uma Travessia, comecei por contar uma história sobre Timor. Na altura, era representante da resistência [timorense] em Portugal e queria pôr em prática uma coisa que vinha desde a infância, que era a vontade de escrever. Esse livro narra a história de um timorense que está dentro de Timor e dentro da sua História. Depois acharam que o livro era bom e que poderia ser um escritor timorense, isto na medida em que os outros países de língua portuguesa têm grandes escritores e Timor não tinha nenhum romancista, embora tenha muitos e grandes poetas. A partir daí, comecei a escrever romances.
Até aí nunca se tinha imaginado como romancista, como um escritor em pleno?
[Imaginava-me como] contador de histórias. Quando estava cá, ia às escolas contar histórias a crianças e adorava. Os professores pediam-me. Achei que podia passar essas histórias para a escrita. Depois, a crítica literária foi muito boa, excecional, o livro [Crónica de uma Travessia] foi traduzido para várias línguas, e acharam que poderia ser o romancista que faltava. Não havia timorenses que tivessem escrito [romances] antes e foi um campo absolutamente novo para mim. Não tinha referências. Havia muitos escritores de língua portuguesa e, a partir daí, comecei a construir o meu imaginário. Depois surgiram mais livros e, com o sétimo, O Plantador de Abóboras, ganhei o Prémio Oceanos [em 2021]. Mas achava que faltava alguma coisa porque, em todos os livros que trazemos cá para fora, tudo aquilo está dentro de nós. Todos os livros são autobiográficos.
No seu caso, também são. Mas com Hotel Timor o que queria contar?
Havia uma coisa que nunca tinha conseguido pôr cá fora, um caso pessoal, acerca do meu irmão, que foi morto durante o período de luta entre partidos [guerra civil]. Ele foi fuzilado por ser a favor da integração de Timor na Indonésia. Ele já defendia isso antes de existirem partidos políticos, antes do 25 de Abril. Foi uma coerência da parte dele optar pelo partido que defendia a integração. Como a FRETILIN ganhou a guerra civil, expulsando a UDT para o outro lado da fronteira, os que ainda estavam em Timor foram apanhados e presos, ainda que não tivessem participado na guerra. Alguns foram fuzilados, como o meu irmão. É uma dor pessoal que nunca tinha contado a ninguém.
Porquê?
Era uma coisa tão privada… Eu lutava pela independência de Timor, ao contrário do meu irmão. Era uma dor muito minha. Nunca exteriorizei, mas achava que um dia devia fazer isso. Depois, aconteceu a minha ida a Timor [em 2023], em que fui condecorado pelo Presidente da República, Ramos-Horta. Achei então que devia contar, no novo livro, uma história desta minha passagem por Timor. Criei um duplo para poder falar, e que acompanha o escritor até Timor. Naturalmente, ele encontra-se com o irmão e ressuscita-o, para depois o enterrar. Foi uma forma de fazer o enterro do meu irmão, era como um fantasma que pairava sempre na minha cabeça. Era o meu irmão querido, e foi uma forma de eu o enterrar em Timor.
Como eram as conversas políticas com o seu irmão?
Na altura não pensava em nada, era um menino. Ele já tinha mais algumas ideias sobre a integração e achava que Timor, embora fosse colónia portuguesa, estava muito distante de Portugal e fazia parte de uma unidade com a Indonésia. Ele achava que havia essa pertença e que, tal como no caso da Índia, que recuperou Goa, Damão e Diu, também Timor deveria voltar para o seu continente, que era esse o seu espaço político. Eu não sabia nada de política, mas o meu irmão trouxe para casa livros do José Cardoso Pires e o Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon. Ele contactava com os oficiais portugueses que tinham uma participação política muito grande aqui em Portugal e que lhe emprestaram esses livros. Foi alguém que participou na minha formação literária. Devia ao meu irmão parte daquilo que sou hoje como escritor.
Como acontece nos outros países que têm muito petróleo, em Timor há uma elite que se apropria dessas riquezas e que enriquece. A outra parte do país vive em extrema pobreza
No início do livro, pensa-se que o Luís é o escritor que já está na suíte presidencial do Hotel Timor, mas afinal é o narrador, a pessoa que regressa ao país décadas depois.
É um diálogo permanente entre o narrador e a figura que já está na suíte.
O narrador revela sempre uma certa amargura. É o seu processo a lidar com todas essas memórias e com a dor?
É isso mesmo. Tive de criar esse duplo para narrar tudo isso. O escritor tinha uma formação política, sempre lutou pela independência de Timor, sacrificou-se pela independência. Tinha de criar alguém para falar dessa dor escondida do escritor.
Mas o narrador também vai à procura de uma mulher, um antigo amor com quem se cruzou em Portugal aquando da descolonização, a Maliana. Podemos dizer que Hotel Timor é também uma história de amor?
É, sim, senhora. De encontros e desencontros. O escritor tem uma vida ligada a outra pessoa, pois um dia namorou com uma moça timorense que depois regressou ao país e foi morta a 7 de dezembro de 1975.
Data da invasão da Indonésia.
Sim. Ele está sempre à procura daquilo que sobra desta pessoa. Obviamente que isso se passa num tempo de sonhos, porque, na realidade, ela morreu. É uma heroína em Timor.
Maliana é uma mulher que viveu mesmo, uma história real.
É uma história real. Ele vai à procura dessa pessoa que não pode aparecer, mas que depois lhe aparece em sonhos. Então o livro tem tudo a ver com isso, com o amor e os grandes amores. Aliás, no livro há uma frase em que ele diz: “Todo o amor é um amor perdido.”
O Hotel Timor também existe mesmo, em Díli. Mas, no caso do livro, funciona como uma grande metáfora da transformação do país, de tudo aquilo que aconteceu e que ainda está por vir.
É uma leitura muito correta. Com o Hotel Timor falamos também do país, porque antes era um hotel indonésio que se chamava Hotel Mahkota. Aquando do referendo, foi nesse hotel que as Nações Unidas anunciaram o resultado final. Quando se soube do sentido de voto dos timorenses, as milícias indonésias queimaram o hotel, mas depois tiveram de o reconstruir e deram-lhe o nome de Hotel Timor. No fim de contas, esse hotel acompanhou todo o processo de construção do país. O Hotel Timor era o lugar que acolhia as pessoas que visitavam Timor e por onde passaram muitos dos convidados. Mas é também um lugar ligado aos timorenses, que dizem ser um sítio de fantasmas.
Esse mundo das superstições existe muito em Timor?
Absolutamente. Podemos encontrar fantasmas pelo caminho. E muitos ocidentais dizem ter encontrado fantasmas em vários locais e até na cidade de Díli. Não é uma questão apenas de superstição dos timorenses.
Voltando ao livro. Na página 50, lê-se: “O hotel abrigava toda a gente, era um terreno neutro, pacificado. Era bom que o país fosse como o hotel.” O que falta ao país para ser como o Hotel Timor?
Tem a ver com o hotel e as pessoas, sobretudo as convidadas. O Tiago Barata [diretor do hotel], o doutor Tiago [personagem do livro], conseguiu tornar o hotel um lugar onde todas as pessoas podiam conversar, independentemente das opções políticas. Todos os que depois vão para as redes sociais insultarem-se ali falavam entre si e tudo estava pacificado, despindo as suas fardas partidárias, ao contrário do que acontece lá fora. As questões que permanecem do tempo da resistência são levadas pelas pessoas como se fossem um campo de batalha ideológico, mas depois chegam ao hotel e despem essas fardas. Ora, eu gostava que o país fosse assim. Não existe unidade e ela só existiu enquanto houve uma potência estrangeira a invadir o nosso país. Depois, as pessoas são livres de ter opiniões e essa unidade não existe mais, a não ser sobre decisões que envolvem a soberania. Cada um é um ator isolado, e os líderes, cada um faz as coisas à sua maneira. Em questões que dizem respeito ao país, à soberania, deveria haver uma unidade. Também é bom que seja assim, porque cada pessoa traz uma coisa diferente para o país. Estamos numa democracia.
O país é bastante jovem. É saudável que haja esse pluralismo.
Sim, até certo ponto. Quando falamos daquilo que queremos para o país, cada um deve dar a sua opinião. Mas nas questões que dizem respeito à soberania do território, no caso das negociações sobre o petróleo, com a Austrália, ou da delimitação das fronteiras com a Indonésia, são questões que dizem respeito aos cidadãos e partidos. Aí deveria haver uma unidade. Sobre a questão da adesão à ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático], fizemos a nossa opção e aceitaram-nos como membro, mas deve-se explicar muito bem às pessoas o que é a ASEAN.
O que representa.
Sim, e também o bem que pode trazer-nos e aquilo que poderemos perder com a entrada na ASEAN.
Para si, o que é que Timor tem a ganhar com essa adesão?
É muito bom que isso aconteça porque é um mercado enorme. Fazendo parte da ASEAN, onde está a Indonésia, podemos ter mais parceiros. Mas isso não foi bem explicado aos timorenses. Aquilo não é a árvore das patacas, onde vamos buscar o dinheiro, também há contrapartidas. O que vamos perder com isso? Os timorenses têm de saber quais as dificuldades por que vão passar nos próximos tempos.
Na sua opinião, o que é que Timor pode perder?
A questão da soberania. Timor é um país com 24 anos. Não tem estruturas, não tem competitividade, há falta de quadros e bons gestores. Se vamos entrar num mercado onde são necessárias empresas timorenses que possam competir, estaremos sempre desfavorecidos em relação aos países da ASEAN, porque não nos preparámos para a adesão. Muitos comparam a nossa situação com a de Portugal quando entrou na CEE. Mas Portugal já era um país com bons quadros. Tinha empresas sólidas para competir com outras. Em Timor não temos nada. É isso que vamos começar a construir agora, mas como vamos fazer? Não estamos preparados a nível governamental, porque falta ao governo competência em termos de gestão.
Em que sentido?
Temos muito dinheiro, mas foi todo desperdiçado em coisas que, em termos concretos, não sabemos. Dou um exemplo: fizemos estradas magníficas. Timor tem uma rede de estradas muito boa. Mas a questão fundamental é que existe uma pobreza extrema. Há uma desigualdade social tremenda entre os que enriqueceram e os que ficaram cada vez mais pobres.
Esse enriquecimento deu-se à custa do quê?
Foi à custa da política. São pessoas que cresceram em torno disso. Como acontece nos outros países que têm muito petróleo, há uma elite que se apropria dessas riquezas e que enriquece. A outra parte do país vive em extrema pobreza.
Então fala de um panorama com suspeitas de corrupção.
Há suspeitas de uma corrupção tremenda. E, neste momento, então, com a entrada de máfias estrangeiras em Timor… É um sistema que está todo corrompido por dentro. É por isso que dificilmente iremos preparar-nos para essa competitividade com os países da Ásia. É algo que me causa uma absoluta tristeza e uma apreensão sobre os próximos tempos, porque dinheiro, isso nós temos. Mas não bastam as estradas. Por exemplo, temos um hospital, que funciona mal.
Escreveu, aliás, sobre isso nas redes sociais.
Sim. Faço sempre um apelo de que poderíamos ter um hospital que pudesse atender as pessoas. Gostaria que o meu país fosse conhecido por ter um bom serviço de saúde. É disso que as pessoas necessitam. Os dirigentes, quando estão doentes, vão a Singapura, à Austrália. Quando o povo está doente, não tem essa possibilidade. Quando, um dia, acabar o petróleo e o gás, não teremos dinheiro para construir, então atualmente podemos construir esse sistema de saúde.
Olhando para os líderes timorenses dos últimos anos, vemos figuras muito ligadas à resistência, como Mari Alkatiri e Xanana Gusmão. Faltam jovens, novos líderes?
Existem, mas não têm oportunidades. Muitas pessoas se formaram nesses anos, fizeram os seus doutoramentos no exterior e estão lá, à espera de vez. Ao longo da História, essas figuras sempre ocuparam postos elevados. Poucos são como Nelson Mandela que, quando chegou a altura de abandonar o poder, saiu, dando lugar aos outros. No caso de Timor, essas figuras vão manter-se nos próximos tempos. Espero que a situação não se transforme como o que se passa na Guiné-Bissau, algo terrível.
Muitos timorenses têm vindo para Portugal em busca de melhores oportunidades, mas acabam em situações de exploração. Há relação com as máfias?
O governo timorense conseguiu negociar com a Coreia do Sul para timorenses integrarem certos postos de trabalho, ou até com a Austrália, ficando definido o que as pessoas iriam fazer. No caso de Portugal, vieram à boleia de grupos mafiosos que exploram mão de obra barata. Caíram num sistema em que ficam totalmente controlados por essas máfias. Isso é muito mau. Mas todos, em Timor, estão informados sobre isso, para não virem para Portugal nestas condições. O governo timorense já explicou isso a toda a gente. Mas, muitas vezes, aventuram-se. Muitos vêm para cá na esperança de dar o salto para Inglaterra, mas o Reino Unido fechou as portas. Então ficam aqui completamente abandonados. Lamento imenso.
Hotel Timor tem inúmeras referências a O Plantador de Abóboras, livro com o qual ganhou o Prémio Oceanos, em 2021. Essa foi a sua consagração como romancista?
Sim, porque é um prémio a que concorrem todos os escritores de língua portuguesa. Quando ganhei, estavam nomes como Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, que muitos dizem que pode ser o próximo Nobel português. De Moçambique, estava o Mia Couto. São pessoas que sempre ganharam os prémios todos e, de repente, ganhas um prémio destes, é porque vales alguma coisa. Foi a consagração de todo o trabalho anterior. Uma alegria enorme, para mim e para Timor.
A questão da independência no 25 de Abril de 1974, da resistência, da invasão pela Indonésia, são temas frequentes na sua escrita. Que histórias é que ainda tem para contar?
Até agora, o que fiz foi uma catarse muito grande. Gostaria de escrever uma história muito mais alegre. Um dos livros mais importantes que li, e que adorei, foi Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Em Timor, temos os nossos coronéis, histórias de grandeza, e gostaria de voltar aí, ao tempo do realismo mágico. Acreditamos nos nossos fantasmas e co-habitamos com isso. Gostava de voltar a isso para rir, sobretudo rir de mim próprio, de nós, timorenses, e proporcionar uma leitura que faça rir. Os timorenses têm um sentido de humor fabuloso. Uma figura que me interessa imenso, do ponto de vista literário, é Xanana Gusmão. Tem uma inteligência extraordinária, mas, ao mesmo tempo, tem um lado cómico, da grandeza, da sobranceria. É alguém que a qualquer momento vai dançar, por exemplo.
Conheceu-o pessoalmente nas lutas da resistência. Não teria dificuldade em retratá-lo.
Não. É uma figura que estimo muito, mas não gosto de muitas das opções políticas que tomou, sobretudo depois da independência.