Maria Abranches é uma jornalista e uma exímia contadora de histórias, nascida há 33 anos em Lisboa. É também uma fotógrafa documental – e talvez devêssemos ter começado por aí, porque foi com o seu trabalho Maria, em que conta a vida de uma cuidadora e trabalhadora doméstica, traficada de Angola aos 9 anos, sob falsas promessas de educação, que Maria Abranches acabou de ganhar um prémio no World Press Photo, na categoria Europe Stories.
Em Maria, a fotógrafa portuguesa conta a história de Ana Maria Jeremias, mas é como se contasse tantas outras histórias semelhantes de tantas outras Marias, “honrando as suas vidas e incentivando a reflexão sobre o privilégio”, destaca-se no WPP.
A própria vai mais longe: “Espero que o meu trabalho devolva a voz e o reconhecimento que foi sempre negado a estas mulheres.”
Ana Maria nasceu Utima, a palavra Kimbundu para “coração”, “um nome que reflete bem a mulher em que se tornou: uma figura de força e afeto que trabalha e cuida das casas de inúmeras famílias há mais de quatro décadas”, já tínhamos lido quando Maria Abranches apresentou este seu projeto durante o último Exodus Aveiro Fest, em dezembro do ano passado.
A fotógrafa acompanhara-a entre o final de 2023 e o início de 2024, andando com ela entre a casa e o trabalho, e documentando uma vida que mudou radicalmente aos 9 anos, quando foi trazida para Coimbra por uma família portuguesa.
Ao chegar a Portugal, Utima recebeu um novo nome, Ana Maria, e um novo ano de nascimento, 1965. Muito mais tarde, soube que tinham falsificado a assinatura do seu pai para autorizar a sua partida.
“Na altura, era apenas trazer uma criança para Portugal, mas hoje chamamos tráfico, temos de dar os nomes às coisas”, observa Maria Abranches.
Dali para a frente, a vida de Ana Maria tornou-se num ciclo de trabalho doméstico, abuso verbal e discriminação racial. Um ciclo que seria quebrado aos 21 anos, quando conseguiu libertar-se daquela casa e daquela família, ouviria Maria Abranches em miúda, quando a conheceu em casa de uma amiga sua de infância, onde ela trabalhava.
“Eu estava sempre à conversa com ela e fui percebendo que tinha uma história muito complexa e interessante”, recorda.
Décadas mais tarde, a fotógrafa quis voltar à sua história e tudo se foi encadeando, sobretudo porque Ana Maria tinha um arquivo com fotografias. “É raro alguém ter a vida tão documentada”, nota. “Da minha parte, foi mais contar uma história do que ser fotógrafa.”
Maria Abranches admite que o tema é “profundamente pessoal”, porque foi criada por uma mulher chamada Júlia que lhe lembra muito Ana Maria. “A Júlia assumiu um papel de mãe, muito para lá das suas obrigações, num trabalho que era invisível. Não era angolana, mas era mulher e era invisível como a Ana Maria.”
Houve, no entanto, uma outra outra questão, igualmente importante, a motivar a fotógrafa: o colonialismo português.
“O meu pai foi forçado a combater na guerra do Ultramar, esteve no Uíge, em Angola, e isso era um não-assunto lá em casa”, conta. “Era um buraco e, para uma criança, criava uma série de questões e de curiosidade. Eu tinha muitas perguntas, o que também me fez interessar por estes temas.”
Originalmente formada em arquitetura, Maria Abranches trabalhou na área alguns anos antes de estudar fotografia no Ar.Co e no Movimento de Expressão Fotográfica, em Lisboa. Seguiu-se um estágio em fotojornalismo, no Público, após o qual decidiu dedicar a sua carreira exclusivamente à fotografia.
O interesse pela história colonial portuguesa cresceu enquanto fazia o making of da curta-metragem de Dark Skin (2021), de Graça Castanheira. O filme gira à volta de racismo e de inclusão, e as suas fotografias seriam expostas no CCB, entre debates. “Tudo isso foi impulsionador do tema em mim”, acredita.
Essa experiência inspirou Trançar o Mundo (2022), um projeto nascido do encontro com quatro cabeleireiros afro-descendentes, no âmbito da 14.ª Edição das Narrativas Fotográficas do Intendente, com orientação e curadoria de Pauliana Valente Pimentel e Patrícia Craveiro Lopes, que resultou numa exposição na Casa Independente.
E, em 2023, quando foi selecionada para a 5.ª Edição da Masterclass Narrativa orientada pelo fotógrafo Mário Cruz, vencedor de dois Prémios World Press Photo, não demoraria muito a avançar com Maria, o seu primeiro ensaio fotográfico de longa duração.
“É importante dizer que este trabalho não teria sido possível sem a ajuda do Mário Cruz, porque foi na sua masterclass que aprendi a criar uma narrativa”, sublinha. “Ele costuma dizer que nós, fotógrafos, temos tendência a querer ir para fora, quando às vezes as histórias estão mesmo ao nosso lado, a precisarem de ser contadas. Maria tem isso em comum com o seu projeto Roof.”
O título começou por lhe surgir porque todas as mulheres que aparecem na história têm Maria no nome, o que lhe pareceu uma “feliz coincidência”. Mas há mais para explicar. “O nome Maria tem uma conotação pejorativa em Portugal, as empregadas domésticas são ‘as Marias’, e a minha escolha é também uma crítica, uma provocação. Além disso, a Ana Maria é muito crente e a figura de Nossa Senhora estava em todas as casas, até num pequeno altar.”
Quando decidiu concorrer pela primeira vez ao World Press Photo, na categoria de Stories da Europa, Maria Abranches não hesitou em escolher Maria.
“Embora sendo uma história sobre uma mulher angolana, penso que o debate do colonialismo português deve ser iniciado cá. E tenho a esperança de que a visibilidade do prémio lembre as cicatrizes deixadas pelo colonialismo português e que possa ser um ponto de partida para um debate sobre a reparação histórica.”
Para Maria Abranches, o prémio do WPP (que veio juntar-se a vários outros) é “uma grande honra” também por destacar um trabalho que é “uma coisa de mulheres”, diz.
“Esta história é sobre uma mulher e sobre muitas outras mulheres como ela, e foi pensado e desenvolvida por uma mulher. Ser uma coisa de mulheres foi muito importante para mim.”
“Durante o trabalho acompanhei a Ana Maria nas suas viagens de autocarro entre a casa e o trabalho, cedíssimo, e vi como os passageiros são quase todos mulheres”, recorda. “Espero que este meu prémio devolva a voz e o reconhecimento que foi sempre negado a estas mulheres invisíveis.”