As câmaras dos smartphones têm evoluído significativamente, mas há alguns sinais que apontam para a maturação destes componentes. Por exemplo, a câmara principal do novo Xiaomi 15 Ultra é a mesma que era usada no modelo anterior e o mesmo acontece com o Galaxy S25 Ultra. E, claro, há realidades físicas inultrapassáveis. A fotografia é, sobretudo, um sistema de captura de luz e as dimensões reduzidas das lentes e dos sensores usados nos smartphones resultam em limitações naturais. Os fabricantes têm recorrido a diferentes técnicas de software para, de algum modo, compensar as limitações físicas. Neste aspeto, os algoritmos de IA, muito reforçados nos últimos meses, vieram dar novas capacidades. Por exemplo, o famoso efeito bokeh, que permite desfocar o fundo para realçar o motivo principal, está cada vez mais sofisticado. Hoje, muitos smartphones recorrem a algoritmos de IA para, por exemplo, criar retratos mais atrativos.
Algoritmos são bons, mas limitados
O efeito bokeh é um bom exemplo da aplicação de algoritmos para compensar as limitações físicas, porque foi criado para replicar um resultado natural conseguido pelas câmaras fotográficas dedicadas, sobretudo as mais profissionais, em que a grande abertura das lentes (capacidade para fazer chegar muita luz ao sensor) e a grande dimensão do sensor permitem usar distâncias de focagem muito curtos. É a conjugação destes dois fatores, lentes muito luminosas e sensores grandes, que permitem, por exemplo, fotografar uma face de um modelo e fazer com que apenas um dos olhos fique perfeitamente focado. Ora, este efeito real, consequência das leis da física, resulta melhor que o efeito bokeh, que é artificial.
Não é só a profundidade de campo da focagem que ganha com a utilização de lentes luminosas e sensores grandes. Outro bom exemplo é a capacidade de captar mais luz, essencial na fotografia. Sabemos, intuitivamente, que uma janela maior deixa passar mais luz do que uma janela mais pequena. Ora, a limitações de um sensor pequeno, como os que são usados nas câmaras dos smartphones, pode não ser evidente em fotos com muita luz ambiente, mas torna-se difícil de gerir em fotografia com pouca luz ou em que precisamos de usar velocidades de obturação rápidas (equivalente à velocidade de abertura e fecho de uma janela) para apreender detalhes de, por exemplo, um motivo em movimento rápido. Todos nós já tivemos de lidar com fotos de smartphone desfocadas ou tremidas quando há pouca luz ambiente ou quando a fotografar alguém a correr. Uma vez mais, a tecnologia tem ajudado, tanto com a aplicação de algoritmos, como com a utilização de sofisticados sistemas de estabilização da imagem.
Versão podcast, em inglês, gerada pela ferramenta de IA Google NotebookLM
A solução da Xiaomi
Pelas razões indicadas, a fotografia (e vídeo) em smartphones teria muito a ganhar com a utilização de lentes e sensores realmente grandes. O que, naturalmente, é um desafio num dispositivo que se quer compacto e leve de modo a manter a portabilidade. Para conseguir o ‘melhor de dois mundos’, a Xiaomi apresentou, durante o Mobile World Congress, um novo conceito modular, em que a objetiva, que inclui o sensor, pode ser fixada magneticamente no smartphone. O Xiaomi Modular Optical System demonstrada utiliza um sensor do tipo 4/3, muito usado em câmaras profissionais – pela Panasonic, por exemplo. Não é tão grande quanto os sensores conhecidos por full frame (35 mm), mas é grande o suficiente para trazer as vantagens já mencionadas, enquanto não é demasiadamente penalizador para o a dimensão e peso.
São há dois pequenos pinos para fazer a ligação elétrica entre o módulo e o smarpthone. O que significa que é o smartphone que alimenta eletricamente o módulo. A Xiaomi informou-nos que consumo energético do módulo é comparável ao de um sistema de câmara embutido. É suficientemente portátil para caber numa mala ou bolso. E, claro, esta modularidade permitirá desenvolver diferentes objetivas.

Ainda mais inovador é a tecnologia usada para a comunicação entre o módulo e o smartphone. Sobre isto, é importante salientar que, como acontece com as câmaras embutidas nos smartphones, o utilizador tem visualização em tempo real da imagem no ecrã do smartphone. Todas as funcionalidades, incluindo configurações, acertos e processamento de imagem, pareceram-nos responder do mesmo modo a que estamos habituados quando a usar as câmaras dos smartphones. Este contexto é importante para percebermos que a ligação de dados tem de ser rápida. Segundo a Xiaomi, esta ligação é feita por impulsos de luz, usando uma tecnologia denominada Xiaomi LaserLink, capaz de atingir uns expressivos 100 Gbps (gigabits por segundo). Ora, esta junção de um sistema de comunicações sem fios de grande largura de banda com um conector energético e fixação magnética também nos faz antecipar que esta interface poderá ser usada para outros acessórios. Desde powerbanks a ecrãs externos.

Primeira experiência
O módulo que experimentámos na feira é constituído por uma lente Xiaomi de 35 mm com uma abertura f/1.4, um valor típico de uma câmara prossional, equipada com um sensor Light Fusion X de 100 megapixels. A objetiva é de abertura variável, outra característica importante para os profissionais – para controlar a tal profundidade de foco e a luz que chega ao sensor.
A fixação da lente à parte traseira do telemóvel assemelha-se à familiaridade de um acessório MagSafe da Apple, denotando uma preocupação com a simplicidade de utilização.
A transição entre a câmara padrão do smartphone e a objetiva modular é feita de forma fluida através de um ícone dedicado na aplicação da câmara. As imagens capturadas são armazenadas diretamente na galeria do smartphone, com a flexibilidade adicional de poderem ser gravadas no formato RAW, oferecendo maior latitude para edição posterior. Além do intuitivo sistema de focagem automática acionada por toque no ecrã, a objetiva dispõe de um anel de focagem físico, proporcionando aos utilizadores um controlo tátil mais apurado sobre o ponto de foco.
Em cenários de fotografia mais exigentes, utilizando o modo Pro da aplicação, a objetiva destacável demonstrou uma capacidade de resposta equiparável à da câmara dedicada. Uma das vantagens notáveis da lente modular reside na obtenção do tal efeito bokeh natural e distinto, conseguido através da manipulação da distância focal em diversos planos. Este resultado contrasta com o bokeh simulado por software nos modos retrato tradicionais, que frequentemente apresenta imperfeições, especialmente em detalhes como cabelo e óculos. A dimensão generosa do sensor utilizado no sistema da Xiaomi permite superar estas limitações inerentes aos pequenos sensores dos smartphones.
Faz sentido?
Naturalmente, transportar módulos no bolso ou numa mochila elimina uma parte substancial da vantagem prática de se usar câmaras nos smartphones. Mas uma das vantagens desta ideia da Xiaomi é que podemos continuar a usar as câmaras embutidas no smartphone e adicionarmos, se quisermos ter melhores capacidades fotográficas, uma câmara de nível profissional facilmente. O que até tem o potencial para prolongar a vida dos smartphones, na medida me que muitos utilizadores adquirem novos modelos exatamente pelas capacidades melhoradas das câmaras. No futuro, se o Xiaomi Modular Optical System avançar para produção, podemos ganhar uma câmara bem melhor sem termos de trocar de smartphone. E o contrário também pode ser verdade: poderemos usar módulos em que já investimos significativamente em novos smartphones. De outro modo, parece-nos que faz todo o sentido transformar o conceito em produtos comerciais.