Foi jornalista na equipa fundadora do Expresso, ainda nos anos 1970, mas o que queria realmente era trabalhar na banca. Fernando Ulrich, o carismático banqueiro que durante vários anos ocupou o cargo de presidente-executivo do BPI – nomeadamente durante o período da crise e da consequente intervenção financeira de que Portugal foi alvo – recebeu esta terça-feira, 3 de dezembro, o prémio ‘Excelência na Liderança’, uma distinção da revista EXAME e do grupo Trust In News (TIN), e falou dos seus 47 anos de carreira num evento dedicado também às 500 Maiores & Melhores empresas nacionais.
Tendo frequentado a universidade durante os conturbados anos que antecederam o 25 de abril de 1974, e nunca tendo terminado a sua licenciatura, Fernando Ulrich garantiu que o seu percurso não pode, “de jeito nenhum, ser exemplo para ninguém”, atira com uma gargalhada durante uma conversa com a publisher da TIN, Mafalda Anjos. “Isso só prova que fui preguiçoso! (risos). De facto, na altura, no início dos anos 1970 havia já muita movimentação e agitação na universidade, e eu tive a sorte de ser desafiado para um projeto que estava a ser criado na altura, que era o Expresso. Portanto, entre a atividade jornalística e ir às aulas…enfim. Preferi o jornalismo. Na maior parte dos dias não havia aulas, aquilo era uma época um bocado conturbada, um dia estava no quinto ano e ainda não tinha feito o quarto…” recorda. E salienta que o período que viveu era, também ele, muito diferente do atual. “Eu tive a sorte de o 25 de abril, para além de todas as alterações que introduziu em Portugal, ter-nos trazido ainda um benefício involuntário, porque destruiu uma geração inteira de pessoas muito válidas que estavam à nossa frente, e criou um vazio de liderança que permitiu carreiras mais rápidas!”, salienta.

Garante que nunca se arrependeu de ter rejeitado o convite que lhe foi feito pela administração do Expresso para assumir a direção do semanário, porque sempre foi o sonho seu trabalhar num banco. No meio de várias memórias sobre o seu avô paterno – um seu homónimo que nunca conheceu e que foi administrador do Banco de Portugal – Fernando Ulrich voltou a destacar a importância de Artur Santos Silva no seu percurso profissional e rejeitou dar lições de liderança. A única característica que, afirma, acha fundamental num bom gestor é a capacidade de nunca entrar em negação. “Em situações de crise, e podem ser estas grandes crises financeiras ou dificuldades dentro da empresa, até relativamente pequenas – [é fundamental] nunca entrar em negação, nunca fazer de conta de que não existe a dificuldade mas, pelo contrário, pensar que o problema não só existe como pode ser maior do que o que estamos a ver. Porque quem não fizer isto arrisca-se facilmente a ser engolido”, nota.
E acrescentou ainda que não se sente confortável a elencar as características de um líder, porque acredita haver “seguramente muitos estilos e muitas formas de se liderar e que permitem alcançar resultados tão bons ou melhores. Mas acho importante gostar das pessoas e as pessoas sentirem que são apreciadas. E acho importante viver com paixão o projeto que abraçamos”.

E, em jeito de recordação, continua: “Acho que algo que distinguiu o BPI de alguns outros bancos, quando veio a crise – os primeiros sinais vieram em 2007, e depois agudizaram-se em 2008 com a falência da Lehman Brothers – é que eu gostava sempre de falar com as pessoas que estavam no mercado, a comprar e a vender… A verdade é que nós não previmos coisíssima nenhuma, mas pela informação que fomos tendo, era muito claro que o problema era seguramente maior do que o que estávamos a ver. Porque crises no mercado de ações, todos vivemos várias e acabámos por recuperar; crises no mercado cambial, também vivemos todos variadíssimas e sabíamos interpretar e perceber o que havia a fazer. Mas problemas no mercado hipotecário, na dívida soberana?… Isto, para mim, era relativamente novo”, admite.
“Por isso, o raciocínio que fizemos no banco foi o seguinte: “isto era muito mais sério do que o que parecia e, portanto, tentámos ser logo muito mais defensivos para estarmos preparados para o que pudesse vir. E estávamos realmente mais bem posicionados”, recorda.

O chairman do BPI recordou ainda alguns dos momentos mais dramáticos do seu percurso, como a tentativa de fusão com o BES; a OPA hostil do BCP e a criação do BFA – episódios sobre os quais pode ler mais detalhes a partir de amanhã, na edição especial da EXAME dedicada às 500 M&M que vai para as bancas – e terminou a conversa com uma certeza: a de que está, atualmente, a ocupar o cargo que devia ocupar. “Deus fez bem a natureza e em particular a raça humana, e a última coisa que eu quero aos 65 anos é ser CEO de um banco”, diz com tranquilidade. “Estou muito bem como chairman, tenho uma vida muito mais tranquila. Com 67 anos, já trabalhando há 47, já não podia ser CEO do BPI nem de coisa nenhuma!”.
Agora, revela, os seus dias são passados entre o banco, as aulas de piano e as aulas de tango argentino, para além dos netos e dos filhos. A caminho dos 50 anos de carreira, Fernando Ulrich volta a assumir-se como um gestor algumas vezes “áspero e duro” mas, claramente, pacificado com o seu percurso.