Há algo de profundamente paradoxal na imagem que nos chega da Universidade de Aveiro, Instituição onde me formei em 1993: o Reitor Paulo Ferreira, que muito respeito, e os estudantes erguem a Inteligência Artificial como estandarte da modernidade educativa, como se nela coubesse a salvação do pensamento. Mas pergunto: quando um algoritmo escreve por nós, quem pensa? Quando uma máquina responde às nossas dúvidas antes mesmo de as formularmos, quem aprende? Nas minhas crónicas tenho insistido numa verdade incómoda: a IA não é um prolongamento do espírito humano — é, muitas vezes, a sua quietude antecipada.
Os defensores da integração acrítica da IA nas universidades falam em “ferramenta”, em “personalização do ensino”, em “competências para o futuro”. Soa bem. Soa a moderno. Mas esconde uma traição silenciosa ao ato educativo. Como escrevi em outubro passado, inspirando-me nas reflexões de Hannah Arendt sobre a vita activa, educar não é transferir informação — é cultivar a capacidade de parar, de duvidar, de formular a pergunta certa. E aqui reside o perigo: a IA satisfaz a resposta antes que a pergunta amadureça na alma do estudante. Transforma o laborioso caminho do pensamento — esse território onde nascem a ética e a criatividade — numa auto-estrada lisa, rápida e vazia de significado. O aluno não percorre a estrada; é transportado nela, de olhos vendados.
Lembro as palavras do neurocientista António Damásio, que tantas vezes citei: “As emoções não são ruído no pensamento; são a sua matéria-prima”. Ora, a IA não sente a hesitação diante de um conceito difícil; não experimenta a alegria súbita da compreensão; não carrega a angústia produtiva da dúvida. Quando delegamos na máquina a mediação do saber, roubamos ao estudante a experiência corporal do aprender — essa dimensão sensorial e afetiva sem a qual o conhecimento permanece letra morta. Os estudantes de Aveiro falam em “eficiência”; eu pergunto: eficiência para quê? Para formar técnicos rápidos ou seres pensantes?
E há um segundo engano, mais grave ainda: a crença na neutralidade algorítmica. Nas minhas crónicas de 2025, baseadas nos relatórios do Comité de Ética da União Europeia, demonstrei que os modelos de linguagem são espelhos distorcidos da cultura que os alimenta — reproduzem vieses, hierarquias e silêncios históricos. Quando um estudante confia cegamente na “resposta” da IA para compreender Foucault ou Arendt, não está a dialogar com o pensamento crítico; está a ingerir uma síntese pasteurizada, filtrada por lógicas comerciais e ocidentais. A verdadeira educação exige confronto com a complexidade, não com a sua simplificação algorítmica.
O Reitor fala em “não privar os alunos das competências modernas”. Concordo — mas as competências mais urgentes do século XXI não são saber operar uma interface; são saber resistir à pressão da instantaneidade, cultivar o silêncio interior necessário ao juízo ético, e discernir entre informação e sabedoria. Como escrevi, inspirando-me nos Padres do Deserto: “Quem não aprende a escutar o próprio silêncio, nunca ouvirá a voz do outro.” A IA, na sua voracidade de resposta imediata, ensina-nos a temer o silêncio — e assim mata a escuta, essa arte primeira do encontro humano.
Não sou tecnófobo, antes pelo contrário, fui um dos pioneiros em Portugal na utilização das TIC no Ensino e na Aprendizagem. Sou pensamento-fóbico — fóbico da sua substituição silenciosa. A tecnologia deve servir a pedagogia, nunca substituí-la. Que usemos a IA para traduzir textos, sim; para mapear fontes, sim; para simular cenários, sim. Mas que nunca permitamos que ela ocupe o lugar do Professor que, com os seus silêncios e as suas perguntas incómodas, nos ensina que pensar é um ato de coragem — não de comodidade.
A universidade não existe para formar consumidores eficientes de respostas. Existe para formar seres capazes de habitar a dúvida com dignidade. E nesse território sagrado — onde a pergunta vale mais que a resposta — nenhuma máquina tem lugar. Porque ali, onde o espírito se debate com a sua própria luz e sombra, só o humano pode caminhar. E deve caminhar sozinho.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.