O ódio é um discurso fácil: não exige escuta, não pede paciência, não constrói pontes — apenas muros e inimigos. Mas quando a tempestade Kristin varreu o Pinhal de Leiria e deixou casas sem teto e almas sem chão, o País revelou a sua verdadeira geografia: não a dos mapas partidários, mas a dos corpos que se aproximam sem perguntar a cor do passaporte, a dos braços que se cruzam para erguer o que caiu. A unidade não é consenso — é a coragem de permanecer humano quando tudo desaba.
“Nem amar, nem odiar: eis a metade de toda a sabedoria. Não dizer nada e não crer em nada: eis a outra.” A frase, atribuída a Schopenhauer, paira como um enigma. E, no entanto, há nela um perigo subtil: a tentação da indiferença como refúgio. Schopenhauer, na verdade, jamais defendeu a anestesia moral. Ao contrário — na sua “Ética”, é a Mitleid, a compaixão, o único sentimento que nos redime da voragem da vontade cega. Não é na ausência de afeto que reside a sabedoria, mas na sua purificação: amar sem possessão, compreender sem julgamento, agir sem ódio.
É precisamente esse equívoco — transformar a serenidade em indiferença, a prudência em cinismo — que alimenta hoje os discursos da desunião. A extrema-direita não propõe ideias; oferece ressentimento embrulhado em bandeira. Não constrói projetos; erige muros de medo entre vizinhos, entre gerações, entre amigos e famílias, entre quem nasceu aqui e quem aqui chegou para ficar. O seu discurso não é de força, mas de fragilidade mascarada: a raiva como substituto da argumentação, o insulto como arma contra a complexidade do mundo, a segregação como resposta à incerteza.
No final de janeiro e início de fevereiro, quando a tempestade Kristin varreu o centro do País com ventos de furacão, Leiria e a Marinha Grande acordaram transformadas num cenário de guerra: árvores arrancadas pela raiz, telhados desfeitos, o Pinhal de Leiria novamente irreconhecível, habitações e indústrias destruídas.
Mas nas horas seguintes, algo de raro aconteceu: sem esperar por ordens, os vizinhos saíram às ruas com motosserras para desimpedir vias; jovens universitários organizaram recolhas de bens essenciais; empresários locais montaram piquetes não para proteger propriedade, mas para garantir que ninguém ficasse isolado; militares e mais de duzentas viaturas foram destacados para apoiar populações, lado a lado com voluntários anónimos. A CNIS apelou à “mobilização solidária” e o País respondeu — porque, nas tempestades, descobrimos que não há “nós” e “eles”, apenas corpos a partilhar o mesmo frio, as mesmas mãos a erguer o que caiu.
Rui Tavares Guedes escreveu no editorial da VISÃO (Edição 1718), com a clareza de quem conhece a História portuguesa nas suas cicatrizes e nas suas luzes: “Essa deve ser uma lição para a decisão eleitoral de domingo: o País é melhor quando está unido.” Não fala de unanimidade — essa ilusão totalitária. Fala da unidade como tecido vivo: diverso, por vezes discordante, mas entrelaçado pela consciência de que partilhamos o mesmo chão, o mesmo futuro, a mesma responsabilidade. Portugal soube-o em 1974, quando a revolução se fez sem guilhotinas; soube-o na Troika, quando a solidariedade familiar impediu o colapso social; sabe-o hoje, nas escolas onde crianças de vinte ou mais nacionalidades aprendem a soletrar “amanhã” na mesma língua.
A unidade não é passividade. É, antes, a coragem de escutar sem pré-julgamento — como ensinava Alain, filósofo que preferia perguntar a responder. É reconhecer que o outro não é uma ameaça, mas um espelho onde se reflete a nossa própria humanidade. O ódio, ao contrário, é sempre uma fuga: fuga da responsabilidade, fuga da complexidade, fuga do trabalho árduo de construir pontes em vez de muros.
Há uma beleza política que raramente se nomeia: a beleza da multidão unida sem ser uniforme. Não aquela que marcha ao som de um único tambor, mas a que avança em polifonia — operários e professores, jovens e idosos, crentes e ateus, filhos de imigrantes e netos de pescadores — todos tecendo, com gestos pequenos e decisões grandes, a teia social que nos sustenta. Essa teia não se rasga com gritos; rasga-se com silêncios cúmplices. E repara-se com palavras justas, com atos de justiça, com a coragem de escolher a esperança mesmo quando o medo bate à porta.
Dizia Espinosa que “um afeto só pode ser vencido por um afeto contrário mais forte”. O ódio não se combate com mais ódio. Combate-se com a teimosia da ternura coletiva — com a professora que permanece na escola pública, com o jovem que planta árvores sabendo que nunca se sentará à sua sombra, com o vizinho que partilha o pão sem perguntar a cor do passaporte.
Portugal é melhor quando está unido. Não porque todos pensem igual, mas porque todos se reconhecem como parte de um todo maior que si mesmos. A verdadeira sabedoria não está em não amar nem odiar. Está em amar com discernimento — e em recusar, com firmeza serena, quem transforma o ódio em programa.
Porque um povo dividido é fácil de dominar. Um povo unido — diverso, crítico, compassivo — é livre. E na liberdade, como bem soube Schopenhauer, apesar das más leituras, reside a única paz que vale a pena habitar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.