No Dia da Não Violência Escolar e da Paz, celebrado em 30 de janeiro, recordamos que a escola não é apenas um espaço de saber, mas um laboratório vivo onde se aprende — ou desaprende — a convivência humana. Entre campainhas, cadernos e salas cheias de diversidade, ergue-se a urgência de transformar conflitos em oportunidades educativas e de reinstalar, no coração da comunidade escolar, a arte de comunicar com consciência, empatia e responsabilidade.
No quotidiano das nossas escolas, o som das campainhas mistura-se, muitas vezes, com o ruído de conflitos que ultrapassam a mera discórdia escolar. A escola deixou há muito de ser apenas um lugar de instrução para se tornar num espaço de desenvolvimento integral. Contudo, para que este desígnio se cumpra, é imperativo que a Comunicação Não Violenta e a Mediação de Conflitos deixem de ser “atividades extra” para assumirem o papel de espinha dorsal das instituições educativas portuguesas.
Nas salas de aula portuguesas, o silêncio de outrora deu lugar a uma vibrante, mas complexa, teia de interações humanas. O conflito, inerente à convivência, continua frequentemente a ser percebido como obstáculo à aprendizagem, quando deveria ser entendido como possibilidade de crescimento. É neste cenário que a Comunicação Não Violenta (CNV) e a Mediação de Conflitos emergem como ferramentas vitais para a construção de uma escola inclusiva e segura.
A paz escolar não se define apenas pela ausência de agressão, mas pela capacidade de cada aluno e professor se sentirem respeitados na sua unicidade. Implementar “espaços seguros”, onde o diálogo substitui o confronto, permite que jovens de origens diversas mantenham conversas produtivas sobre temas difíceis, praticando a escuta ativa e a autorreflexão. Para isso, a mediação deve ser assumida como dimensão nuclear do processo de ensino-aprendizagem, capaz de transformar hostilidade em cooperação e justiça restaurativa.
A implementação de práticas de Comunicação Não Violenta encontra fundamento sólido no legado de dois autores centrais para a formação docente: Marshall Rosenberg e Thomas d’Ansembourg. Rosenberg recorda-nos, no seu clássico Nonviolent Communication: A Language of Life, que a empatia é “um modo de presença” que transforma conflitos em oportunidades de ligação humana. D’Ansembourg, no influente Cessez d’être gentil, soyez vrai!, reforça que a autenticidade e a consciência emocional são essenciais para educadores que desejam relações verdadeiramente colaborativas. Estas referências são pilares das formações de professores, ajudando a construir ambientes escolares que privilegiam a segurança emocional e o vínculo humano.
Contudo, para que esta visão se torne real em todas as escolas portuguesas, a boa vontade não basta: é necessária profissionalização e capacitação técnica. É aqui que o Projeto ArlekinPro assume um papel determinante. Trata-se de um projeto Erasmus+ KA220-VET, financiado em 400 000 euros, dedicado a criar um modelo europeu de formação em mediação social, com microcredenciais reconhecidas oficial e internacionalmente.
O ArlekinPro inclui cursos online, imersões profissionais de 20 dias e um percurso formativo flexível que responde às necessidades reais dos mediadores no terreno. A plataforma de aprendizagem e o MOOC, em desenvolvimento, são fruto da colaboração entre parceiros de cinco países europeus, oferecendo uma formação acessível e alinhada com as exigências atuais da mediação social.
O projeto responde ao aumento da conflitualidade social e à ausência de quadros formais de formação em mediação. Propõe a criação de uma identidade profissional sólida para mediadores sociais, combinando conhecimentos teóricos, prática profissional e aprendizagem em contexto europeu, contribuindo para reconstruir laços sociais e tornar a mediação um instrumento central das políticas educativas e comunitárias.
Em Portugal, este trabalho ganha impulso através da liderança da Prof. Elisabete Pinto da Costa, Diretora do Instituto de Mediação da Universidade Lusófona e Coordenadora da Comunidade de Investigação em Mediação Social e Educativa do CeiED. A sua responsabilidade no dossier das microcredenciais e no desenvolvimento do MOOC assegura qualidade académica e relevância prática para os mediadores do futuro.
Complementando esta vertente, o autor desta crónica, na qualidade de Mediador Linguístico e Cultural no Agrupamento de Escolas José Estêvão e colaborador do Instituto de Mediação e do CeiED, atua na formação de mediadores escolares e na mediação linguística e cultural, promovendo equidade para alunos migrantes e minorias. A gestão da Plataforma de Ensino a Distância Lusófona X assegura a democratização do acesso a recursos digitais de mediação.
A urgência de integrar mediadores em todas as escolas está diretamente ligada à necessidade de aliviar a carga sobre os docentes e garantir apoio especializado aos intervenientes nos conflitos. A presença de um mediador permite sinalizar precocemente “micro-violências” e trabalhar o desenvolvimento socioemocional como parte integrante do ecossistema escolar.
Investir na formação de docentes e técnicos e criar carreiras profissionais para mediadores não é uma opção administrativa: é um imperativo ético. Se quisermos uma escola onde todos se sintam pertencentes, onde os conflitos deixem de ser temidos e passem a ser desarmados pelas palavras, então é aqui, neste Dia da Não Violência Escolar e da Paz, que reafirmamos o compromisso: A paz aprende-se. E a escola é o seu lugar natural.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.