A 21 de novembro, o hospital de Al Awda, no norte da Faixa de Gaza, foi bombardeado de forma indiscriminada e, entre as dezenas de vítimas, estava Mahmoud Abu Nujaila, de 38 anos, um clínico palestiniano que trabalhava para os Médicos Sem Fronteiras. Uma semana antes, tinha enviado duas mensagens. Uma ao seu irmão, residente em Oxford, no Reino Unido, explicando-lhe que não podia abandonar três crianças órfãs que tratava com desvelo. Outra, aos seus pares de profissão: “O nosso dever é cuidar dos nossos doentes, ainda temos esperança que o mundo não nos abandone!”. Não lhe bastou. Num placard destinado ao agendamento de cirurgias escreveu ainda: “Quem ficar até ao fim contará a história. Nós fizemos o que pudemos. Lembrem-se de nós!”
Serve este intróito para nos interrogarmos sobre o que nos pediu Abu Nujaila. Como podemos honrar a sua memória, o seu legado? A 3 de janeiro, o editor de Cultura da VISÃO, Pedro Dias de Almeida, escreveu aqui sobre as “guerras velhas” e o “ciclo infernal” em que nos encontramos. E terminava: “Pedir a paz na passagem de ano é muito fácil. Difícil é, olhando para o mundo à nossa volta, acreditar”. Tem toda a razão. Pedir não custa e acreditar não chega. Ou devemos aceitar que a barbárie e os conflitos armados são algo intrínseco ao homo dito sapiens? No El País, a jornalista Mar Padilla recordou, há poucos dias, a conclusão de um simpósio internacional promovido pela UNESCO, em 1986, em que participaram especialistas de diferentes áreas, genética e psiquiatria incluídas: “A guerra não está nos nossos genes. O que é inevitável é a ira e a violência humanas”. Num artigo publicado na Scientific American, Brian Ferguson, professor na Rutgers University e uma sumidade com várias obras sobre este tema, garante exatamente a mesma coisa. Nesse caso, se a guerra não é uma necessidade biológica, que pode ser feito para acabar com a selvajaria em Gaza e na Ucrânia? Como lidar com os trinta e tal conflitos militares que a ONU e vários organismos independentes identificam na atualidade? O fim da Covid-19 parece ter coincidido com uma nova epidemia de guerras, de golpes de estado, de massacres, de repressão, de ameaças nucleares e de instabilidade global que ameaça alastrar e agravar-se em 2024.
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