O debate sobre a transição energética da conferência de alto nível em Santa Marta, na Colômbia, está longe de ser apenas técnico. Entre documentos de trabalho, propostas de movimentos sociais e alertas sobre militarização, o que emerge é um retrato mais complexo, e mais político, da tentativa de abandonar os combustíveis fósseis.
Reuniram-se mais de 50 países estão na primeira conferência internacional dedicada exclusivamente a este objetivo: iniciar um processo concreto para reduzir a dependência do petróleo, do gás e do carvão. Mas, mesmo antes das decisões, há sinais claros de tensão e de falhas.
Um dos documentos em circulação durante a conferência aponta um problema central: a falta de ação concreta por parte dos Estados. Segundo este contributo, uma proposta anterior, que incentivava os países a apresentar relatórios e planos para sair dos combustíveis fósseis, teve uma adesão mínima. Apenas três países apresentaram relatórios considerados válidos, e só um apresentou um plano efetivo. Este dado expõe uma fragilidade estrutural das políticas climáticas internacionais: a distância entre compromissos e implementação.
Para tentar corrigir esse desfasamento, o documento propõe três medidas principais: maior transparência, com calendários claros e divulgação de inventários e subsídios, interrupção do financiamento aos combustíveis fósseis, com proteção para consumidores vulneráveis, e eliminação progressiva de subsídios à produção e exploração.
A questão, no entanto, permanece em aberto: este esforço representa uma mudança real ou apenas mais um ciclo de promessas?
O papel da guerra
Outro dos temas que emerge na conferência, ainda pouco discutido nas negociações climáticas formais, é o impacto do militarismo.
Um grupo de trabalho sobre armas, militarização e justiça climática alerta para o facto de o setor militar ser um dos grandes impulsionadores das emissões de gases com efeito de estufa. Para além disso, contribui para manter a dependência dos combustíveis fósseis e reforça uma lógica de segurança baseada no conflito e no medo.
Mas o impacto vai além das emissões: o aumento do investimento em armamento desvia recursos que poderiam ser aplicados na transição energética, na adaptação às alterações climáticas e na proteção ambiental. Ao mesmo tempo, perpetua um modelo económico e político que dificulta mudanças estruturais.
A proposta deste grupo passa por mobilizar organizações e movimentos em diferentes países, tornando mais visível a ligação entre guerra, energia e clima, e pressionando os governos a agir.
Pressão nas ruas antes das decisões
Se há algo que a conferência de Santa Marta confirma é que a política climática não se decide apenas nas salas oficiais de negociação: à medida que se aproximava o momento político, multiplicavam-se cartas, declarações e iniciativas vindas da sociedade civil. Uma dessas cartas, dirigida aos governos que integram a coligação para o afastamento dos combustíveis fósseis, pede ações mais rápidas, incluindo a total reforma dos subsídios que continuam a apoiar o setor.
Ao mesmo tempo, está a ser preparado um dia global de ação, com mobilizações em dezenas de países. Estão previstas marchas, protestos, ações comunitárias e iniciativas de educação ambiental.
Um processo fora da ONU, mas não à margem
A conferência surge num contexto de frustração com o ritmo das negociações climáticas globais. Apesar de três décadas de cimeiras internacionais, os combustíveis fósseis só foram explicitamente mencionados em decisões da ONU em 2023, na COP28. Mesmo assim, os avanços têm sido limitados, travados frequentemente por países produtores e por interesses económicos ligados ao setor.
A reunião em Santa Marta, organizada pela Colômbia e pelos Países Baixos, procura contornar esse bloqueio através de uma abordagem mais restrita: uma “coligação dos dispostos”, composta por países e atores disponíveis para avançar mais rapidamente. Não se trata de substituir o processo das Nações Unidas, mas de o complementar e, potencialmente, pressionar.
Os temas que atravessam a conferência mostram que a transição energética não é apenas uma questão de substituir fontes de energia. É também uma discussão sobre: modelos económicos, prioridades de investimento, responsabilidades políticas e desigualdades históricas.
Entre a falta de planos concretos, o peso da militarização e a mobilização crescente da sociedade civil, Santa Marta expõe um ponto crítico: a transição energética não falha por falta de soluções técnicas, mas por falta de decisão política.
Direção Editorial: Joana Guerra Tadeu | Reportagem: Imagens: Pedro Moura e Sílvia Moutinho | Produção em parceria com Don’t Skip Humanity.