Imaginemos a Europa no início da próxima década. Reduziu as emissões mais depressa do que os seus rivais, mas os hospitais, bancos, fábricas, universidades e Forças Armadas dependem de modelos de Inteligência Artificial, semicondutores e serviços de nuvem controlados fora do espaço democrático europeu. Os dados mais sensíveis atravessam infraestruturas que a Europa não governa; as campanhas eleitorais enfrentam desinformação automatizada produzida a uma escala que os Estados já não conseguem acompanhar; e uma crise diplomática pode limitar o acesso à capacidade computacional de que depende a economia. Seria uma Europa ambientalmente mais virtuosa. Mas seria ainda soberana?
A pergunta é incómoda porque obriga a estabelecer uma hierarquia entre riscos que preferíamos tratar separadamente. No horizonte dos próximos cinco a dez anos, perder a corrida à IA pode produzir consequências políticas, económicas e militares mais rápidas do que o agravamento incremental do aquecimento global. Isto não torna a crise climática menos grave. O IPCC é inequívoco: cada fração adicional de aquecimento aumenta perdas, danos e riscos. E a Agência Europeia do Ambiente identifica em Portugal impactos crescentes associados a secas prolongadas, incêndios, erosão costeira e cheias rápidas. A comparação não deve ser feita entre vítimas e sofrimentos; deve ser feita entre dois relógios estratégicos. Um pode retirar autonomia política em poucos anos. O outro acumula danos físicos, económicos e, em muitos casos, irreversíveis ao longo de décadas.
