Ainda não se chegara às primeiras três horas de conversa quando se percebe que Maria Filomena Mónica decidira revelar pilares importantes do seu percurso de vida e de obra através de quatro afirmações categóricas: a intelectual que na juventude se considerava uma analfabeta, apesar de ter feito o curso de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa; o ter optado por estudar em Oxford só porque Salazar proibia a Sociologia; a filha que não queria acatar os preceitos da religião católica que orientaram a vida da mãe; bem como a imagem que tem de si, uma rebelde “de minissaia, loura e gira”, que assustava os “rapazes” seus contemporâneos. Se tais confissões surgiram cedo, não foi difícil confirmar o quão verdadeiras eram através de um interrogatório cerrado nas duas dezenas de sessões que se sucederam, principalmente por entre esse quarteto de primeiras afirmações existirem certas histórias nunca contadas e silêncios a que decidira pôr um fim.

