“Free The Nipple” (“Libertem o Mamilo”) nem sempre foi um grito das mulheres, nem sempre foi um movimento ativista ou um hashtag nas redes sociais. Começou por ser um filme sobre um grupo de mulheres que organizam uma revolução para que lhes seja dada a oportunidade de estarem em topless onde e quando quiserem, como os homens. Em 2014, quando a cineasta Lina Esco apresentou o filme ao mundo, não imaginava o que viria daí.
A ideia sempre foi incitar o debate, levantar questões e explorar o que significa a igualdade de género, mas o resultado final foi muito maior: o mundo não só ouviu os desabafos que Esco deixou transparecer no filme, como fez deles um hino à liberdade das mulheres.
Esco baseou o filme num grupo de mulheres que em 1992 protestaram pelo direito de estarem em topless em Nova Iorque o que, embora tenha mais tarde sido permitido, não impede que algumas mulheres continuem a ser presas quando estão despidas na parte de cima. Esco desenvolve a questão da igualdade de género partindo de uma única premissa: na década de 1930, em Nova Iorque, era proibido que os homens estivessem em público sem o seu tronco coberto, uma lei que terá mudado depois de vários protestos terem sido feitos pelo direito de mostrar os mamilos.
Se os homens protestaram e conseguiram, porque não podem as mulheres fazer o mesmo? “A normalização do mamilo levará tempo. Em Nova Iorque, não era legal que os homens fizessem topless em público até à década de 1930. Tornozelos destapados costumavam ser considerados inadequados para as mulheres. Agora olhamos para trás e rimos”, escreve a cineasta na TIME.
O núcleo da questão não são os mamilos, que se assumem antes como um símbolo do protesto, mas a visão que a sociedade mantém do corpo feminino e que, consequentemente, influencia a visão da própria mulher sobre o seu corpo. “Podes pagar para ver mulheres em topless em vídeos pornográficos e clubes de strip, mas no momento em que uma mulher assume o controlo do seu próprio corpo é vergonhoso”, constata Esco. O movimento “Free The Nipple não tem a ver com mostrar o peito” reforça a cineasta.
O desenvolvimento e promoção do próprio filme enfrentou muitos obstáculos por incluir conteúdo considerado, por muitos, inapropriado. Mas o que era antes apenas um título, ganhou dimensão e dos cinemas passou para as ruas em posters, gritos, cânticos e escrito sobre o peito nu e livre de mulheres em protesto.
“Um mamilo é um mamilo”
Se tanto os homens como as mulheres têm mamilos, porque não podem as mulheres mostrar os seus? A questão dá voz ao movimento, mas não representa todos os seus valores, nomeadamente a ligação da mulher ao seu próprio corpo e à liberdade de o explorar.
Das pesquisas do Google que incluem a palavra “mamilo”, a mais comum é “Os meus mamilos são normais?”. O movimento “Free The Nipple” reúne todas as mulheres que se querem libertar do peso dessas questões e exigir uma sociedade que não as leve a pôr o seu próprio corpo em causa.

Matt Lambert, diretor da série Nowness Define Beauty, explora, num curto vídeo de três minutos as diferenças entre o mamilo feminino e masculino e o porquê de apenas um deles ser escondido e considerado inapropriado na maioria dos locais.
Através da voz da modelo Adwoa Aboah, co-fundadora da Gurls Talk, uma comunidade feminina que se concentra em questões de saúde mental, imagem corporal e sexualidade nos media, são levantadas algumas questões que procuram desconstruir o pensamento por detrás da censura do mamilo feminino. “A partir de que idade se considera que um mamilo atingiu a maturidade sexual? Quem decide se uma imagem é sexual ou artística? Quando alguém muda de sexo, quando é que o seu mamilo passa a ser considerado obsceno? Se o peito de um homem é maior que o de uma mulher, porque são os mamilos dela a serem protestados?”, por exemplo.
Numa nota final, Aboah acrescenta: “Um mamilo é um mamilo, isto sabemos. Vamos ajudar a vê-los além do género”. O movimento procura, acima de tudo, devolver o poder do seu próprio corpo à mulher, que continua a ser “objetificada” pela sociedade, como argumenta o vídeo de Lambert, embora o mamilo em si tenha funções como a amamentação, uma atividade natural e necessária à vida humana que continua a ser olhada com pudor.
Um grito que ecoa nos quatro cantos do mundo
O movimento “Free The Nipplee” surgiu na década da Internet e das redes sociais, utilizando-as como uma plataforma para a sua causa e um altifalante para o seu protesto. Anda assim, e embora pareça contraditório, este tipo de aplicações, nomeadamente o Instagram e Facebook, são um dos alvos do movimento pelas políticas de censura que mantêm no que toca ao mamilo feminino.
O Instagram e o Facebook têm sido amplamente criticados por diversas personalidades e outras pessoas que se assumem membros do movimento, por removerem fotografias nas quais é possível ver o mamilo de uma mulher, ou, na pior das hipóteses, por removerem não só uma imagem, mas a conta por completo.
Estabelece-se uma relação quase irónica entre este tipo de plataformas e o movimento “Free The Nipple”. O Instagram, por exemplo, continua a ser uma das mais criticadas aplicações e, no entanto, hashtags do movimento continuam a ser utilizadas todos os anos na plataforma que, inevitavelmente, se assume como uma das suas frentes de protesto. Ainda assim, é impossível pesquisar pela principal hashtag do movimento, #FreeTheNipple, que foi removido pela plataforma, um obstáculo que foi contornado acrescentando outras variações da mesmo hashtag, como, por exemplo, a data de um ano.
Por toda a plataforma, foram ecoando gritos de protesto de várias mulheres que viam o seu corpo ser continuamente objetificado e censurado, limitando uma liberdade que deveria ser tanto das mulheres como dos homens. Algumas celebridades contribuíram, inclusive, para dar visibilidade ao movimento, recorrendo a diferentes plataformas para darem voz ao protesto.
Entre elas encontra-se, por exemplo, Miley Cyrus que já várias vezes viu fotografias suas removidas por mostrarem parte ou a totalidade dos seus mamilos. Numa entrevista no programa de Jimmy Kimmel, Cyrus comentou: “O mamilo, o que não podemos mostrar, é o que toda a gente tem”, começou, “mas a parte que dá volume ao peito, que nem toda a gente tem, podemos mostrar. Nunca percebi como funciona”, conclui a cantora.
A atriz Scout Willis também se juntou ao movimento e, depois de ver a sua conta de Instagram removida, publicou no Twitter fotos suas a fazer compras em Nova Iorque em topless. “O que o Instagram não te deixa ver”, escreveu. Outras celebridades como Rihanna ou Grace Codingtonn são também membros do movimento nascido em 2014.
É um protesto que chegou aos quatro cantos do mundo e que em todos eles recebeu algum tipo de censura. Em 2015, depois de ser assediada online após a publicação de uma foto na qual estava em topless, Adda Smaradottir, de 17 anos, recebeu uma onda de apoio de várias mulheres e homens no seu país, Islândia, incluindo um membro do governo, que protestaram pelas ruas e nas redes sociais recorrendo ao até então acessível #FreeTheNipple.
No mesmo ano, cinco mulheres em Taipé, capital do Taiwan, organizaram o seu próprio protesto a favor do movimento “Free the Nipple”, publicando online imagens em topless que rapidamente foram alvo de censura por parte da comunidade e posteriormente excluídas do Facebook.
Como estas, existem muitas outras histórias de mulheres assediadas nas ruas e redes sociais por exibirem os seus mamilos, mesmo se apenas para amamentar. Vários protestos têm sido organizados por diferentes comunidades e em diferentes locais do mundo, num esforço por continuarem uma luta que dura há já quase uma década. Durante esse tempo, algumas vitórias foram conseguidas, mas muito está ainda por conquistar.
Em 2019, a associação “Free the Nipple Fort Collins” venceu um processo judicial que deu às mulheres de Wyoming, Utah, Colorado, Novo México, Kansas e Oklahoma, nos EUA, o direito de fazer topless. Em 2021, um grupo “Free the Nipple” processou sem sucesso a Ocean City, pela restrição de Maryland a seios femininos expostos. Pinta-se assim o retrato de um movimento com vitórias e derrotas.
A arte vs. o Instagram
Também afetada pelo Instagram estão a arte e a liberdade de expressão que é tão unicamente inerente ao movimento. A juntar-se ao “Free The Nipple”, estão muitos artistas que viram o seu trabalho ser banido do Instagram, para muitos uma forma de dar a conhecer ao mundo a sua arte.

No ano passado, o tópico voltou a ser discutido quando o cineasta Pedro Almodóvar viu o póster do seu filme Madres Paralelas ser censurado pelo Instagram. A imagem, desenhada pelo artista Javier Jaen, é uma montagem que inclui a fotografia de um mamilo, razão pela qual foi removida da plataforma sob o pretexto de violar as diretrizes do Instagram.
A plataforma veio depois pedir desculpa publicamente por ter removido o póster do artista, o que foi considerado uma vitória para o movimento. Ainda assim, as políticas da plataforma persistem e uma vez que apenas as fotografias do mamilo feminino, em oposição a outras formas de arte como a pintura, são removidas, os fotógrafos tiveram de encontrar outras formas de apresentar o mamilo feminino.
Surgiram assim os novos símbolos do movimento: flores, fita cola preta, tinta ou brilhantes que se colocam sobre o mamilo para que o Instagram não remova as fotos. Uma iniciativa colocou, inclusive, sobre os mamilos femininos fotos de mamilos masculinos para que não fossem censurados, uma solução criativa que reforça a ideia de como são ambos iguais e, quando vistos de perto, indistinguíveis.
“Censurar a fotografia é invalidá-la como uma forma de arte”, diz Joanne Leah, fotógrafa, ao The New York Times, estimando ter pelo menos uma publicação removida do Instagram todos os meses. “Cada vez que algo é censurado, é como receber um murro no estômago”, conta.
A campanha “Don´t Delete Art”, que se assume como uma galeria de arte censurada por plataformas dos media social, tem sido uma importante defensora da liberdade artística no Instagram, abrindo um espaço seguro para os artistas, nomeadamente fotógrafos, poderem apesentar o seu trabalho enquanto expõem os motivos da sua remoção da plataforma.
“Contra as diretrizes da comunidade”, “Contra as diretrizes da comunidade, nudez”, “A sua publicação foi removida porque não segue as nossas diretrizes”. A justificação repete-se vezes e vezes sem conta e a frase “contra as diretrizes da comunidade” ecoa uma e outra vez. O alvo é sempre diferente, mas o motivo é o mesmo: a presença de um mamilo feminino na fotografia.
“Perdi todos os meus contatos e seguidores na plataforma. A perda do meu portefólio no Instagram foi muito importante para mim, porque hoje em dia é uma verdadeira vitrine profissional”, escreveu na plataforma Isabel Rodrigues Ramos, artista de fotografia e videoarte.
“Sofrimento emocional, perda de renda potencial, exclusão de um evento significativo”, responde Shelagh Howard, fotógrafa, à pergunta “quais foram, se houver, as consequências da remoção de conteúdo?”. Como Ramos e Howard, muitos outros sofreram com a censura da sua arte e com os limites impostos à sua liberdade de expressão.
Num e-mail em resposta ao New York Times, a chefe de políticas públicas do Instagram, Karina Newton, explicou que o site não procura “impor a sua opinião sobre como os mamilos devem ser vistos pela sociedade”. “Estamos a tentar incluir nas nossas políticas a sensibilidade da ampla e diversificada gama de culturas e países em todo o mundo”, acrescentou Newton.
A diferença criada pelo Instagram entre a fotografia e outras formas de arte vai ao encontro do facto de o site não saber com certeza se os sujeitos representados deram consentimento. A política proíbe também fotos de genitais. O que parece causar controvérsia é o facto de ser o mamilo da mulher, em concreto, o alvo de censura quando o resto do peito não o é.
As opiniões são diversas, mas o movimento parece ter vindo para ficar. Este grito vem agora juntar-se a muitos outros que no passado exigiram igualdade em nome das mulheres e, como todos esses, reivindica um direito que há muito é dos homens, mas que continua a ser barrado às mulheres.