A criação de um comité de investigação para determinar se o dióxido de cloro (CIO2) pode ser usado no tratamento da Covid-19 foi aprovada na semana passada com 49 votos a favor, 39 contra e 31 abstenções, na sequência de uma proposta do médico e político peruano Posemoscrowte Chagua, que acusa a comunidade científicade espalhar desinformação sobre os possíveis benefícios do CIO2. Membro do partido extremista União do Peru, Chagua critica os que veem o composto químico como tóxico. O comité terá 30 dias para investigar “os possíveis efeitos positivos ou negativos do dióxido de cloro em seres vivos, no contexto da pandemia”, cita o jornal colombiano Semana.
Em causa está um composto químico similar à lixivia, cuja utilização em humanos está fortemente desaconselhada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que funciona como escritório regional da Organização Mundial de Saúde(OMS).
Segundo a OPAS/OMS, o CIO2 é um composto químico altamente inflamável e reativo. Com a aparência de líquida ou gasosa verde-amarelada é usado em processos industriais, como desinfetante no tratamento de sistema de águas, esterilização de equipamentos médicos, lavagem de vegetais e de maquinaria industrial e no branqueamento de madeiras e têxteis (como a lixívia). O composto químico tem vindo a ser associado a uma “cura milagrosa” de vários problemas de saúde, incluindo a sida, o cancro e até o autismo. Mais recentemente tem sido ligado a uma possível cura para a Covid-19.
“Não existem evidências científicas que comprovem que possa ser usado para o tratamento da Covid-19 ou quaisquer outras condições de saúde; por outro lado existem relatos adversos graves atribuídos à utilização do medicamento”, pode ler-se no comunicado emitido pela OPAS/OMS. Também a Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela segurança de medicamentos e alimentos dos EUA, manifestou-se contra o uso de CIO2, afirmando que a sua ingestão pode causar uma série de problemas desde diarreia, vómitos, sangramento interno e “insuficiência respiratória e renal aguda”.
A investigação está a provocar várias reações negativas, logo a começar pelo secretário geral da sociedade de cuidados intensivos do Peru, Samuel Cosmé: “A situação pandémica no Peru é lamentável, e também o é a situação do nosso Parlamento”, disse, citado pela Vice, acrescentando que tratou muitos pacientes infetados com o vírus, que viram o seu estado agravar-se depois de consumirem dióxido de cloro.
Também no Twitter várias foram as reações a esta votação. “Aprovou-se uma comissão para investigar o dióxido de cloro. A ciência é clara: NÃO serve para tratar a Covid-19. O que se vai investigar e como? Dá-se espaço para as pseudociências e disparates. Uma péssima mensagem para um cidadão desesperado”, escreve Alberto de Belaunde, político e ativista LGBT peruano. Ed Malaga-Trillo, neurocientista e congressista do Partido Morado, um partido centrista, acrescenta: “Temos de refutar estas coisas até à exaustão porque são inadmissíveis. Tanto esforço de toda uma comunidade científica, divulgadores e media para passar esta vergonha? Não aprendemos!!.”
A classe política peruana tem sido bastante criticada no que diz respeito à gestão da Covid-19, acusada de ignorar a ciência e incentivar a utilização de medicamentos impróprios para o tratamento do vírus.
A América Latina enfrentou uma das piores fases da pandemia no mês passado, com países como o Peru a atingirem novos picos de transmissão, com um aumento dramático das infeções, e os seus serviços de saúde saturados. Devido à crise sanitária, muitos foram os “medicamentos” que se popularizaram, sendo vistos como possíveis “soluções milagrosas”.