Esta segunda-feira, 16 de novembro, os peruanos acordaram num país sem presidente. Depois do impeachment de Martín Vizcarra na semana passada devido à acusação de corrupção, Manuel Merino assumiu o cargo, mas também já se demitiu – foi chefe de estado apenas por cinco dias. “Acho que esta é a crise democrática e de direitos humanos mais séria que vimos desde que Fujimori estava no poder”, diz o analista Alonso Gurmendi Dunkelberg, citado pela agência Associated Press.
“Quero deixar claro a todo o país que apresento de forma irrevogável a minha renúncia ao cargo da presidência e apelo à paz e unidade para todos os peruanos. O meu compromisso é com o Peru e farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir uma sucessão constitucional”, disse Merino no discurso de demissão.
Foi a 10 de novembro, ainda como presidente do congresso, que Merino assumiu a liderança do país até às eleições gerais de abril de 2021. A destituição de Vizcarra, forçada pelo congresso no dia anterior, não agradou ao povo peruano, que decidiu sair à rua por seis noites consecutivas. O número de feridos foi aumentando e, na noite de sábado, contabilizaram-se dois mortos nos confrontos.
No Twitter, Vizcarra lamenta “profundamente as mortes que ocorreram como resultado da repressão deste governo ilegal e ilegítimo”. Merino não conseguiu conter as manifestações e, no domingo, também apresentou a demissão, deixando o país na incerteza. Vários membros do Governo também decidiram abandonar o executivo perante a falta de resposta aos confrontos.
“Incapacidade moral permanente” foi a motivação por detrás da decisão da destituição de Vizcarra, no início da semana passada. O político foi acusado de corrupção entre os anos de 2011 e 2014 enquanto governador da província de Moquegua. Os deputados dizem que terá lucrado em mais de 500 mil euros com subornos de empresas de construção. O processo, no entanto, está em investigação e, por isso, ainda não foi comprovado o seu envolvimento no crime. Ao todo, foram 105 os deputados que votaram a favor da destituição – eram precisos 87.
Esta foi a segunda vez que o ex-presidente teve de se apresentar perante o congresso para debater o impeachment. Em setembro deste ano, Vizcarra sobreviveu com 32 votos a favor, um número insuficiente. Na acusação constava a ligação do político a uma cantora com quem, alegadamente, teria assinado contratos ilegais.
À crise sanitária de Covid-19 junta-se agora a instabilidade política. Merino abandona o cargo cinco dias depois de tomar posse e cinco meses antes das eleições gerais. Foi o quarto chefe de Estado em cinco anos num dos países que mais somam demissões, destituições e detenções de membros do Governo.
Da corrupção às detenções: o destino dos presidentes peruanos nas últimas três décadas
Manuel Merino (10 a 15 de novembro de 2020) – Liderou o processo de impeachment contra Vizcarra. Renunciou depois de duas mortes resultantes de confrontos nas ruas.
Martín Vizcarra (2018-2020) – À segunda tentativa de impeachment, Vizcarra é forçado a abandonar a presidência devido a um alegado caso de corrupção enquanto governador.
Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018) – O ex-chefe de Estado está em prisão domiciliária devido a uma investigação de corrupção enquanto ministro do ex-presidente Alejandro Toledo. Kuczynski é acusado de favorecer contratos com a construtora brasileira Odebrecht.
Ollanta Humala (2011-2016) – Está sob investigação por alegadamente ter aceitado três milhões de dólares para a campanha das eleições presidenciais.
Alan García (1985-1990/2006-2011) – Acusado de corrupção e suborno, García acabaria por se suicidar em 2019 com um tiro na cabeça. Negou sempre as acusações.
Alejandro Toledo (2001-2006) – Acusado de ter recebido 20 milhões de dólares de uma empresa durante o seu mandato, Toledo está a viver sob fiança nos EUA. Passou cerca de oito meses numa prisão da Califórnia.
Valentin Paniagua (2000-2006) – Destaca-se da lista por não ser associado a nenhum crime ou ilegalidade. Serviu o congresso por vários mandatos e faleceu em 2006.
Alberto Fujimori (1990-2000) – Fujimori foi condenado à prisão por comandar grupos que massacraram civis. Foi ainda acusado do crime de corrupção.