
Assim que Portugal decretou o estado de emergência, no dia 18 de março, Andrea e Rodolfo Guerra rumaram à serra da Arrábida. Quando trocou a cidade de Belo Horizonte por uma vida nova em Lisboa, em 2017, o casal brasileiro adquiriu ali uma quinta, com animais e árvores de fruto, refúgio perfeito sempre que pretendem desligar dos negócios que têm na capital, entre a arte e o imobiliário. Isolarem-se no meio da Natureza, para escapar à pandemia, pareceu-lhes a decisão mais sensata.
“Fechámos tudo e fomos para lá dois meses, em autoconfinamento. Cultivámos hortas e nasceram cinco porquinhos, 14 pintinhos e quatro pássaros”, alegra-se Andrea, dando graças por estar deste lado do Atlântico, num momento em que o mundo enfrenta uma crise sanitária sem fim à vista. “Olho para o Brasil e vejo como beneficiamos de segurança ao nível da saúde. Aqui, sabemos alguns números. Lá, são os nossos conhecidos que estão infetados, é o nosso vizinho, o vírus está à porta de nossas casas. Até o Bolsonaro foi capa no New York Times por ter dado positivo.” Rodolfo não tem dúvidas: “Sentimo-nos muito mais seguros cá. Do Presidente da República à pessoa mais humilde, todos tiveram uma atitude responsável.”
A confiança no sistema de saúde parece ser a mais recente virtude que as famílias mais abastadas do Brasil estão a descobrir em Portugal. Ao contrário do que era regra, já não são apenas brasileiros à procura de emprego em setores menos qualificados, como o da restauração ou o da construção civil, a instalarem-se no nosso país para viver. Agora, além de profissionais qualificados, assiste-se à chegada de famílias de classe alta que, durante as últimas duas décadas, tinham preferido rumar em massa para os Estados Unidos da América. Cada vez mais, deixam-se seduzir pelo estilo de vida europeu, e até a crise pandémica joga hoje a favor da opção Portugal, admitem, com elogios ao Serviço Nacional de Saúde. O médico José Hugo Luz, a realizar um doutoramento no Hospital Curry Cabral, na área do cancro, destaca a capacidade de antecipação como um fator decisivo para o sistema público não ter entrado em colapso.
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