Jessica: se queres desfilar em beachwear, faz mais abdominais e controla esses hidratos de carbono.”
A crítica de um grupo de bloguers de moda ao corpo da atriz, que desfilou em biquíni como convidada da Cia. Marítima, em outubro passado, relançou o debate público sobre a pressão insane para ter um corpo perfeito – seja lá o que isso for.
O (desagradável) episódio foi só mais um na sua vida, sempre sob escrutínio alheio. Já lhe tinham dito que a sua imagem não era boa – porque os dentes não são perfeitinhos… – e que a voz, então, ui, nem pensar. “Diziam-me que era demasiado infantil e aguda, e nunca ninguém me iria levar a sério”, conta, de pés enterrados na areia da praia, aproveitando um dia de primavera antecipada. Foi sempre desvalorizando este género de críticas mas, depois do bruá que se gerou a seguir à sua participação na Moda Lisboa, (de gorda a balofa, ouviu de tudo…) resolveu enfrentar de peito cheio o que chama de “doença social” e rematou o livro que lhe tinham proposto há mais de um ano. “Sabia que um dia quereria falar publicamente deste assunto e não havia por que adiar mais.”
Falamos de Não queiras ser perfeita – mas faz o melhor por ti (165 pág., Esfera dos Livros, 16€), nas bancas a partir de amanhã, 20, uma edição assinada pela atriz Jessica Athayde, 29 anos e 55 quilos, mas que chegou a pesar 40, numa altura em que trabalhava muito e tomava comprimidos para tudo – fosse para sair da cama ou para ir trabalhar.
“Não sei exatamente quando começou, nem consigo identificar um episódio isolado que possa explicar o que aconteceu. Lembro-me de que, na altura, andava a trabalhar demais, dormia muito pouco (e mal), os meus níveis de energia atingiam mínimos históricos e tinha perdido 10 quilos em pouco tempo. Um dia, a meio de uma manhã de gravações, o coração disparou, louco, desenfreado como se me falasse ao ouvido. Deixei de controlar a respiração, perdi a força nos braços e nas pernas e caí para o lado. Acordei no hospital, sem saber o que se tinha passado.”
Diagnosticaram-lhe uma anorexia nervosa. O mundo ruiu, e depois ergueu-se outra vez: “”Mantive sempre uma relação de amor-ódio com o meu peso, variando entre o excesso e o mínimo razoável, tendo chegado ao ponto de não ter força para comer uma maçã. [Depois de ter sido internada] reestruturei o frigorífico e também a minha forma de encarar a vida, já que o meu estado normal é ansioso.”
Ninguém diria, ouvindo-a agora, de sorriso aberto, em calções e camisa de ganga, depois da sessão fotográfica na praia de Carcavelos. A decisão de escrever um livro, conta, foi tomada a pensar no público mais jovem, que interpela por tu, e que a conhece desde há dez anos, quando começou, nos Morangos com Açúcar, a vestir a pele de Mimi, uma loira betinha do Estoril.
“Falo do que faço e do que funciona para mim. É uma partilha do que acontece na minha vida, ultrapassado o horror de não saber lidar com a situação. Quando era adolescente, não havia ninguém que falasse sobre isto. Por isso, se puder usar a minha imagem de uma forma positiva e o meu exemplo ajudar os outros…”, prossegue, explicando porque decidiu incluir também capítulos onde partilha receitas de sumos detox e pratos ligeiros, formas de exercitar o corpo e relaxar a mente.
Contudo, garante, não está a tentar ser nenhuma guru. “Não quis escrever mais um livro de auto ajuda. Para mim, é um manifesto: quero ser feliz, viver em paz comigo e com o meu corpo, cumprindo a promessa de me cuidar e respeitar todos os dias.”
‘Eu não sou um croqui’
A declaração surge uma década depois da campanha publicitária que fez mais pelo orgulho das mulheres com peso normal do qualquer programa oficial de alimentação saudável. Foi em 2004 que a Dove lançou a ‘Campanha pela Beleza Real’, mostrando corpos com que a maioria das mulheres se podia identificar – e os anúncios criados pelas várias agências da marca, pelo mundo fora, ganharam uma infinidade de prémios. Segundo a psicóloga de Harvard, Nancy Etcoff, provocou de facto mudanças na forma como as mulheres se aceitam: passaram a incluir a autoconfiança na gama de qualidades para definir a beleza.
Num dos spots publicitários (concebido pelo criativo português Hugo Veiga), o antigo retratista do FBI Gil Zamora pintava as mulheres, sentadas de costas para ele, apenas com base no que elas descreviam, para nos levar a concluir que as mulheres são sempre mais bonitas – e mais magras! – do que pensam.
Pouco depois, sentiam-se outros efeitos, do lado do mundo da moda, há muito associado a esta ideia de magreza excessiva como ideal de beleza. Em 2006, a Semana de Moda de Madrid, um dos eventos mais prestigiados de Espanha, proibia modelos magras demais de desfilar nas suas passerelles. A Associação Espanhola de Estilistas de Moda determinou que quem tivesse um índice de massa corporal (IMC) inferior a 18, não seria aceite no evento. Milão haveria de seguir-lhes as pisadas e, esta semana, discute-se no parlamento francês o mesmo tipo de proibição, a nível nacional.
No outro lado do Atlântico, a agência de modelos brasileira Star Models declarou também guerra à magreza extrema, lançando uma campanha que parte de uma pergunta provocatória: “Já parou para pensar que existem modelos que são tão magras, mas tão magras, que quase parecem um desenho?” Uma série de imagens chocantes segue acompanhada do slogan: “Você não é um croqui. Diga não à anorexia.”
Forte para sempre
A cantora Demi Lovato, atriz revelada pela Disney e musa das adolescentes, acabaria por abrir a caixa de pandora, em 2011, ao confessar que oscilava entre a anorexia e a bulimia, tendo sido internada numa clínica de reabilitação depois de vários episódios de automutilação. Ao olhar para uma fotografia sua em que, como a própria descreve, se viam claramente os ossos do quadril, Demi acrescenta: “Perdi muitos anos a sentir vergonha do meu corpo quando poderia ter sido feliz e saudável.” Era um grande salto na maioridade de uma das muitas namoradinhas da América, esse mundo onde há ainda há lojas que só vendem roupa para magrinhas que caibam num número 32 ou 34 (como a cadeia J. Crew). No lugar dos cortes que fazia nos pulsos, Demi tatuou a expressão “Stay Strong”(permanece forte). E contra a magreza excessiva não se cansa de apregoar: “A vida tem peso.”
Entretanto, foi-se apontando o Photoshop como vilão – e no início do verão passado, outra cara juntou a voz ao manifesto. Cantando Try, a cantora norte-americana Colbie Caillat, de 21 anos, aponta a pressão social que a mulheres sofrem para serem consideradas perfeitas, desde maquilharem-se a manterem-se magras… ou editarem excessivamente as imagens publicadas nas redes sociais.
Em cena entrou ainda Kate Upton, 20 anos, americana típica, loira, curvas acentuadas e rosto de lolita. No calão da moda, seria cheiinha. Mas a modelo saltou para as passarelas em biquíni e, aqui e ali, ouvia-se: “Mas quem é esta gordinha?” Calaram-se quando a todo-poderosa editora Anna Wintour elogiou Kate na Vogue americana, abraçando silenciosamente a causa.
Neste contexto, quando a campanha “Corpo Perfeito” foi lançada, em novembro passado, deixou a Victoria’s Secret em apuros. O slogan usado pela marca de lingerie gerou uma onda de indignação: afinal, recorrera aos seus anjos, com corpos altos e esguios, para passar aquela mensagem. ?O trocadilho não encheu as medidas da crítica, que também mostrou desagrado perante as fotografias da nova coleção desenhada ?por Victoria Beckham, apresentada este mês: as modelos pareciam verdadeiros cadáveres.
Jessica Athayde voltaria, depois do episódio da Moda Lisboa, a dar sinais do seu empenho nesta luta. Primeiro, criando três modelos de biquínis para a marca portuguesa Bohemian Swimwear. Não desfilou na sua apresentação pública, mas aceitou posar ao natural: “Sem Photoshop ou retoques”, anunciava, confiante, na sua página de Facebook. Os fãs aplaudiram: “Estás linda! ?É uma chapada de luva branca”, lê-se num dos muitos comentários publicados. “Quem a critica é porque tem dor de cotovelo”, escreveu outro fã.
Afinal, sabem bem como o problema afeta quase todas as mulheres: segundo os dados do relatório da OMS sobre imagem e comportamento juvenil, “apesar do IMC das raparigas ser normal, elas acham-se gordas”, confirma Margarida Gaspar de Matos, psicóloga, especialista em saúde mental e promoção da saúde, responsável nacional pelo estudo. “Os rapazes são mais otimistas e apresentam uma perceção mais positiva de imagem corporal”, explica.
Os casos mais graves obrigam a intervenção médica, como sucedeu com Jessica Athayde. Segundo Daniel Sampaio, diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital Santa Maria, em Lisboa, chegam vinte novos doentes por mês à Consulta de Doenças do Comportamento Alimentar. O seu perfil (maioritariamente do sexo feminino) corresponde a pessoas com um receio mórbido de engordar. Segundo dados da Grande Lisboa, 7 por cento das adolescentes já se auto mutilou, e 13 por cento tem um potencial risco para a saúde – tudo ligado a uma forte ansiedade e ao facto de não terem a imagem que desejariam.
Roupa para quem?
Até há ano e meio a conduzir o serviço de endocrinologia do mesmo hospital, a médica Isabel do Carmo insiste que há muitas razões que levam as pessoas a terem imagens distorcidas do seu corpo. Muitas vezes, incluem perturbações de personalidade, uma doença quase sempre das mulheres e da condição feminina, mais antiga do que a moda – ou o primeiro caso de anorexia diagnosticado não fosse o de Santa Catarina de Siena, no século XIV, que não comia para ficar em comunhão com Deus, prolongando a quaresma e refutando os pecados da carne (e do resto da comida) indefinidamente. Já a bulimia nervosa é paradigmática dos dias de hoje, uma sociedade obesogénica, como a caracteriza Isabel do Carmo, porque tem uma grande disponibilidade alimentar, em contraste com uma cultura do corpo magro – não do corpo normal. “O que se apresenta como modelo nas passerelles são mulheres escanzeladas. Se olharmos bem para o ar dessas raparigas, têm um estilo zangado e doente, apesar do andar altivo.”
O pico da anorexia, especifica, surge entre os 14 e os 15 anos; a bulimia é mais usual no início da idade universitária. As mais jovens são levadas ao médico pelos pais, contrariadas e embrulhadas em roupa para esconder a magreza – embora a doença se possa tornar crónica e levar ao hospital pessoas de 40 anos. As bulímicas, não tão magras, passam mais despercebidas – e demoram mais anos até pedirem ajuda.
Olhando para as montras das lojas, Isabel do Carmo não se espanta: “A roupa que anda por aí a ser vendida não tem números para as mulheres reais do País. As pessoas não se conseguem meter naquilo…”
O que mais a choca é a perceção de que as raparigas não aceitam a imagem feminina: “Dizem-me que têm partes gordas, e depois apontam as ancas, as coxas e o rabo, onde os estrogénios depositam os ácidos gordos, que são saudáveis.” O pior: dizem-lhe que querem ser “direitas”, como os homens. “Será que é porque querem ser como eles?”, pergunta, aludindo à ideia de que o modelo machista continua a vingar de forma sub-reptícia… e que não há igualdade, nem nas questões do corpo. “A elas, perguntam-lhes o que faz o namorado; a eles, como é que ela é”. Como quem diz: eles são avaliados pela performance, elas pela aparência.
Corpos em perigo
Mais recentemente, a revolução chegou também ao mundo virtual. O Facebook já não permite, desde a semana passada, escolher a definição “Gordo/a” para responder à pergunta “Como te sentes?” Essa opção contribuía para a normalização do sentimento de ter vergonha do próprio corpo, segundo o grupo Endangered Bodies (Corpos em Perigo), que apresentara uma petição para que o Facebook eliminasse essa atualização de estado. Com quase 16 mil assinaturas, a versão norte-americana era encabeçada por Catherine Weingarten, de 24 anos, que teve desordens alimentares e viu nesta campanha uma forma de lutar contra a pressão de que se sentiu vítima. Perante a onda de críticas, o Facebook cedeu.
Em Londres, o ano acabou com a campanha Body Confidence, secundada pela ideia de que todas as pessoas têm o direito, independente do seu tamanho ou forma, de se sentirem felizes com si próprias. Por cá, Francisco Canto e Castro, jovem estudante de gestão da Nova SBE, está a celebrar os seis meses da fundação da Sonder, uma agência de modelos que só aceita gente normal: “Cada vez mais anunciantes querem associar os seus produtos a pessoas em que nos revemos”, justifica.
As próprias modelos saíram à rua, em modo de confissão: veja-se a conferência TED da escultural Cameron Russel, sob o título Looks aren’t everything. Believe me: I’m a model…, qualquer coisa como “o aspeto não é tudo: acreditem em mim, sou modelo”. Depois de trocar o vestido curto e os sapatos de salto alto por uma saia comprida e uns confortáveis mocassins, explicou: “Sou insegura porque tenho de me preocupar com o meu aspeto todos os dias – e, depois, o que veem publicado não são imagens de mim, são construções de outras pessoas”, explica, aludindo à edição de imagem que se banalizou nos media desde que, há 25 anos, foi criado o Photoshop.
Isabel do Carmo deixa outro alerta: “Temos de estar sempre atentos e não contribuirmos para agudizar o problema. Em vez de dizermos ‘fica-te mal, não devias usar isso’, é mais importante fazer observações positivas. Há sempre coisas boas para se dizer.” Ficamos a pensar nisso enquanto vemos Jessica e o seu cão saltitando nas ondas na praia de Carcavelos. E recordamos ainda outras palavras da médica: “A desfilar com aquele ar feliz, não admira que tenha irritado a malta do ar zangado e esquelético…”