Quando foi eleito em janeiro, com 51,7% dos votos, Rui Rocha, já sabia que não tinha o partido todo consigo. E as vozes criticas não se desvaneceram com o tempo. Prestes a regressar à reunião magna – que traz na agenda um ponto nevrálgico, a revisão dos estatutos da IL -, a oposição interna volta a manifestar-se em força, acusando a direção de querer centralizar o poder e esvaziar as competências do Conselho Nacional (CN).
Miguel Ferreira da Silva (primeiro presidente do partido e agora deputado municipal em Lisboa), Tiago Mayan Gonçalves (ex-candidato presidencial), José Cardoso (ex-candidato à liderança) e Hugo Condensa ( ex-candidato a líder do núcleo do Porto) são os principais rostos da oposição. E o primeiro colocou mesmo o seu lugar no Conselho Nacional à disposição, na última reunião deste órgão, a 15 de outubro, em Coimbra, na sequência da apresentação da proposta do Grupo de Trabalho Estatutário (GTE). Segundo o deputado municipal, esta não “reconhece autonomia e representatividade ao CN”, escreveu na sua declaração de voto, a que a VISÃO teve acesso.
O grupo de descontentes vai mais longe e acusa a atual direção, protagonista da proposta anteriormente mencionada, de querer piorar os estatutos do partido. Consideram o documento elaborado pelo GTE “centralista, concentrando o poder na Comissão Executiva, ao arrepio dos princípios democráticos da separação de poderes e dos pesos e contrapesos”, dizem, numa nota enviada à VISÃO, assinada pelos quarto, onde acrescentam que a proposta também “não respeita a autonomia dos núcleos territoriais ao não lhes atribuir autonomia política e financeira e não apresenta reformas estruturais à forma organizacional, que consideramos ser necessária para o crescimento do partido”.
As principais diferenças entre a proposta do GTE e a dos “Estatutos +Liberal” (assinada por Miguel Ferreira da Silva, Tiago Mayan Gonçalves, José Cardoso e Hugo Condensa) são a necessidade de uma segunda volta nas eleições internas (defendida pelos segundos, rejeitada pelos primeiros) e o peso da Comissão Executiva no Conselho Nacional. Se o GTE mantém o voto da direção no CN (embora reduza o peso de 33% para 25% e acrescente mais sete votos dos elementos da Mesa da Convenção Nacional); os segundos querem eliminar os votos da Comissão Executiva.
Para o ex-candidato presidencial da IL, Mayan Gonçalves, “discutir estatutos não é um deserto árido de alíneas ou vírgulas”, sugerindo, numa declaração na rede social X (antigo Twitter), que a atual direção tem de dar o exemplo de acordo com o que critica nos outros partidos. O que está em causa é a identidade da IL, continua Mayan, que coloca duas hipóteses sobre a perceção que se terá dos liberais, depois da revisão estatutária: “fechados e com medo dos membros, ou abertos à força plena dos seus contributos”.
Na mesma nota, o portuense aproveita ainda para esclarecer que, ao contrário do que chegou a ser noticiado, não tem qualquer intenção de deixar o partido. Pelo contrário, diz-se empenhado nos resultados desta revisão.
O debate continuará a subir de tom até à próxima Convenção Nacional – que acontece entre 1 e 3 de dezembro, no Europarque, em Santa Maria da Feira -, onde as propostas de alteração aos estatutos serão votadas, tal como as mudanças no programa político da IL, que é o mesmo desde a fundação do partido.
(Atualizado a 28/10 às 9:30 com as declarações de Tiago Mayan Gonçalves)