No Partido Socialista, suspirava-se pelo regresso de António Guterres à política nacional. Para uns, abria-se (ainda) a perspetiva de o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados poder vir a ser o protagonista da candidatura presidencial dos socialistas e (acreditando nas sondagens) ver o Palácio de Belém regressar a um Presidente de esquerda. Outros, manifestavam o desejo que António Vitorino deixasse a sua atividade profissional e, saindo das brumas sebastiânicas que o envolvem há 20 anos, considerasse entrar na corrida. Por todo o lado, o nome António Sampaio da Nóvoa tornava-se audível. E eis se não quando… Henrique Neto deu o passo. A 25 de março, apresentou a sua candidatura à Presidência da República.
Não informara ninguém do Largo do Rato, e muito menos sondara a direção de António Costa sobre eventuais apoios. As críticas não tardaram. Ninguém esperava. Instado a comentar, ao secretário-geral do PS saiu-lhe um rápido “não sei se há candidatura” para depois dizer, lacónico, “é-me indiferente”. Augusto Santos Silva chamou-lhe, sem qualquer pudor, “bobo” à “procura de 15 minutinhos de fama” e José Lello apodou-o de “Beppe Grillo português”. Nem todos os socialistas são tão agressivos – embora haja mais alguns que não economizam no vocabulário, como se verá mais à frente.
João Cravinho, por exemplo, não lhe poupa elogios: “É um homem de caráter, sério, honrado e direto. Uma pessoa da inovação, com experiência de vida e que não faz isto por vaidade. Tem consciência cívica e acha que pode dar um contributo.” Mas nem tudo são rosas. Cravinho também considera que “o povo tem a noção de que o Presidente é um rei atuante, com um estatuto de moderador” e que Henrique Neto não encaixa nesse perfil de magistrado de influência. A sua candidatura, diz o ex-ministro, “é mais vista como uma candidatura a chefe de executivo.”
Primárias na primeira volta
A maior parte dos socialistas foi-se zangando com Henrique Neto. Com a sua linguagem corrosiva, o ex-empresário de Leiria não teve pejo em apelidar o ex-primeiro-ministro José Sócrates de “aldrabão” e “vendedor de automóveis”, mas, antes, também já criticara António Guterres, o secretário-geral que o levou a sentar-se na Assembleia da República pela primeira vez – depois de Sampaio o convidar, pouco antes, a filiar-se no PS. No círculo socialista, diz-se que foi o facto de Guterres não o ter convidado para ministro que entornou o caldo e, desde aí, nunca mais pararam as críticas aos líderes ou dirigentes do PS. Henrique Neto garante que foi ele quem pediu para não ser convidado, “por causa das minhas empresas”.
Coincidência ou não, a sua candidatura foi apresentada no Padrão dos Descobrimentos, o mesmo local onde Fernando Nobre, há cinco anos, apontou setas para Belém. Nobre começou com cerca de 10% nas sondagens e acabaria por conquistar 14% do eleitorado (que deu maioria, na primeira volta, a Cavaco Silva). “Não é comparável”, diz um dirigente do PS. O “apoio de Mário Soares a Nobre” fez toda a diferença. A “comparação deve ser feita com Defensor de Moura”, que teve 1,59% dos votos. Outro dirigente socialista augura-lhe um resultado ainda menor: “Uns 0,5%” porque, acusa, “é um charlatão. Move-se por questões pessoais, não tem escrúpulos e anda armado em paladino da verdade.”
A sondagem publicada no Expresso do último fim de semana dava 38,3% a Sampaio da Nóvoa, 10,1% a Henrique Neto e 3,6% a Paulo Morais. “Mas o ‘candidato’ que ganha é o ‘não sabe/não responde'” (com 48%), frisa Eurico Brilhante Dias, da direção do Gabinete de Estudos que elaborou o programa eleitoral do PS. A sua leitura destes resultados é que “o eleitorado de esquerda ainda não encontrou o seu candidato” depois do “vazio provocado” pela recusa de Guterres em avançar. Também considera que a existência de várias candidaturas de esquerda “pode ser positiva”. “Haverá uma espécie de primárias, que escolherá o melhor candidato para uma segunda volta”. De qualquer forma, refere, Neto “não reúne as condições necessárias para ser Presidente”.
Exercício esotérico
Vários militantes e dirigentes socialistas contactados acreditam que Neto não vai fazer mossa ao candidato que o PS decidir apoiar. “Não é relevante” e “não divide o nosso eleitorado” foram algumas das ?expressões mais proferidas.
O secretário-nacional Pedro Bacelar Vasconcelos diz que o ex-empresário é de “uma área que vai do CDS à ala mais à esquerda, por isso é difícil saber quem pode prejudicar. É até um exercício esotérico”, graceja. No entanto, ressalva que “as candidaturas são do foro pessoal e que, embora não se identifique com esta, ela é legítima”.
O deputado Renato Sampaio revê-se nas palavras de António Costa: “É-me indiferente.” Outra dirigente do Rato refere “que o eleitorado do PS não se vai deixar iludir por uma pessoa sem carácter, que colocou sempre os seus interesses acima dos do PS”. O candidato “não causa grande preocupação no partido. Tem um discurso hipócrita e nunca foi muito acarinhado no partido”, remata.
Há até quem diga que os “anticorpos” que Neto criou no partido “não são relevantes”. “Ele tem-se em consideração nesses termos, mas não tem dimensão política no PS”, atesta outro dirigente.
Apontam-lhe “falta de apoio de figuras importantes” do PS, com as quais “teria mais notoriedade”. A visibilidade anda, agora, a conquistá-la pelo País. A comitiva já anda na estrada. “Espero que não tenham um furo”, ironiza um deputado, para quem o avanço de Neto para Belém não “terá impacto no PS”.
O candidato que gostava de Seguro por ser “um homem bom” – apoiou-o nas primárias – e tem “dúvidas” em relação a António Costa escreveu, na semana passada, uma carta aos militantes do PS. Explica que apoiou o governo de Guterres “até ao momento em que o partido deixou de cumprir as suas promessas eleitorais” e justifica as críticas a José Sócrates com a “gestão aventureira”, o “autoritarismo, endividamento do Estado para além de toda a prudência, parcerias público-privadas ruinosas”. No final da carta, ressalva: “Não foram as minhas críticas que prejudicaram o PS.”
Doutorado na escola da vida
À direita, são mais meigos. Um dia, conta Luís Mira Amaral, “num debate com ele, na SIC, até tive de citar Churchill, dizendo que dentro do partido é que havia inimigos; os de outros partidos são adversários políticos.” As críticas a Sócrates eram mais virulentas do lado de Neto. Mira Amaral diz que ele é que “era o moderado”.
Nada faria prever a união destes dois homens. Conheceram-se quando o primeiro era ministro da Indústria e Energia de Cavaco e o segundo, além de empresário, era o “ministro-sombra” de António Guterres. A política passou, mas a amizade ficou. “Uma boa amizade”, garante mira Amaral. Hoje, juntam-se na Tertúlia com Energia e no Conselho Consultivo de Indústria da CIP. Ainda na terça-feira almoçaram juntos, na Junqueira.
O ex-ministro laranja tece-lhe os maiores elogios. “Eu tenho dois cursos superiores mas admiro um homem que não é formado, mas é doutorado na escola da vida”, diz. É “independente, realista, com uma visão estratégica sobre a economia e a sociedade portuguesa.” E confessa não entender como é que o PS, “tendo um homem com estas qualidades, que foi operário, gestor e se tornou empresário, que faz a síntese do trabalho e do capital, vai apoiar um professor universitário desligado da realidade”. Acusa o PS de estar a cometer um erro crasso porque, prevê, Sampaio da Nóvoa seria uma “força de bloqueio de um governo PS”.
Mesmo sendo um histórico do cavaquismo, não hesitou em apoiar a candidatura de Henrique Neto e a subscrever a “carta, enviada aos empresários, a pedir financiamento” para a sua campanha.
Neto também é respeitado no meio empresarial. “Infelizmente é preciso dizer que é extremamente sério. Não deveria ser preciso dizê-lo.” Francisco van Zeller vê-o ainda com “uma noção de justiça muito apurada, talvez pela sua origem e por ter estado à frente de uma empresa com muitos empregados.” Não é um “homem do dia a dia, do imediato”, garante o ex-presidente da CIP, mas antes uma pessoa da “estratégia”, que “pensa sobre Portugal há muito anos”.
A trabalhar desde os 14 anos
Henrique José de Sousa Neto, de 79 anos, é um self-made man. Nasceu em Lisboa, mas a Marinha Grande é que é a sua casa. Apesar de lhe chamarem amiúde engenheiro ou doutor, nunca se licenciou. Nem sequer fez o liceu. “Isso era para meninos ricos”, dizia. Começou a trabalhar aos 14 anos, numa caixotaria da Marinha Grande. Estudava à noite. E ainda tinha tempo para a política – no MUD e no PCP. Foi aprendiz de serralheiro, desenhador e diretor até se tornar num empresário de sucesso. Tem o curso industrial e comercial (cinco anos cada um) mas também um de alta gestão, pela AESE e outro sobre inovação, tirado no Japão. A Iberomoldes, como refere Van Zeller, era uma empresa “muito avançada, na liderança daquele ramo, em termos mundiais. E o mérito foi dele!”
Em 2007-2008, foi envolvido na Operação Furacão e constituído arguido. A Iber Oleff, empresa de que era sócio, entrara num esquema de fuga aos impostos. Henrique Neto pagou os impostos sobre rendimentos não declarados (seus e da empresa) e impôs condições aos sócios: despediu o diretor financeiro (que acumulava o cargo na Iberomoldes e na Iber Oleff) e entrou no conselho de administração da segunda, “para controlar melhor as coisas”. Mas as relações entre os sócios estavam demasiado feridas e Henrique Neto, diz, não conseguiu continuar. Em 2009 vendeu todas as participações nas empresas, “em condições desastrosas, para mim” e reformou-se.
Da Marinha Grande ao Chiado
Instalou-se na sua casa do Chiado, com vista para o castelo de S. Jorge. Casado, tem três filhos e quatro netos. O filho mais velho vive na Suíça há 12 anos. A mais nova, é uma das emigradas de Passos Coelho – está a tirar o doutoramento na Irlanda. Henrique, esse, continua a projetar o futuro de Portugal, como faz há mais de 20 anos. E está disposto, a 10 meses de completar 80 anos, a prestar “este último serviço ao País: candidatar-se a Belém.
É visto por alguns, como diz Cravinho, como um “candidato a chefe do Executivo”. Mas Neto defende que o Presidente tem poderes mais que suficientes para fazer algumas mudanças. Antes de mais, “nos valores e comportamentos”, fazendo “a pedagogia do exemplo”. Mas também no sistema político, onde considera necessário alterar as leis eleitorais para que os portugueses se sintam mais representados pelos seus deputados (por isso, defende o voto nominal e a possibilidade de grupos de cidadãos se poderem candidatar às legislativas). Por fim, defende uma mudança estratégica, da economia. Há 20 anos, como agora, quer um Portugal Euro-Atlântico, uma grande plataforma portuária que ponha Portugal no centro do mundo ocidental.
Candidata-se, diz, contra um PM “que fez um elogio público a Dias Loureiro” e um “Presidente que condecorou o ministro das Finanças que durante seis anos levou o País para a ruína”, contra os casos BES/GES, BPN, BPP, as PPP e as swap.
Não tem dinheiro nem apoios partidários. Tem um grupo de pessoas que o convenceram a avançar – Joaquim Ventura Leite, António Curto, António Gomes Marques, Eduardo Correia, Rómulo Machado – e apoiantes que o ajudam a criar uma rede nacional. Já tem “distritais” em Aveiro, Porto, Lisboa, Leiria e Santarém (as de Coimbra, Bragança, Setúbal, Faro, Beja, Castelo Branco e Viseu estão quase e seguem-se Açores e Madeira), responsáveis pela recolha de assinaturas e voluntários. Anda pelo País, com a sua “experiência de vida, da economia nacional e internacional”, uma certa “capacidade para prever” e a vontade de “convencer quer o governo quer os partidos da bondade das ideias” que tem defendido ao longo dos anos.
Quer ganhar, é certo. Mas “esse não é o único objetivo. Também quero transmitir a minha mensagem”.