“O pior cenário ficou para trás.” É assim que o ministro da Defesa da Ucrânia resume o estado da guerra, no dia em que perfaz seis meses que o exército russo invadiu o seu país. Em entrevista à CNN, Oleksiy Reznikov diz que a Ucrânia se encontra “num ponto de estabilização do campo de batalha” e à beira de iniciar a contra-ofensiva.
Mas o ministro também sublinhou que a guerra está longe do fim e que a Ucrânia ainda corre um risco grande: a perda de interesse por parte da comunidade internacional, o que poderia deixar o país sem o apoio militar que lhe tem permitido, para já, sobreviver ao avanço russo. “A síndrome da fadiga é uma das principais ameaças. É muito, muito perigosa para nós.”
A 24 de fevereiro, o mundo acordou para a invasão da Ucrânia, com dezenas de milhares de militares russos a entrarem no país vizinho. O conflito, que muitos esperavam que acabasse rapidamente, com uma capitulação ucraniana em poucos dias, face ao muito maior poderio militar do inimigo, arrastou-se e transformou-se numa longa guerra, com dezenas de milhares de mortos e uma dimensão como não se via na Europa desde 1945.
Passados seis meses, a Rússia controla 20% do território ucraniano (incluindo a Crimeia e as zonas das províncias de Donetsk e Lugansk, que já estavam nas suas mãos desde 2014 e 2015). Mas muitos dos seus objetivos falharam. Não conseguiu, por exemplo, decapitar o governo ucraniano, ao perder a Batalha de Kiev. Putin também afirmara na sua declaração de “operação militar especial”, no dia 24, que queria impedir a expansão da NATO, e em vez disso dois novos países, Suécia e Finlândia, estão a um passo de entrarem na NATO (com a agravante de que a Finlândia tem uma fronteira com a Rússia de 1 300 quilómetros). A sua exigência de que fosse reduzida a presença militar da Aliança nas imediações da Rússia correu-lhe ao contrário, com a NATO a reforçar os contingentes nos países do Leste europeu.
No mesmo sentido, a prometida desmilitarização da Ucrânia redundou em apoios militares no valor de vários milhares de milhões de dólares (incluindo um pacote dos EUA no valor de €3 mil milhões, anunciado por Joe Biden no próprio 24 de agosto, que é também o Dia da Independência da Ucrânia). A “desnazificação” está a ser feita com o apoio do grupo de mercenários Wagner, fundado por um neonazi. E o desígnio de tornar a Ucrânia um país menos hostil para a Rússia resultou exatamente, e como se esperava, no contrário. Inquéritos no país revelam até que muitos ucranianos russófonos estão a abandonar a língua russa e a passar para ucraniano, em reação ao ataque.
Pelo caminho, Putin ainda viu o seu navio-almirante da Frota do Mar Negro, o Moskva, ser afundado e o exército a sustentar um número extraordinário de baixas, incluindo vários generais. O ministro da Defesa britânico disse esta quarta-feira que as observações no terreno apontam para 80 mil baixas, entre mortos, feridos e desertores. A Rússia, acrescentou Ben Wallace, está numa posição “muito frágil”.
Um gigante com pés de barro
Em comunicado, o Ministério da Defesa britânico fez o ponto de situação ao fim de meio ano de conflito: “A Rússia espera um grande contra-ataque ucraniano. Do ponto de vista operacional, a Rússia está a sofrer de escassez de munições, veículos e pessoal. O moral é pobre em muitas partes da sua força militar e o exército está significativamente degradado. O poder diplomático foi reduzido e o panorama económico de longo prazo é sombrio. Ao fim de seis meses, a guerra da Rússia provou ser dispendiosa e estrategicamente nociva.”
Chegado a este momento, muitos analistas, sobretudo militares, têm tentado prever o que se segue – nomeadamente se está iminente uma contra-ofensiva ucraniana. Phillips O’Brien, historiador americano especializado em guerra e professor de Estudos Estratégicos na Universidade de Saint Andrews, Escócia, defende que sim, apelidando os ataques sistemáticos com rockets de alta precisão (como os HIMARS americanos) da Ucrânia a centros de comando e controlo, a depósitos de munições e a pontes como fazendo já parte desse contra-ataque para reconquistar território. “A guerra está a evoluir à luz das mudanças tecnológicas. O que os ucranianos estão a fazer é a encontrar uma forma de vencer sem sacrificar os seus soldados, como fazem os russos”, escreveu no Twitter, onde tem feito análises semanais pormenorizadas sobre a guerra.
O’Brien, que foi um dos poucos analistas a antever que a Rússia se iria meter num atoleiro ao invadir a Ucrânia, comentou ainda a declaração do ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, de que a Rússia tinha desacelerado deliberadamente a “operação militar especial” para evitar vítimas civis: “É o melhor sinal político de que a Rússia sabe que está a perder esta guerra.”
Phillips O’Brien também chama a atenção para a inclusão de material de limpeza de minas num dos pacotes de armamento dos EUA, considerando ser uma pista para o próximo passo. “Para quando os ucranianos estiverem prontos para tentar um grande avanço. Certamente parece ser essa a lógica do pacote.”
O professor universitário (que muitos podem conhecer por ser um dos especialistas que participam nas duas séries de documentários na Netflix Segunda Guerra Mundial a Cores) sublinha, a propósito, que a guerra na Ucrânia revelou a fraqueza do exército russo em relação ao americano. “Se quisermos saber até que ponto as forças armadas russas estão atrás das dos EUA, os russos foram fortemente danificados pela Ucrânia com apenas 20 HIMARS e sem as munições HIMARS de maior alcance. Os EUA têm aproximadamente 540 HIMARS.”
As Forças Armadas da Ucrânia parecem confirmar que os ataques à distância, incluindo vários na Crimeia, fazem já parte da ofensiva. “Se esperavam ver as tropas a levantarem-se e a marcharem pelas estepes da província de Kherson, vão ficar desapontados”, disse Nataliya Gumenyuk, chefe do centro de imprensa de coordenação conjunta das Forças de Defesa do Sul. “Nas condições da guerra moderna, a contra-ofensiva é diferente. Basicamente, passa pelo esgotamento das forças do inimigo.”
Rússia não avança, Ucrânia também não
A Ucrânia, no entanto, ainda não está pronta para avançar no terreno, avisa o general americano Mark Hertling, que desde o início tem feito extensas análises da guerra em várias plataformas. “A Ucrânia – apesar de relativamente bem treinada, bem liderada, com moral elevada, e tendo o apoio do seu governo, cidadãos e vontade de continuar a luta – infelizmente, não tem hoje o treino ou o tipo de organizações e equipamentos para operações de armas combinadas de grande escala”, escreveu no Twitter. “O que a Ucrânia está a fazer agora é preparar o campo de batalha enquanto conduz contra-ataques limitados e operações de guerrilha que contribuem para os estágios iniciais de uma contra-ofensiva. Porque é isso que eles são capazes de fazer neste momento. Vai mudar em breve, mas leva tempo.”
O Instituto para o Estudo da Guerra tem, por outro lado, encontrado vários sinais de que o exército russo “culminou” ou está muito perto disso. Ou seja, que não tem capacidade para avançar mais no terreno. “As operações ofensivas russas no leste da Ucrânia provavelmente esgotaram o impulso limitado que ganharam no final de julho e provavelmente estão a culminar. As forças armadas russas mostraram uma incapacidade contínua de traduzir pequenos ganhos táticos em sucessos operacionais, uma falha que provavelmente impedirá a Rússia de fazer avanços territoriais significativos nos próximos meses.” O think tank americano realça ainda que “a relutância das forças da República Separatista de Lugansk em lutar, juntamente com a presença das forças de Rosgvardia na retaguarda, em vez de perto da frente, provavelmente contribuirá para os contínuos fracassos russos em obter ganhos territoriais significativos.”
O que pode, então, Putin fazer? Muitos temem, por exemplo, que a Rússia esteja a preparar um “acidente” na Central Nuclear de Zaporíjia, responsabilizando depois a Ucrânia, mas é difícil encontrar aqui qualquer vantagem militar. Defender os territórios ocupados é outra hipótese, organizando referendos (ainda que falsos) para legitimar a ocupação. Mas esses referendos não seriam reconhecidos pela Ucrânia nem pela larga maioria da comunidade internacional (recorde-se que só a Síria e a Coreia do Norte, além da própria Rússia, reconheceram as alegadas repúblicas separatistas de Donetsk e de Lugansk), e não seriam impedimento para o exército ucraniano continuar a tentar tomar os territórios – sabendo-se, porém, que a doutrina militar determina que a força atacante deve ser três ou quatro vezes superior à defensiva, para ter sucesso.
Putin pode avançar com uma mobilização geral. O presidente russo ainda não o fez porque isso iria contra a ideia, repetida na propaganda, que a guerra não passa de uma “operação militar especial”. Além disso, quase todos os militares que têm estado a combater e a morrer na Ucrânia são homens de classes baixas de regiões remotas da Rússia, e uma mobilização acabaria por atingir a classe média-alta das grandes cidades, como Moscovo e São Petersburgo, o que politicamente pode ser insustentável. Além disso, os novos recrutas precisarão de pelo menos quatro ou cinco meses de treino até estarem preparados – o reforço viria demasiado tarde.
Democracias vs autocracias
O Kremlin estará, ainda, a contar com uma redução da ajuda à Ucrânia. “Com o aumento dos custos de energia, combustível e alimentos, há uma variedade de questões que desviam a atenção da guerra na marca de seis meses”, realçou o major-general australiano Mick Ryan. Os cortes de gás são usados precisamente para pressionar a Europa. Com preços estratosféricos e o inverno à porta, é a melhor aposta de Putin para convencer os europeus a obrigar a Ucrânia a ceder pelo menos algo que ele possa usar como troféu e retirar-se com algum tipo de vitória que possa apresentar ao povo russo.
Já o Ocidente tem usado as sanções para pressionar a economia da Rússia, embora os efeitos sejam demorados (como vários economistas avisaram no início das hostilidades) e estejam a ser enfraquecidos pelo valor elevado do gás, no mercado internacional. É um braço-de-ferro para ver quem se cansa primeiro.
De uma forma ou de outra, a Rússia cairá e sairá desmembrada depois desta guerra, acredita Ben Hodges, ex-comandante do Exército dos EUA na Europa. “A Rússia, na sua forma atual, provavelmente não existirá daqui a cinco anos. Precisamos de pensar em como lidar com isso, para minimizar o risco e o caos enquanto possibilitamos uma transição pacífica. Não conseguimos fazê-lo com o fim da URSS.”
O preço da derrota russa não será baixo, como se vê pela elevadíssima inflação, em grande parte causada pelo conflito. Mas compensa, porque o que está em causa ultrapassa muito as fronteiras ucranianas, disse Michael McFaul, embaixador americano na Rússia durante a presidência de Obama e autor de vários livros sobre a Rússia. “Se Putin vencer na Ucrânia, vai encorajar autocratas em todo o mundo. Se os ucranianos derrotarem Putin, encorajarão os democratas de todo o mundo. As apostas desta guerra são globais.”