Faz hoje 31 anos que a Ucrânia se declarou livre do jugo soviético, tornando-se formalmente independente e ajudando a dissolver de vez a URSS.
O caminho da independência começou a ser trilhado no início do ano, com uma manifestação popular a 21 de janeiro de 1990 – uma corrente humana com 300 mil pessoas a unir a capital, Kiev, a Lviv, a oeste, perto da fronteira com a Polónia. Este protesto pacífico a exigir a independência emulava a “cadeia báltica”, uma outra corrente humana com cerca de dois milhões de pessoas que atravessou os três estados bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, no ano anterior, a 23 de agosto de 1989. (Um dia que não foi escolhido ao acaso: assinalava-se meio século da assinatura do infame pacto Molotov-Ribbentrop, entre a Alemanha Nazi e a URSS, que conduziria dias depois à invasão dupla da Polónia e ao início da Segunda Guerra Mundial; os países bálticos foram ocupados pelos soviéticos em 1940 ao abrigo desse acordo.)
Nessa altura, a União Soviética encontrava-se em estado de implosão, com várias das suas repúblicas a avançarem com processos unilaterais de crescente autonomia. Essa fraqueza facilitou a Declaração da Soberania Estatal da Ucrânia, aprovada pelo Conselho Supremo da República Socialista Soviética da Ucrânia a 16 de julho de 1990, com 355 votos a favor e 4 contra. O dia chegou a ser comemorado como feriado um ano depois, no primeiro aniversário da assinatura da declaração.
Mas esse documento, apesar de implementar uma série de medidas que, na prática, tornavam a Ucrânia efetivamente independente, ainda não era um declaração formal de completa independência. A 24 de agosto de 1991, o Soviete Supremo da Ucrânia (o órgão legislativo da República, antecessor da Verkhovna Rada, o parlamento ucraniano) aprovou finalmente, com 321 votos a favor, dois contra e seis abstenções, a Declaração de Independência da Ucrânia. A decisão vem na sequência da tentativa de golpe de Estado da URSS por parte de membros da linha dura do Partido Comunista.
24 de agosto passou, assim, a ser o dia nacional da Ucrânia, substituindo o anterior dia identitário da nação ucraniana – 22 de junho de 1918, quando foi proclamada a República Popular da Ucrânia, que existiu durante um curto período, antes de ser engolida pelos bolcheviques russos e integrada, enquanto república, na URSS.
A 1 dezembro de 1991, a independência foi confirmada pelo voto popular, num referendo em todo o país que coincidiu com as primeiras eleições presidenciais ucranianas. O apoio da população à independência da Ucrânia venceu com uns categóricos 93%. Mesmo províncias onde a maior parte das pessoas falava russo ou se identificava como etnicamente russa votaram claramente a favor da independência. Em Lugansk e Donetsk, as alegadas “repúblicas separatistas”, 83% da população votou pela independência. Mesmo na Crimeia, historicamente ligada à Rússia (em 1954, Nikita Khrushchev transferira o controlo da província da Rússia para a Ucrânia), 54% do povo votou pelo sim à independência.
Muitos ucranianos defendiam, então, que o Dia da Independência deveria ser o do referendo, mas manteve-se o 24 de agosto.
Todos os anos, o dia é efusivamente celebrado por todo o país. Este ano, os festejos estão proibidos, por decisão do presidente ucraniano: Volodymyr Zelensky avisou que a Rússia está a preparar para este dia “um ataque particularmente sórdido” contra a Ucrânia. Além de ser o Dia da Independência, hoje marca-se também seis meses sobre o início da guerra, a 24 de fevereiro.