A operação militar desencadeada na noite de sexta-feira para sábado, envolvendo mais de 150 aeronaves, oriundas de diversas bases militares, conseguiu em poucos minutos neutralizar as forças venezuelanas e capturar o homem que ocupava há uma dúzia de anos a presidência em Caracas. O ataque militar, condenado em quase todo o mundo como violador do direito internacional, foi justificado por Donald Trump, na sua primeira conferência de imprensa sobre o assunto, pelas leis americanas (as mesmas que já lhe tinham permitido oferecer uma recompensa de 50 milhões de dólares a quem desse informações que permitissem a detenção de Nicolas Maduro – visto, pelo Presidente dos EUA, não como um chefe de Estado, mas apenas como um vulgar criminoso, que tem de ser capturado e entregue à Justiça… americana, claro.
Para Trump, a operação militar na Venezuela foi uma demonstração do poderio militar dos EUA e, nessa medida, um aviso para o resto do mundo, em especial para os países que ele considera fazerem parte do chamado “hemisfério ocidental”, a sua área de influência, nomeadamente a Colômbia, o México, Cuba, mas também a Gronelândia. E fez questão de o comparar, em termos de capacidade tecnológica militar, com a operação, no verão passado, que destruiu as instalações nucleares do Irão. Mas há uma diferença fundamental entre as duas: enquanto a “Midnight Hammer” (Martelo da Meia-Noite), foi uma operação cirúrgica, destinada a aniquilar – ou atrasar – o programa nuclear de Teerão, esta Operation Absolute Resolve (Resolução Absoluta”) pode prolongar-se por bem mais tempo do que já foi admitido.
Como se verá ao longo dos próximos dias, ter conseguido surpreender e capturar o casal Maduro, numa operação que os EUA dizem ter sido realizada em cerca de meia hora – e apenas “47 segundos”, segundo Trump para concretizar a detenção – pode ter sido o momento mais fácil, desta investida americana na Venezuela. Isto, porque não só a intervenção está a colher a animosidade da comunidade internacional, com a possibilidade de unir ainda mais o chamado Sul Global, como não é garantido que Donald Trump e o seu lugar-tenente Marco Rubio sejam capazes de garantir a governação do país, até ser concluída a transição.
Os perigos estão à espreita, bem como as naturais contradições de um processo de que ainda se conhece muito pouco e que os EUA parecem ter desencadeado com a intenção de demonstrar o seu temível poder militar, mas sem ainda terem explicado muito bem como poderão continuar a exercer o poder, de facto, num país ocupado.
“Vamos administrar o país da forma como deve ser”, foi a única coisa que Trump prometeu, perante os jornalistas, ao explicar os detalhes de uma operação militar que pode estar em vias de se transformar em invasão. Depois, também disse que a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, se tinha posto à disposição dos EUA, após a prisão de Maduro, para colaborar com tudo o que fosse necessário, afirmando ainda que existiam outros membros das forças armadas com quem poderiam colaborar. Afinal, poucas horas depois, a mesma Delcy Rodriguez, após tomar posse numa cerimónia secreta como presidente interina, afirmou que “a Venezuela nunca será uma colónia dos EUA”.
“Já tínhamos denunciado que estava em curso uma agressão, com falsos pretextos”, apenas com o objetivo de “capturar os nossos recursos energéticos e minerais”, sublinhou ainda. E, nesse ponto, é acompanhada pelo editorial board do jornal The New York Times, que desfez, de forma objetiva, a alegação de Trump de que apenas avançou para esta operação como combate ao narcotráfico: “Ao longo da história, governos rotularam líderes de nações rivais como terroristas, como forma de justificar incursões militares como operações policiais. A alegação é particularmente ridícula neste caso, visto que a Venezuela não é uma produtora significativa de fentanil ou das outras drogas que dominaram a recente epidemia de overdoses nos EUA, e a cocaína que produz flui principalmente para a Europa. Enquanto o sr. Trump atacava barcos venezuelanos, ele também concedeu um indulto a Juan Orlando Hernández, que comandava uma vasta operação de narcotráfico quando foi presidente das Honduras, de 2014 a 2022.”
No mesmo editorial, o jornal afirma que a “explicação mais plausível para os ataques à Venezuela” deve ser encontrada na nova Estratégia de Segurança Nacional, onde a administração Trump reivindica o direito a dominar a América Latina, restaurando a proeminência americana no Hemisfério Ocidental. Entre outras medidas, o documento propõe a presença de mais tropas americanas na região.
“Aparentemente, a Venezuela tornou-se o primeiro país sujeito a esse imperialismo moderno, o que representa uma abordagem perigosa e ilegal para o papel dos EUA no mundo”, conclui o mesmo editorial do The New York Times.