A vontade de Maryam, 16 anos, é sair de Cabul. Para um curto passeio com a família até ao Bagh-e-Dawood, o maior parque na área metropolitana da capital afegã. Ou, melhor ainda, para uma viagem com as amigas até à província de Bamyan, onde fica uma das joias turísticas e ambientais do país, o Band-e-Amir – seis lagos de águas azuis cristalinas, separados por barragens naturais, a quase três mil metros de altitude e ladeados pelas imponentes montanhas do Hindu Kush. Infelizmente, esta adolescente não se pode permitir tais luxos, nem arriscar-se aos controlos de segurança dos sete mil agentes do Ministério para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício. A sua prioridade é outra: “Gostaria de ser presidente do meu país, não pelo estatuto, pela riqueza ou pela fama, mas para o construir e para tornar Cabul tão bonita como Paris. No entanto, não posso sequer ir à escola.”

Foto: NOORULLAH SHIRZADA/AFP via Getty Images
O testemunho de Maryam faz parte de uma carta aberta, escrita por jovens afegãs que frequentam uma escola clandestina, enviada a Christina Lamb, uma das mais prestigiadas repórteres britânicas, que se encontra atualmente no Afeganistão, ao serviço do Sunday Times. A iniciativa terá partido da professora que as acolhe, na sua casa, para divulgar uma mensagem muito especial das alunas: “Somos o único país do mundo onde as raparigas não podem ir para o liceu e para a universidade. Pensem nisso!” A docente, identificada como Parasto, também diz de sua justiça: “Vivemos numa terra governada por talibãs, que acham que as mulheres e as raparigas devem estar na cozinha, cobrir-se da cabeça aos pés e não podem sair de casa sem um acompanhante masculino.” O pretexto da missiva deve-se ao primeiro aniversário da reconquista do Afeganistão pelos antigos “estudantes de teologia”, que se assinala a 15 de agosto e que marca também a humilhante retirada das tropas dos EUA e da NATO, após duas décadas de presença ocidental no país que serviu de santuário aos terroristas do 11 de Setembro de 2001.
Cronologia
Vertigem talibã
Seis momentos que marcam os últimos 12 meses da realidade afegã

2021
15 agosto: Após quatro meses de conquistas territoriais, os talibãs entram em Cabul. O Presidente Asraf Ghani e membros do governo fogem do país. Durante duas semanas, o aeroporto é palco de cenas caóticas.
7 setembro: Quase duas décadas depois dos atentados às Torres Gémeas e da intervenção dos EUA e da NATO, o Afeganistão volta a ser um emirado islâmico. O novo governo talibã toma posse.
2022
11 fevereiro: O Presidente dos EUA assina uma ordem para bloquear, em território americano, as reservas do Banco Central do Afeganistão, no valor de sete mil milhões de dólares. Washington está agora a discutir com os talibãs a devolução de parte desse dinheiro para assistência humanitária.
3 abril: O executivo de Cabul proíbe o cultivo da papoila, principal fonte de receita dos agricultores afegãos e a partir da qual se extrai o ópio e a heroína, principais exportações do país nas últimas duas décadas.
7 maio: Após terem proibido o acesso das adolescentes ao ensino secundário, os talibãs anunciam novo pacote legislativo a restringir os direitos femininos, incluindo o uso obrigatório da burka no espaço público.
31 julho: O egípcio Ayman al-Zawahiri, líder da Al-Qaeda desde 2011, é morto em Cabul. O ataque, realizado pelos EUA, constitui um embaraço para os talibãs, por darem guarida a um dos terroristas mais procurados do mundo.
