O problema de Toy Story 5 não é o facto de as crianças passarem demasiado tempo agarradas aos tablets, coisa que já todos ouvimos dizer a propósito do novo filme desta feliz saga. O problema somos nós, adultos, fingirmos que isso aconteceu por magia, como se um tablet tivesse entrado sozinho pela janela, se tivesse ligado à internet e começado a educar a criança enquanto os pais estavam inocentemente sentados no sofá, a ler as notícias ou a ver notificações no telemóvel.
Passámos os últimos anos a oferecer-lhes ecrãs para comerem a sopa, calçarem os sapatos, ficarem caladas no restaurante, sobreviverem às compras ou à fila do supermercado, não interromperem reuniões de Zoom e, sobretudo, para termos cinco minutos de silêncio doméstico sem termos de nos esconder na casa de banho. Depois, muito indignados, descobrimos que uma criança prefere um dispositivo luminoso ao delicioso Woody, um boneco com chapéu de cowboy. É um escândalo. Quase tão grave como descobrir que o cão aprendeu a abrir o frigorífico depois de anos a ver-nos fazê-lo.
É precisamente nesse território — entre a culpa parental, a nostalgia adulta e a nova infância com bateria recarregável — que Toy Story 5 acerta em cheio. A Pixar podia ter feito apenas mais um regresso confortável de Woody, Buzz, Jessie e companhia, com as vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack e Greta Lee, servido igualmente com a habitual dose de música de Randy Newman, olhos húmidos e bonecos de pano a falarem como pessoas. Mas não. Volta a uma saga, que começou com Toy Story em 1995, que parecia emocionalmente encerrada pelo menos duas vezes. Em Toy Story 3 (2010), quando Andy se despediu dos brinquedos e nos reduziu a destroços sentimentais, e em Toy Story 4 (2019), quando Woody descobriu que até os bonecos têm direito à merecida reforma, à liberdade e talvez a uma casa no campo. Agora encontrou uma razão nova, atual e necessária para continuar.
Essa razão chama-se Lilypad. Um tablet em forma de sapo, simpático, luminoso, prestável, sedutor, com aquela voz de quem não precisa de falar alto, mas manda em tudo. Chega ao quarto de uma criança tímida chamada Bonnie como chegam quase todos os objetos perigosos: prometendo ajudar, com as suas cores doces, aplicações, sugestões, jogos, estímulos e aquela eficácia silenciosa que faz qualquer brinquedo tradicional parecer uma peça arqueológica.
Em poucos minutos, instala-se o pânico no universo dos bonecos: a era dos brinquedos acabou? A infância passou a ter atualizações de software? O faz-de-conta foi substituído por notificações e mensagens? A amizade precisa agora de um carregador?
Jessie contra Lilypad
O grande mérito de Toy Story 5 está em não transformar Lilypad num monstro simplista. Era fácil fazer do tablet o vilão absoluto, uma espécie de Darth Vader da pedagogia digital, culpado de todos os males modernos: falta de imaginação, ausência de conversa, crianças que já não sabem brincar umas com as outras na rua ou com brinquedos sem um tutorial a ajudar, e adultos que confundem “tempo de ecrã” com “tempo para respirar”.
Mas Toy Story 5 é muito mais inteligente do que isso. Sabe que o tablet não entrou sozinho em casa. Alguém o comprou. Alguém o carregou. Alguém disse “são só dez minutos” e, meia hora depois, estava também agarrado ao telemóvel a ver receitas, guerras, polémicas políticas, discussões sobre futebol e fotografias de pessoas sempre felizes que foram passar férias onde nós nunca fomos.
A chegada de Lilypad ao quarto de Bonnie não é apenas a chegada da tecnologia ao universo da brincadeira. É a chegada do olhar dos outros, da comparação, da vergonha, da pequena crueldade social que começa cedo e, infelizmente, nunca tira férias. Bonnie tem oito anos. Ainda brinca, mas já começa a perceber que brincar pode ser embaraçoso. Ainda inventa histórias delirantes com bonecos, garfos, dinossauros e objetos sem qualquer vocação dramática, mas já sente a pressão de se tornar “normal”, seja lá o que for isso numa idade em que um garfo com olhos pode ser uma personagem trágica.
É aqui que Jessie ganha um lugar central e belíssimo. Durante anos, foi a cowgirl energética, a amiga leal, a personagem com uma das memórias mais devastadoras da saga: aquele abandono em Toy Story 2, embalado por “When She Loved Me”, cantada por Sarah McLachlan, que devia vir com aviso médico para adultos sensíveis.
Em Toy Story 5, Jessie deixa de ser apenas a personagem que sobreviveu ao abandono. Passa a ser quem melhor compreende o medo de ser substituída. Ela sabe o que significa deixar de ser necessária. Sabe o que é ficar no fundo de uma caixa. Sabe que o amor das crianças é imenso, mas também distraído, volátil e cruel sem querer. Uma criança não abandona um brinquedo por maldade. Abandona-o porque cresce. E crescer, como todos sabemos, é uma das formas mais socialmente aceites de partir corações.
Por isso, quando Jessie enfrenta Lilypad, não está apenas a defender brinquedos tradicionais. Está a defender uma ideia de infância: a infância como tempo de invenção, conversa, falhanço, bonecos espalhados no chão, histórias sem lógica, guerras entre dinossauros e colheres, tardes em que uma almofada é um navio, o sofá é uma montanha e o corredor é uma pista de aterragem.
O tablet pode oferecer mundos inteiros, é verdade. Mas raramente deixa a criança ser autora desses mundos. Muitas vezes dá-lhe tudo pronto: a imagem, o som, o prémio, a próxima fase, o próximo estímulo. O brinquedo, pelo contrário, não faz nada sem a criança. Um boneco parado é só um boneco. Precisa de uma voz, de uma história, de uma mão, de uma mentira. E a mentira, quando é brincadeira, chama-se imaginação.
O problema não é o tablet
A tentação moralista é grande. Olhamos para Lilypad e apetece-nos declarar guerra aos ecrãs, aos telemóveis, às aplicações, aos jogos, aos algoritmos e aos vídeos de crianças a abrir caixas de brinquedos que outras crianças já não abrem porque estão demasiado ocupadas a ver crianças abrir caixas de brinquedos.
Mas o filme não cai nessa preguiça. Percebe que os dispositivos digitais não têm de ser o cemitério da imaginação. Podem, se forem bem usados e orientados, ser ferramentas de descoberta, comunicação, criação e até amizade. O problema começa quando passam de ferramenta a ama, de objeto a substituto, de recurso a vício, de janela para o mundo a cortina fechada sobre o mundo.
Um tablet pode ajudar uma criança a desenhar, ouvir música, aprender palavras, falar com avós distantes, descobrir animais, planetas, mapas, línguas e histórias. Pode até alimentar a imaginação, desde que não a coma ao pequeno-almoço. O que não pode é substituir o chão do quarto, a conversa com outra criança, a negociação dramática sobre quem fica com o Buzz, a injustiça cósmica de perder no jogo da memória, a aprendizagem profunda de saber que uma torre de blocos cai e temos de a reconstruir sem culpar o sistema operativo.
Brincar é aprender a perder, esperar, ceder, inventar, ouvir e responder. Nenhum scroll infinito ensina isso com a brutalidade pedagógica de duas crianças a disputarem o mesmo boneco. É por isso que Toy Story 5 funciona tão bem para adultos e crianças. As crianças riem-se das trapalhadas, dos disparates, dos Buzz Lightyears em multiplicação, de Forky, de Smarty Pants e de todas essas personagens que a Pixar continua a inventar como se tivesse uma linha direta para a infância. Os adultos riem-se também, mas com aquele riso ligeiramente ferido de quem percebe a tragédia por baixo da piada.
O filme fala da perda da inocência. Da infância dos filhos que passa depressa. Da nossa própria infância, guardada algures entre uma cassete VHS, um boneco sem braço e a memória de ver televisão ao sábado de manhã sem sabermos que aquilo era felicidade. A Pixar sempre teve esta perversidade maravilhosa: vende filmes para crianças e depois entra pela sala dentro para fazer terapia aos pais. Um miúdo vê Toy Story e pensa: “Que engraçado, os brinquedos estão vivos.” Um adulto vê Toy Story e pensa: “Um dia também eu fui amado sem reservas e agora tenho dores lombares.”
É um negócio emocional quase criminoso. E continua a resultar porque a saga nunca foi verdadeiramente sobre brinquedos. Foi sempre sobre vínculo. Sobre quem nos acompanha na vida. Sobre aquilo que deixamos para trás. Sobre a forma como os objetos guardam pedaços de nós quando já fingimos ser crescidos.
Rir, chorar e desligar o tablet
O mais bonito em Toy Story 5 é que, apesar da atualidade do tema, não soa a sermão. Não é uma conferência de pedagogia disfarçada de filme de animação, nem uma reportagem alarmista sobre os malefícios dos ecrãs, nem uma campanha de saúde pública com bonecos licenciados. É cinema popular no melhor sentido: divertido, terno, visualmente exuberante, emocionalmente claro, capaz de falar com crianças sem as tratar como tontas e com adultos sem lhes pedir desculpa por lhes fazer vir as lágrimas aos olhos ou chorar baixinho na sala de cinema.
A música tem aqui um papel essencial. Randy Newman regressa com aquele raro equilíbrio entre romantismo e ironia, ternura e melancolia, como se cada acorde soubesse exatamente onde está guardado o brinquedo antigo que já não temos coragem de procurar. E Taylor Swift acrescenta ao filme “I Knew It I Knew You”, uma canção para Jessie que funciona como eco final, resposta e cicatriz emocional de “When She Loved Me”.
É uma daquelas canções que parecem doces até percebermos que também já estamos a salgar as pipocas com lágrimas. A Pixar, “cruel” como sempre, sabe que os adultos entram na sala a acompanhar crianças e saem a precisar de acompanhamento psicológico. O filme também defende a amizade concreta, trabalhosa, feita de presença, escuta e brincadeira partilhada. A amizade que nasce quando duas crianças inventam uma história juntas e uma tem de aceitar que a princesa afinal é um dinossauro e o vilão é uma meia. É isso que a tecnologia, quando mal usada, ameaça empobrecer: não apenas a brincadeira, mas a linguagem afetiva da brincadeira. A capacidade de contar histórias, ouvir histórias e mudar a história a meio porque o cavalo Bala fugiu, a nave explodiu ou a mãe chamou para jantar.
Toy Story 5 não pede o regresso impossível a uma infância sem ecrãs. Essa infância já não existe, e talvez nunca tenha sido tão pura como gostamos de imaginar. Antes dos tablets havia televisão a mais. Antes da televisão, haveria rádio, banda desenhada, livros aos quadradinhos lidos à luz de uma lanterna pela noite dentro, fisgas, joelhos esfolados e adultos convencidos de que a geração seguinte estava perdida.
A humanidade é muito consistente numa coisa: acha sempre que as crianças do presente são piores do que as crianças do passado. Sobretudo quando as crianças do passado somos nós, cuidadosamente editados pela nostalgia.
O tablet no lugar certo
O filme propõe algo mais sensato: não demonizar os dispositivos, mas devolvê-los ao lugar certo. Um tablet pode entrar no quarto. Não pode tomar conta dele. Pode abrir portas. Não pode fechar a criança dentro de si. Pode aproximar. Não deve substituir o toque, a conversa, a presença, a confusão maravilhosa de brincar com outro ser humano. O problema nunca foi Lilypad existir. O problema é quando Lilypad passa a ser a única amiga disponível.
No fim, os brinquedos não acabam. Mudam de lugar, disputam espaço, envelhecem, perdem importância e regressam quando menos se espera. A infância também não acaba de repente. Vai desaparecendo em prestações, como uma subscrição que continuamos a pagar sem reparar. Um dia ainda se fala com bonecos. No outro responde-se com emojis. Um dia Woody é o centro do universo. No outro está guardado numa caixa, à espera de alguém que talvez nunca volte.
E é aí que Toy Story 5 nos apanha: nessa fronteira entre o riso e o luto, entre a piada e a lágrima, entre o brinquedo no chão e o tablet ligado.
Saímos da sala com vontade de abraçar os filhos, ligar aos pais, procurar um brinquedo antigo, reduzir o tempo de ecrã e, evidentemente, consultar o telemóvel para saber onde se vendem aqueles bonecos. Somos fracos, contraditórios e previsíveis. A Pixar sabe disso há trinta anos. E continua a fazer de nós brinquedos nas suas mãos.