“You’ll understand when you get older”
“A Bronx Tale” (1993)
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Chazz Palminteri, o ator nova-iorquino que ficou mundialmente famoso pelas suas participações em grandes êxitos de Hollywood como Os Suspeitos do Costume e pela sua peça e filme autobiográfico A Bronx Tale — Um Bairro em Nova Iorque, título em Portugal —, entrou em palco e, durante cerca de 90 minutos, fez aquilo que hoje parece quase obsceno: contou sozinho uma história. Sem ecrãs gigantes a piscarem, sem hologramas, sem bailarinas penduradas em arneses, sem uma banda sonora a pedir-nos emoções à força, sem aquela maquinaria toda que muitas vezes serve apenas para disfarçar a falta de qualquer coisa parecida com alma. Em A Bronx Tale: One Man Show, há um homem, uma cadeira, uma infância, um bairro inteiro enfiado dentro do corpo de um ator de 74 anos e uma frase que devia estar inscrita à entrada de muitas escolas, teatros, partidos políticos, canais de televisão e administrações de empresas: “A coisa mais triste da vida é o talento desperdiçado.”
Uma história de fantasmas com pronúncia do Bronx
A história de Palminteri nasceu no Bronx, nos anos 50 e 60, quando os bairros nova-iorquinos ainda eram pequenos países, com fronteiras invisíveis, padres, mães à janela, gangsters à porta, miúdos a jogar na rua, famílias italianas, preconceitos raciais, lealdades de sangue e aquela confusão moral tão americana e tão universal em que o bem e o mal nunca aparecem vestidos como nos catecismos ou nos livros sagrados. O pai é motorista de autocarro, trabalhador, honesto, duro, decente. Sonny, o mafioso local, é perigoso, sedutor, elegante, paternal à sua maneira torta, dono da rua e de um tipo de poder que, para uma criança pobre, deve parecer uma mistura de magia, justiça paralela e loja de brinquedos proibidos. Entre os dois está Calogero — Calogero Lorenzo Palminteri, o actor, argumentista e realizador que adotou “Chazz” como nome artístico no início da carreira —, o miúdo que viu aquilo que não devia ter visto e que percebeu cedo demais que crescer é, muitas vezes, escolher qual é o adulto que não queremos vir a ser.
O gangster que dizia o mesmo que o pai
A grande inteligência de A Bronx Tale está precisamente aí: Sonny não é apenas o diabo de fato bem cortado e o pai não é apenas o santo doméstico da moral operária. A vida, essa inconveniente, nunca ajuda os argumentistas preguiçosos. O gangster também dá bons conselhos. O pai, por vezes, parece impotente diante da realidade. O crime tem charme, dinheiro, respeito, carros, mulheres, medo. A honestidade tem contas para pagar, suor, orgulho e, muitas vezes, um autocarro para conduzir todos os dias enquanto os outros passam à frente pela porta das traseiras da existência. O problema, como sempre, é que o atalho costuma cobrar portagem. E, no Bronx de Palminteri, a portagem paga-se com medo, sangue, solidão e morte.
Não admira que Robert De Niro, ao ver este espetáculo no início dos anos 90, tenha percebido que ali havia cinema. Não cinema no sentido pobre da palavra, esse cinema que hoje muitas vezes se confunde com franchising, engenharia financeira e bonecos digitais a baterem uns nos outros até à anestesia geral. Cinema verdadeiro: personagens, conflito, memória, culpa, desejo, violência, humor, contradição, rua, destino. De Niro pegou na peça e transformou-a em A Bronx Tale, ou Um Bairro em Nova Iorque, filme que marcou a sua estreia na realização, em 1993. Ele fez de pai, Palminteri fez de Sonny, o miúdo ficou dividido entre os dois e o filme tornou-se uma dessas obras que parecem menores apenas para quem confunde grandeza com espalhafato.
Mas antes do filme houve o palco. E é ao palco que Palminteri regressa sempre, como quem volta ao local do crime, mas também ao local da sua salvação. Sozinho, interpreta cerca de 18 personagens: o pai, a mãe, o miúdo, Sonny, os tipos do bairro, os amigos, os inimigos, as vozes, os mortos, os sobreviventes, os idiotas, os perigosos, os ternos, os brutais. É um número de circo? Também. É uma aula de representação? Sem dúvida. É stand-up? Não exatamente, embora tenha mais graça do que muito humor fabricado em laboratório. É teatro? Sim, daquele teatro primitivo e essencial em que alguém se levanta diante de nós e diz: “Isto aconteceu-me. Agora ouçam-me.”
Um homem, uma cadeira e uma cidade inteira
O mais impressionante em A Bronx Tale: One Man Show não é Palminteri conseguir mudar de voz, corpo, ritmo e respiração com a precisão de quem muda de canal sem telecomando. Isso é técnica, e técnica ele tem para vender a retalho. O mais impressionante é nunca parecer exibição. Não há ali o actor a dizer-nos: vejam como sou virtuoso, vejam como faço 18 bonecos, vejam como mereço uma estátua, uma ovação, uma massagem cervical e talvez uma sandes de pastrami no fim. Nada disso. Há uma urgência quase religiosa. Ele próprio já chamou ao espetáculo uma espécie de missa de fantasmas. E percebe-se. Palminteri não representa apenas pessoas. Convoca-as. Põe-nas em circulação. Traz para o palco um bairro que já não existe, uma América que talvez nunca tenha existido como a nostalgia gosta de a vender, e uma infância que foi ao mesmo tempo ferida e combustível.
Há qualquer coisa de profundamente cinematográfico nisto, mas não por imitação do cinema. Pelo contrário: é cinematográfico porque nos obriga a filmar dentro da cabeça. Quando Palminteri descreve a rua, vemos a rua. Quando fala de Sonny, vemos Sonny. Quando o miúdo hesita, vemos o miúdo. Quando o pai tenta salvar o filho, sentimos a derrota antecipada dos pais que sabem que amar não chega, educar não chega, avisar não chega, porque há sempre um mundo lá fora com mais néon, mais perigo e melhor guarda-roupa. O cinema, no fundo, começou assim: alguém a projetar sombras numa parede e os outros a acreditarem nelas. Palminteri faz isso sem projector. É mais barato e, em certos momentos, mais eficaz.
O espetáculo tem ainda essa coisa rara: não tem medo de ser moral. Hoje há uma alergia enorme à palavra moral, talvez porque a confundimos com moralismo, missa punitiva, sermão de sacristia ou comentário televisivo ao domingo à noite. Mas A Bronx Tale: One Man Show é moral no sentido mais antigo e mais nobre: pergunta como se vive, quem nos forma, que preço têm a lealdade e a amizade, o que fazemos com o talento, como escapamos ao destino que nos parecia reservado. Não vem ensinar boas maneiras à mesa nem distribuir certificados de pureza ética. Vem dizer que há escolhas que nos salvam e escolhas que nos comem vivos. E que a diferença entre umas e outras, às vezes, é uma fração de segundo, uma frase do pai, uma morte no momento certo, uma bússola interior que ainda não avariou completamente.
De Niro, Scorsese e o bairro como destino
É inevitável pensar — ou comparar — com os filmes de Martin Scorsese: Cavaleiros do Asfalto (Mean Streets) ou Tudo Bons Rapazes (Goodfellas), e em todos aqueles homens pequenos que se julgam deuses porque alguém lhes tem medo num quarteirão da cidade. Mas Palminteri — que, por sinal, nunca trabalhou com o realizador nascido no outro bairro nova-iorquino, Little Italy — não é Scorsese e isso até joga a seu favor. Scorsese filma a culpa católica como se cada pecado tivesse uma câmara lenta à espera. Palminteri conta a culpa como quem a ouviu na cozinha, na rua, no café, no banco de trás de um carro, no silêncio depois de um tiro. Há menos virtuosismo formal e mais fábula. Menos ópera do crime e mais conto de formação. Se Scorsese mostra como o crime seduz e devora, Palminteri pergunta como é que alguém se escapa antes de ser mastigado.
E depois há De Niro, figura tutelar desta história quase tanto como Sonny e Lorenzo. De Niro percebeu que o texto tinha sangue, bairro, humor e estrutura clássica. Percebeu também que Palminteri não podia ser apenas vendido a Hollywood como matéria-prima, essa coisa que a indústria adora fazer: comprar a vida dos outros, aparar-lhe as arestas, mudar-lhe o fim, contratar alguém mais bonito e mandar o autor sentar-se caladinho no fundo da sala. Palminteri, que na altura não nadava propriamente em dinheiro, recusou vender a peça se não pudesse escrever o argumento e interpretar Sonny. Foi uma aposta. Ou, para usar linguagem mais próxima do Bronx, foi meter as fichas todas na mesa e olhar o casino nos olhos. Ganhou. E ganhou porque percebeu uma coisa que muitos artistas esquecem quando cheiram o primeiro cheque grande: há histórias que, se forem entregues demasiado cedo, deixam de nos pertencer.
O bairro do Bronx torna-se universal
O Bronx de Palminteri parece, à partida, muito específico e localizado: italiano-americano, católico, masculino, violento, racialmente inflamado, comunitário, fechado sobre si mesmo. Mas as perguntas tornam-se universais e atravessam oceanos sem precisar de visto: quem nos educa quando a rua educa mais depressa do que a família? Quem nos salva quando o perigo tem mais carisma do que a virtude? Quantos miúdos crescem ainda hoje divididos entre o pai que trabalha e um ‘Sonny’?
E por cá também existem bairros transformados em destinos, talentos desperdiçados, miúdos recrutados pelo brilho fácil do dinheiro, adultos que confundem sobrevivência com esperteza, e famílias inteiras a tentar manter os filhos longe daquilo que está mesmo à porta. A diferença é que nós temos menos Cadillacs, menos diners, menos basebol. Mas o mecanismo é parecido. O poder seduz sempre mais quando vem com sapatos ou ténis caros ou de marca. A decência, coitada, chega muitas vezes de passe social.
É por isso que A Bronx Tale é uma peça que continua a funcionar. Não é apenas nostalgia de um bairro nova-iorquino, nem cartão postal mafioso para turistas da violência. É uma história sobre o magnetismo do errado. Sobre a beleza perigosa dos homens que mandam. Sobre a sedução da pertença. Sobre o momento em que um rapaz percebe que o mundo adulto é uma coleção de contradições ambulantes: o criminoso pode ser afetuoso, o homem honesto pode parecer fraco, os amigos podem ser imbecis, os inimigos podem dizer verdades, o amor pode ser atravessado pelo racismo e a maturidade pode chegar tarde, mas convém que chegue antes do funeral.
A idade também é uma forma de montagem
Há ainda uma dimensão muito bonita no facto de Palminteri continuar a fazer este espetáculo aos 74 anos. Quando o escreveu, era o homem a olhar para o miúdo que tinha sido. Agora é também o pai a olhar para o pai que teve. A mesma história mudou de centro sem mudar de texto. Isto é teatro vivo, não museu. A idade não lhe retirou força; deu-lhe eco. O que antes podia parecer energia autobiográfica tornou-se balanço, elegia, acerto de contas. Palminteri já não está apenas a dizer:”foi assim que sobrevivi”. Está também a dizer: “agora percebo melhor quem tentou salvar-me.”
Essa talvez seja a verdadeira emoção de A Bronx Tale: One Man Show: percebermos que todos crescemos tarde demais para agradecer devidamente a certas pessoas. O pai de Calogero dizia-lhe para fazer a coisa certa, para estudar, para se afastar, para não confundir respeito com medo. Sonny dizia-lhe, por caminhos tortos, algumas coisas parecidas. O miúdo teve a sorte — e a inteligência — de ouvir o suficiente para não se perder de vez. Quantos não ouvem? Quantos ouvem e não ligam? Quantos têm talento e o atiram pela janela porque ninguém lhes disse, no momento certo, que o talento é uma responsabilidade e não apenas uma desculpa para se ser insuportável?
Palminteri podia ter sido engolido pela mitologia que descreve. Podia ter ficado prisioneiro do bairro, da pose, da masculinidade armada, da lealdade ao grupo, desse teatro de homens que passam a vida a representar força porque têm pavor de parecer frágeis. Em vez disso, transformou tudo em arte. É esse o verdadeiro golpe. Não o gangster matar alguém na rua. Não o miúdo ficar calado. Não De Niro descobrir a peça. O golpe maior é este: pegar no trauma, no fascínio, na culpa, na memória e fazer deles uma máquina narrativa que continua, décadas depois, a agarrar plateias pelo colarinho.
O talento desperdiçado e outros crimes
No fim, fica a frase. A tal. “A coisa mais triste da vida é o talento desperdiçado.” É uma frase simples, quase demasiado simples, daquelas que podiam estar perfeitamente escritas num mosaico motivacional, numa palestra de empreendedorismo ou num ginásio com cheiro a suor e proteínas. Mas aqui não soa a frase feita porque vem carregada de mortos, escolhas, esquinas, pais, filhos e noites mal iluminadas. Também não funciona como um post para o Instagram. É uma sentença. E talvez por isso nos comova mais.
Chazz Palminteri não desperdiçou o seu talento. Fez dele uma peça, um filme, um musical, uma carreira, uma memória pública, uma espécie de testamento em andamento. E, no São Jorge, provou que ainda há qualquer coisa de insubstituível no teatro quando o teatro se lembra da sua função mais antiga: juntar pessoas numa sala para escutarem alguém que viu qualquer coisa e voltou para contar. Palminteri conquista a atenção à moda antiga: com presença, ritmo, verdade, humor, perigo e uma história que sabe para onde vai.
A Bronx Tale: One Man Show é, portanto, mais do que o regresso de uma história famosa ao seu formato original. É um lembrete brutal e comovente de que a grande arte narrativa não precisa de muita coisa: precisa de uma voz que tenha vivido, de um corpo que saiba carregar fantasmas e de uma plateia disposta a acreditar. O resto são adereços. E, convenhamos, há poucos prazeres maiores do que ver um actor sozinho em palco fazer aparecer uma cidade inteira, uma família, uma máfia, uma infância e uma lição de vida.
No fim, saímos com vontade de rever o filme de De Niro, mas sobretudo com vontade de telefonar ao nosso pai se ainda o tivermos, aos filhos, aos amigos que se perderam pelo caminho, ao miúdo que fomos, ao talento que deixámos encostado num canto a apanhar pó. Porque o verdadeiro perigo nunca foram os Sonnys. O verdadeiro perigo é acordar um dia e perceber que desperdiçámos aquilo que tínhamos para ser. Isso, sim, é crime organizado.