Aquí, de Tiago Guedes, parte de uma dessas perguntas aparentemente inocentes, quase infantis, mas que, no fundo, é uma granada filosófica com o pino meio solto: “Porque estou aqui?” Não “aqui” no mapa, não “aqui” no quarto, não “aqui” nesta cidade sem sabor, mas aqui no mundo, aqui nesta vida, aqui nesta confusão organizada a que chamamos existência porque “caos com horários” ficava pior nos documentos oficiais.
Adaptado da Trilogia de Jesus, de J. M. Coetzee, Prémio Nobel da Literatura, e produzido por Paulo Branco, Aquí não é exatamente um filme para quem gosta de certezas ou respostas arrumadas em gavetas. Tiago Guedes sabe-o perfeitamente. Adaptar Coetzee não foi um exercício literário, mas uma espécie de confronto físico com a sua própria “orfandade originária”. Bonito, grave, um bocadinho assustador, mas exato. Porque Aquí não quer ilustrar livros. Quer filmar um vazio. E poucos vazios são tão cinematográficos como aquele em que uma pessoa perdeu o passado, a memória, a origem e, mesmo assim, ter de continuar a levantar-se de manhã, educar uma criança e fingir que sabe o que está a fazer.
Um país chamado esquecimento
A história, falada em espanhol — e já explico porquê —, com um elenco europeu onde estão também alguns atores portugueses, mas em pequenos papéis diga-se, acompanha Simón, (Manolo Solo), um homem que toma conta do pequeno David, (Álex Peláez), uma criança encontrada durante a travessia para uma nova vida. Chegam a um lugar onde todos parecem recomeçar sem passado, como se a História tivesse sido lavada a seco, passada a ferro e devolvida sem manchas, sem sangue, sem traumas e, sobretudo, sem graça nenhuma. Simón procura a mãe de David e reconhece em Inés, (Patricia López Arnaiz), a mulher certa. Ela aceita. E nasce ali uma família estranha, improvisada, sem manual, sem ADN sentimental, sem fotografias antigas na cómoda. Uma família inventada, portanto, que são, no fundo, quase todas, embora muitas façam questão de fingir o contrário.
O mundo de Aquí é aquilo que Tiago Guedes define como um “não-lugar”: burocrático, brando, sem grande violência visível, mas atravessado por uma paz estéril, dessa paz que só existe quando alguém tirou ao mundo a vontade, o conflito e talvez a alma. É uma espécie de distopia educada, sem grandes manifestações, sem capacetes, sem exércitos à porta, mas com regras suficientes para nos lembrar que há sociedades que não precisam de ser brutais para serem opressivas. Basta terem formulários.
É neste território cinzento que o pequeno David se torna o elemento impossível. A criança não aceita o molde. Não gosta de imposições. Faz perguntas. Resiste. Imagina. Insiste. E isso, numa sociedade que prefere pessoas domesticadas, é quase um ato de revolta. Onde o sistema vê regras, David vê gigantes. Onde os adultos veem um problema pedagógico, ele vê uma aventura quixotesca. E aqui entra Dom Quixote de La Mancha, que David carrega consigo numa edição ilustrada para a juventude: não como símbolo escolar, daqueles que se obriga as crianças a lerem ou se põem nos filmes para os espectadores mais aplicados escreverem teses, mas como contaminação. Um livro que acompanha, sugere, desarruma. David lê o mundo como quem o inventa, e inventa o mundo como quem o lê.
A criança que os adultos querem traduzir
Tiago Guedes disse numa entrevista — salvo erro, a que está no dossier de imprensa — que a relação entre Simón e David é também um laboratório das dificuldades de comunicação entre adultos e crianças. E talvez seja isso que torna Aquí um filme tão perturbador. Não porque mostre pais maus ou filhos impossíveis, mas porque mostra uma verdade inconveniente: a de que os adultos, mesmo quando amam, têm uma tendência quase natural, mas pouco saudável, para reduzir o mistério dos filhos a problemas de comportamento.
David é curioso, livre, obstinado, por vezes irritante, como são irritantes todos os seres que recusam obedecer à nossa necessidade de explicação para tudo. Simón tenta ser paciente. Explica-lhe o mundo, muitas vezes como se também o estivesse a aprender naquele instante. Noutras, perde a paciência, porque a santidade parental é uma aldrabice publicitária inventada por quem nunca tentou pôr uma criança a cumprir uma regra absurda antes do jantar. O filme não transforma isto num discurso sobre parentalidade — felizmente, porque já há livros de auto-ajuda suficientes a cometer essa exorbitância —, mas deixa que a relação entre os dois revele uma coisa muito simples: amar alguém é aceitar que essa pessoa talvez nunca caiba na nossa tradução.
Daí a importância da dança no filme. Em Aquí, a dança — que, aliás, proporciona alguns dos seus momentos mais belos — não aparece apenas como ornamento, nem como intervalo bonito para aliviar a densidade metafísica. A dança é linguagem. Ou melhor: é aquilo que existe quando a linguagem falha. “As palavras são fracas. É por isso que dançamos”, diz uma personagem. E pronto, está quase tudo dito. Simón não compreende a dança porque precisa de transformar tudo em discurso. David dança porque há coisas que não se explicam sem morrerem na explicação. Se a dança fosse explicada, deixaria de ser dança. Tal como uma criança inteiramente compreendida talvez deixasse de ser criança e passasse a ser apenas um adulto em miniatura, que é uma das formas mais tristes de ficção científica.
Coetzee, Cervantes e a arte de não fechar a porta
O desafio de condensar a Trilogia de Jesus num só filme era, evidentemente, suicida. Ou quase. Coetzee não escreve romances que se deixem adaptar como quem muda móveis de uma casa para outra. Escreve territórios filosóficos, enigmas com personagens, diálogos depurados até ao osso, onde o que não é dito pesa tanto como o que aparece na página. Tiago Guedes percebeu isso e assumiu que a adaptação não podia ser uma transposição obediente. Tinha de ser uma leitura cinematográfica, com liberdade, cortes, reorganização, respiração própria.
O que ficou, segundo o realizador, foi o núcleo emocional e existencial: Simón, David, a procura de sentido num mundo que não oferece respostas, a inocência confrontada com sistemas que querem moldá-la. E aqui talvez esteja o gesto mais inteligente do filme: não simplificar o mistério para o tornar mais vendável. Há uma tentação contemporânea muito engraçada, sobretudo no cinema internacional de prestígio: pegar numa obra difícil e transformá-la numa espécie de versão gourmet para quem gosta de se sentir profundo sem correr riscos. Aquí parece recusar essa dieta mole. Prefere ficar ao lado do mistério. Não resolve. Não consola. Não fecha a porta. Fica ali, no limiar, a dizer-nos que talvez existam outros mundos, mesmo quando não conseguimos explicá-los.
O espanhol como língua do filme também não é acidente. Coetzee, nos últimos anos, passou a considerar a tradução espanhola dos seus livros como uma espécie de versão original. Tiago Guedes segue esse gesto, não apenas por respeito pelo escritor, mas porque o espanhol dá ao filme uma neutralidade deslocada, uma geografia indefinida, um lugar que parece estar em todo o lado e em parte nenhuma. É uma língua que aqui funciona como território de exílio.
Tiago Guedes: do escuro português ao não-lugar de Coetzee
Aquí também não surge do nada na filmografia de Tiago Guedes. Pelo contrário. É talvez o prolongamento mais abstrato de um percurso que sempre se interessou por casas assombradas, famílias em ruína, comunidades em decomposição, fantasmas históricos e personagens que parecem viver entre aquilo que foram e aquilo que já não conseguem ser.
Em Coisa Ruim, co-realizado com Frederico Serra, em 2006, havia ainda o gosto pelo género, pela casa, pelo medo, por essa tradição portuguesa muito nossa de achar que o passado nunca morreu, apenas se mudou para o quarto ao fundo do corredor. Em Entre os Dedos, também com Serra, em 2008, o realismo social cruzava-se com uma ideia de perda, precariedade e erosão íntima. Depois veio A Herdade, em 2019, talvez o grande momento de afirmação internacional de Tiago Guedes: competição em Veneza, candidato português ao Oscar, sucesso na ARTE, uma saga familiar e política sobre Portugal, a terra, o poder, a herança, o império doméstico e essa melancolia nacional de quem herdou uma casa enorme e não sabe bem se deve viver nela ou incendiá-la.
Com Glória, em 2021, a primeira série portuguesa original da Netflix, Guedes entrou no thriller de espionagem e na Guerra Fria, provando que a televisão portuguesa também podia deixar de parecer filmada no intervalo de uma reunião. Em Restos do Vento, em 2022, apresentado em Cannes, nas Sessões Especiais, portanto também fora da competição, voltou à comunidade, ao trauma colectivo, aos rituais e à violência latente que fica quando uma aldeia tenta fingir que esqueceu. Em Diálogos Depois do Fim, em 2023, a partir de Cesare Pavese, levou ainda mais longe o gosto pela palavra, pelo mito, pela depuração, pela conversa como espaço de conflito espiritual.
Vista assim, a chegada a Coetzee não parece uma extravagância. Parece quase inevitável. Tiago Guedes foi-se afastando do naturalismo mais imediato para chegar a uma espécie de cinema do essencial: menos explicação, mais silêncio; menos psicologia decorativa, mais presença; menos mundo reconhecível, mais ferida. Aquí leva isso ao extremo. É o filme de um realizador português a trabalhar em escala internacional, com atores espanhóis e um imaginário literário global, mas continua a ser, no fundo, um filme de Tiago Guedes: sobre a memória que falta, a família que se inventa, a criança que resiste, o adulto que falha e o mundo que prefere normalizar aquilo que devia aprender a escutar.
A liberdade como problema administrativo
O mais bonito — e talvez o mais cruel — em Aquí é que David não é tratado apenas como criança excecional. É tratado como ameaça à ordem. Não por fazer mal, mas por não encaixar nos moldes que lhe tentam impor. E a modernidade, essa senhora tão simpática nas brochuras, tem um problema antigo com tudo o que não encaixa. Chama-lhe diferença, depois necessidade educativa, depois acompanhamento, depois caso, depois processo. Quando damos por isso, o mistério já está carimbado.
Tiago Guedes filma essa violência silenciosa: a da educação quando deixa de ser encontro e passa a ser domesticação. David é uma figura quase crística, diz o realizador, mas também quixotesca, obstinada, inconveniente. Uma criança que obriga os adultos a admitir que não sabem. E talvez seja esse o verdadeiro escândalo. Os adultos toleram quase tudo nas crianças menos a possibilidade de elas terem razão de uma forma que não conseguimos compreender.
Aquí é, por isso, um filme sobre a parentalidade, mas sem a baba emocional do género; sobre a infância, mas sem a transformar em postal; sobre a diferença, mas sem lhe pôr uma moldura moralista; sobre a fé, talvez, mas uma fé sem catecismo; sobre o cinema, também, porque um filme, como uma criança, morre um pouco quando alguém exige que ele explique demasiado depressa porque está aqui.
No fim, talvez seja isso: Aquí está aqui para nos lembrar que nem tudo o que não entendemos precisa de ser corrigido. Às vezes, precisa apenas de ser acompanhado. Com paciência, com espanto, com medo, com amor. E, se possível, com a humildade de não chamar educação à nossa incapacidade de aceitar o mistério dos outros.